Unificando gente e atividade
Dia de semana, tarde, por volta das 15h: uma mulher caminha na pista própria para o exercício, um grupo de adolescentes joga queimada na quadra de areia, um jovem se exercita nos aparelhos de ginástica, quatro homens se revezam numa mesa de tênis de mesa, uma turma de pré-adolescentes se prepara para a aula de dança, uma mulher navega pela internet na biblioteca, quatro crianças tocam flauta numa sala, cerca de dez garotos disputam o espaço da pista de skate, algumas famílias aguardam seus cachorros e gatos serem castrados e muitas outras pessoas passam, ficam ou se vão. Em movimento, o Centro de Arte e Esportes Unificado, o CEU da Zona Norte, faz lembrar um fim de semana. Mas não, é um dia comum, assim como é comum aquela frequência superlativa todos os dias. Atualmente passam pelo local, semanalmente, cerca de quatro mil pessoas, incluindo os mais de 1.200 atendidos pelas 58 turmas das 13 oficinas que funcionam ali.
Passado um ano de sua inauguração, ocorrida em 15 de março de 2015, o local se inscreve, hoje, como o principal equipamento cultural da Prefeitura, tanto pelas visitações, quanto pela disponibilidade de atividades. Suados, dois primos moradores do Bairro São Judas Tadeu, se equilibram em seus skates, treinando manobras, após uma manhã de aulas. “A praça chegou para a gente ter o que fazer”, diz Álefe Henrique da Silva Santos, 13 anos. Segundo ele, sempre que a mãe deixa, e quando tem companhia, corre para o CEU. Na última terça, levou o primo Gabriel Alexsander Fernandes Felipe, 13, que foi ao local pela segunda vez. É que antes ele não tinha o tão sonhado skate, que ganhou há duas semanas. “Agora quero vir mais”, conta Gabriel.

Amanda Cristina Cabral Lima, 28, também quer ir mais. Todo os dias (quando não está chovendo!), ela sai do Bairro Vila Esperança II, a pé, com os dois filhos de 6 e 3 anos e com uma caixa de isopor amarrada num carrinho. Por volta das 13h, após deixar as crianças na creche, ela chega ao CEU da Zona Norte, com sua caixa abastecida com 40 “chup-chups”, cada um vendido a R$ 1,50. “Minha mãe já fazia para vender em casa. Daí tive a ideia de ganhar um dinheirinho nesse calor. Ajuda, né?!”, comenta ela, que percorre a praça, senta-se, depois vai a um bairro próximo e, aos finais de semana, precisa ir em casa para reabastecer o isopor.
O triunfo local e nacional
Não havia uma receita, mas uma direção, que precisava ser seguida não apenas pela gestão local, mas pela comunidade onde a praça se inseria. Integrante do PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento), no Eixo Comunidade Cidadã, o projeto é resultado de uma parceria entre governos Federal e Municipal. Enquanto a federação oferecia grande parte do valor da obra (R$ 3,5 milhões) e o formato que alia promoção de atividades físicas, ações culturais, práticas esportivas e de lazer, serviços socioassistenciais, qualificação profissional, inclusão digital e prevenção da violência numa região de alta vulnerabilidade social, o município investe uma contrapartida (R$ 950 mil) e introduz socialmente a ideia.
Segundo dados do Ministério da Cultura, o Brasil conta, hoje, com 342 centros espalhados por 24 estados e no Distrito Federal. Até janeiro, apenas 87 espaços haviam sido inaugurados pelo país. E são muitas as histórias de abandono ou deterioração. Na mineira Pouso Alegre, por exemplo, a praça está parcialmente concluída há mais de um ano, faltando, apenas, equipamentos para salas e anfiteatro, o que resulta numa paisagem de abandono, com estruturas já vandalizadas. Com 38 projetos cadastrados no estado, Minas Gerais conta com somente 13 espaços em funcionamento. Sendo assim, Juiz de Fora, o primeiro do modelo de 7.000 m² a ser inaugurado na Região Sudeste, acaba por servir de exemplo nacional.
Sem policiamento exclusivo e sem muros, o CEU da Zona Norte conta apenas com porteiros noturnos e com a equipe de 32 profissionais durante o expediente – das 7h às 22h nos dias de semana, das 9h às 20h aos sábados e das 9h às 19h aos domingos. Nos vividos 365 dias, o espaço não conta com nenhum sinal de vandalismo. Nenhum! Segundo o coordenador cultural do local, André Noronha, vizinhos relatam quando veem algum movimento suspeito, demonstrando atenção e carinho com o equipamento público situado na Avenida JK, próximo aos bairros Benfica e Araújo. Para o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, o cuidado representa um tão caro envolvimento.
“Isso é reflexo de um bom trabalho de mobilização social, que foi feito previamente, e a boa acolhida da comunidade. Vivenciamos na prática a questão do pertencimento. A própria vizinhança ajuda a zelar. Completamos um ano com fila de espera na demanda e com a possibilidade de crescimento, apesar de o espaço já estar totalmente ocupado”, avalia Dutra, apontando para o processo de construção ainda presente em alguns setores da praça. “Estamos implantando o funcionamento da biblioteca. Optamos por um espaço que fosse mais uma sala de leituras que um lugar de catalogação de livros em prateleiras. Privilegiamos os títulos de leitura, porque na região já existem duas instituições que cumprem o papel de auxiliar nas pesquisas.”
O teatro, de acordo com o superintendente, também é alvo de discussão sobre um modelo ideal de ocupação, já que produções das próprias oficinas do CEU oferecem resultado melhor que atrações externas. “O público e a casa precisam ser trabalhados”, comenta Dutra. Ainda assim, o coordenador do espaço chama atenção para a agenda do anfiteatro, já ocupada parcialmente ao longo de todo o ano de 2016.
Para o vão central, também existe uma programação de artes visuais. Nesta quinta, o local recebe as pinturas da exposição “Anguzada” do artista Lúcio Rodrigues, que também assina o grafite na fachada do centro. Ainda, nos eventos, trabalhos executados nas oficinas de artesanato são expostos, demonstrando a produção própria que já circula pelo complexo.
Dos jogos ao circo
Demarcando um ano de atividades, o CEU da Zona Norte apresenta uma programação especial de atividades. Além do projeto Cine CEU, que exibe nesta sexta os filmes “Minions”, às 15h, e “X-Men – Dias de um futuro esquecido”, às 18h30, o local recebe o 2º Torneio de Futsal, a partir das 8h deste sábado. Às 13h, acontece o Amistoso de Basquete e, às 17h, um espetáculo integrando todas as oficinas artísticas. Sob a temática do circo, dança, teatro, capoeira e outras expressões se misturam em apresentações no anfiteatro e na área externa.












