‘Tenho fama, mas não tenho grana. Sou um operário da vida’

O infarto sofrido em 2011 provocou um choque em Isabelita dos Patins, mas não apagou o brilho e a vontade de viver da drag queen que aportou no Brasil há 45 anos, em 31 de julho de 1970. “Cheguei aqui e fiquei enlouquecido com Copacabana”, recorda-se o artista, que, mais uma vez, não se deixou abater por um forte abalo sofrido nos últimos dias. Jorge Omar Iglesias – nome que a drag argentina ganhou de batismo – está entre as vítimas dos temporais que caíram sobre o Rio de Janeiro no mês de fevereiro.
“Eu moro no último andar, e um raio caiu em cima do meu apartamento, provocando um curto circuito em quase todos os aparelhos que estavam ligados. O que mais me deixou triste foi o computador. Os técnicos vieram aqui e consertaram. Nessa brincadeira, gastei R$ 400. Mas penso da seguinte maneira: vão os anéis, ficam os dedos”, afirma a drag, agradecida com a ajuda financeira que tem recebido de amigos e artistas.
“São pessoas maravilhosas que têm se preocupado comigo. Pobre somos todos nós. Se o Brasil, que tem tantas estrelas, está empobrecido, imagine uma simples drag queen. A vida é dura para todo mundo”, dispara ele, por telefone, na tarde da última terça-feira. Na entrevista concedida à Tribuna, Isabelita faz confidências sobre sua situação financeira, reflete sobre a dura e inevitável passagem do tempo, fala do desejo de ver seu rico acervo de roupas e acessórios exposto ao público e sobre seu carinho por Juiz de Fora. Mesmo com restrições médicas, Isabelita, aos 67 anos, não abre mão de seus patins no carnaval da Banda Daki. “O asfalto força muito as pernas, mas, em Juiz de Fora, fico com eles na concentração e agrado todo mundo.”
– Tribuna – Como está a sua situação depois do susto?
– Isabelita dos Patins – Graças a Deus estou bem, estou com saúde e me levantando desse choque. Algumas pessoas estão me ajudando, e fico muito contente com esse carinho. Acho que na vida a gente semeia para colher. Amo Juiz de Fora de paixão e estou muito feliz por saber que vocês se preocupam com um personagem do carnaval da cidade. Recebi milhares de telefonemas. O Zé Kodak, por quem tenho um carinho muito grande, é muito prestativo, foi a primeira pessoa que me ligou perguntando se eu estava precisando de alguma coisa. Tenho minha aposentadoria por idade, recebo R$ 800. Só de remédio para o coração, gasto R$ 400. Sou abençoado por Deus porque tive cabeça e comprei esse apartamento em que moro hoje, em Vila Isabel.
– E você se incomoda com essa comoção toda em torno do que aconteceu com você?
– Não me incomodo. Deus que é Deus ajuda todo mundo, por que é que a gente não pode ser ajudado? Claro que esse assunto de fama, de Isabelita estar no Copacabana Palace e ir às melhores festas, faz parte do meu trabalho. Isso me envaidece muito, mas sempre falo: ‘Tenho fama, mas não tenho grana. Sou um operário da vida’. A gente tem que matar um leão por dia. Por exemplo, eu passei o carnaval em Juiz de Fora e foi maravilhoso porque, aqui no Rio, ninguém quis me pagar o que eu realmente precisava. Trabalho no primeiro sábado de cada mês numa feira de antiguidades na Rua do Lavradio (Centro), que é maravilhosa. Tem uma barraca da Isabelita onde uma senhora pinta uma garrafa com meu rosto. Tem um imã de geladeira e uma bonequinha. Trabalho para a feira e fico tirando fotos. Tem mês que chove na horta, tem mês que não chove. Você tem que ter jogo de cintura.
– O infarto de 2011 te deixou preocupado com a passagem do tempo?
– Depois do infarto, você muda totalmente. Agora estou light, nada me estressa, nada me aborrece. Se eu puder pagar, pago hoje. Tiro de um santo e coloco no outro. Morrer, a gente um dia vai morrer. Outro dia peguei um táxi e fui buscar uma amiga. O motorista me ouviu conversando e falou: ‘Não acredito, mas que honra levar Isabelita dos Patins’. Fiquei muito feliz. Essa minha amiga é como se fosse minha responsável e vai assinar minha cremação, porque eu quero ser cremado. Quando falei isso, o homem falou: ‘Desculpe me meter nessa conversa, mas Isabelita dos Patins tinha que ter um túmulo para ser visitado por milhões de pessoas’. Eu disse: ‘meu amigo, primeiro que eu não gosto de cemitério. Em segundo lugar, não sou Carmen Miranda, nem Emilinha Borba, e não vou fazer milagres’.
– Mas você se prepara para a morte?
– Como moro há 45 anos no Rio de Janeiro, estou deixando testamento, porque é o seguinte: a família é imposta. Já os amigos, você escolhe. Tenho amigos maravilhosos, gente que, seu eu precisar, está do meu lado. Estou aqui esse tempo todo e nunca recebi uma carta da família, ninguém nunca me procurou. Se eu comprei meu apartamento com muito sacrifício, vou deixar para um irmão, para um sobrinho que nem sei se existe ou não existe? Quando me perguntam, eu respondo que minha família é o Brasil. O Brasil me aceitou como eu sou, da maneira como eu sou. Não tenho que fingir nada.
– O público e o mercado são generosos com os artistas depois de certo tempo?
– Quantas artistas e cantoras do rádio que temos que estão na gaveta? No Retiro dos Artistas, por exemplo, está uma cantora que se chama Helena de Lima. Ela tem uma voz deslumbrante, e ninguém a chama para nada. Se não for a Sônia Abrão que descobre alguma coisa, todo mundo fica na gaveta. A gente tem que aproveitar e desfrutar o momento, pois ninguém é eterno. Uma Carmen Miranda nunca será esquecida, mas a Emilinha Borba faleceu há dez anos e, até hoje, não apareceu alguém para fazer um museu sobre ela.
– Por falar em museu, você tem vontade de montar uma exposição com suas roupas...
– Tenho um guarda-roupa com 80 modelitos. Bolsa de mão, tenho mais ou menos 180. Tenho um acervo. Por exemplo, mandei fazer uma roupa de festa em homenagem à Marília Pêra, porque ela me ajudou financeiramente quando estive doente. Tenho um vestido da Emilinha Borba e um outro de bailarina que ganhei da Ana Botafogo. Certo dia, fui a um baile de carnaval, encontrei com a eterna Miss Brasil, a Martha Rocha, falei que a roupa dela era linda, e ela disse: ‘Você gostou? Vem buscar amanhã.’ No dia seguinte, estava tomando café com ela no Copacabana Palace. Quando fiz ‘O clone’, a Glória Perez me deu um par de brincos. Tenho presentes da Elke Maravilha e um broche da Dercy Gonçalves.
– Recentemente, você disse em uma entrevista que seu sonho era carregar a tocha nas Olimpíadas. Recebeu o convite?
– Não recebi e nem quero mais. Outros artistas também desistiram pela seguinte razão: não tem ajuda de custo. Eles usam sua imagem no mundo todo, fazem você de gato e sapato, e você não ganha nada? Então eu vou fazer a alegria do povo à minha maneira. Vou mandar fazer uma tocha, botar a roupa do Brasil e dar uma volta na Avenida Atlântica.
– Então, qual é seu sonho?
– Ter saúde, em primeiro lugar. Gostaria, de trabalhar num programa de rádio, num quadro humorístico e de poder ajudar as pessoas de uma maneira ou de outra.









