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‘A gente não faz música para ficar só na quebrada’


Por MAURO MORAIS

26/02/2016 às 07h00

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O hip hop é foda. Quando apareceu na porta de Rael, prevaleceu. “Enriqueceu, fortaleceu a saudosa maloca”, canta. “Pra ser um MC não é só portar o microfone/ usar os pano muito louco e ter um belo codinome./ É pra mina, é pra homem, é pra quem, pra quem quiser/ seja lá você quem for, seja como estiver./ Hip-Hop é uma cor, um amor, uma fé”, entoa ele em “O hip hop é foda”, uma das canções de seu EP “Diversoficando”, terceiro disco da carreira solo.

Rapper de São Paulo, das mesmas quebradas de Criolo e Emicida, Rael, o homem de longos e grossos dreads, canta o hip hop quando todos os ouvidos estão atentos aos sons que a periferia produz. Seu rap, que une letras de amor a duras críticas sociais, coloca na grande mídia um discurso urgente e por demais transformador. Rael, o homem de melodias que vão do reggae ao pop, faz parte de uma geração que conseguiu falar da senzala dentro da casa grande.

Fazendo música que é grito e soco no estômago, mas também balada, Rael, o poeta de rimas ricas, representa um empoderamento. “A gente não faz música para ficar só na quebrada, mas para dialogar com várias pessoas, de várias cores, idades e classes sociais. O rap abre um diálogo. As vezes o cara da classe média ou alta para para pensar e fala: Pera lá! Pode crer! Essa visão eu não tinha! É importante estar lá”, diz ele, que se apresenta em Juiz de Fora nesta sexta-feira, na festa NeonBlack, no Cultural Bar, às 23h.

‘Independente de ser MC, a gente ama’

Ainda que o percurso de sua turma simbolize um movimento positivo, segundo Rael, o jogo não está ganho. “Essa semana falei com o Emicida que tem lugares onde paro de ficar contando quantos negros têm, porque sinto que sou só eu. Ainda assim, é importante ter negros nesses lugares. Se não tiver nóis lá, quem vai estar?!”, questiona. “Precisamos rever alguns conceitos. Estamos no século XXI. Aconteceu em dez anos o que não aconteceu em cem. Não estamos em época de mudanças, mas de mudança de época.”

No mesmo disco em que conta sobre uma dura policial, “Pré-conceito”, o rapper canta “Envolvidão” (“Não vou mentir, fiquei envolvidão”), hit que retrata um flerte. Estratégia? Não. “O rap é ritmo e poesia. O ritmo pode ser o que você se identificar e a poesia é para verbalizar o que vemos e o que sentimos. Independente de ser MC e retratar questões sociais, a gente ama, vai a festas, vive o dia a dia igual pessoas normais. Tenho colado nas gravações do Mano Brown e ele também canta várias músicas românticas. O amor move o mundo”, defende.

E nada o dispensa da batalha. “Nessa altura da aventura da humanidade, a gente não pode mais permitir que algumas coisas façam parte do nosso dia a dia, como o preconceito e as diferenças sociais. Enquanto isso existir, vamos falar. Tem uma molecada que começa a refletir a partir de nossas músicas”, diz ele, que também foi cria do que hoje faz. “Quando tinha 11 anos sofria preconceito. Minha mãe e meu pai não falavam de racismo em casa, e a escola não retratava isso. Aprendi com o rap, que me deu autoestima, resgatou minha identidade. Comecei a enfrentar a sociedade de outra maneira”, conta.

‘Mussum foi o primeiro negro que vi na TV’

Na sublinha ou na linha de frente, Rael faz rima com a cor da pele e não se rende a um discurso frágil de que o racismo acabou. “A gente ainda pega uma sorte por entrar num nicho de artistas. Se eu colo em algum lugar falam: Olha, o Rael está aí! Já as pessoas que são negras e enfrentam o dia a dia da sociedade, trabalham num setor corporativo, sofrem na pele e, muitas vezes, caladas. Infelizmente o racismo ainda é muito presente”, brada, certo de que o lugar que ele e seus amigos ocupam, no palco, fortalece o clamor por igualdade.

“Estar nesses lugares mostra para as pessoas que é possível transitar por qualquer lugar no mundo”, defende, para logo contar da marca que carrega no corpo: “Tenho uma tatuagem do Mussum no braço porque ele foi o primeiro negro que vi na televisão. Ele me deu a visão de que posso ocupar qualquer lugar na sociedade. Posso ser ator, jogador de futebol, cineasta, advogado ou dono da empresa.” E ganhar dinheiro fazendo denúncia, para ele, não é pecado. “Um ator pode ganhar dinheiro, um jogador de futebol também. Então, porque o MC não pode?”, questiona.

“Se o bagulho é digno, se a grana não vem da Petrobras, do tráfico ou de propina, pode ganhar dinheiro. O rap ainda tem dificuldade de aceitar o sucesso que está alcançando”, afirma Rael, que entra em estúdio em abril para lançar, no segundo semestre, seu quarto álbum solo, com incentivo do programa Natura Musical. “Estou no processo criativo, arriscando algumas coisas, me preparando na lírica, na escrita e registrando ideias no violão e voz”, conta o homem de estrada longa, que ganhou maior visibilidade quando se viu sozinho.

‘Música é igual medicina’

Ex-integrante do Pentágono, grupo de rap de São Paulo, Rael, que assinava Rael da Rima e hoje ostenta apenas o primeiro nome, faz parte do mesmo selo que Emicida, o Laboratório Fantasma, o que lhe deu ainda mais visibilidade. “Há muito tempo estou nesse corre. Quando estava no Pentágono, compunha músicas para o grupo e também fazia outras que não cabiam no repertório, uma pegada com violão, que remete um pouco à música brasileira. A partir daí comecei a fazer meu disco solo, que foi lançado em 2003, chamado MP3 – Música Popular do Terceiro Mundo”, lembra.

“Foi um caminho sem volta. O lance da internet ajudou a difundir o trabalho, e o lance de mesclar o rap com música nacional acabou resultando numa linguagem que é mais acessível para as pessoas”, defende ele, autor de um projeto que levou o disco “Diversoficando” a várias ruas da capital paulista, onde inseriu, em muros de concreto, pequenos aparelhos onde era possível plugar um fone e ouvir o trabalho. “É uma coisa que tenho muita vontade de fazer, e não só com meus discos. Imagina colocar em ponto de ônibus, plataforma de metrô, lojas?!”

No final de nossa conversa, por telefone, pergunto a Rael qual seria o próximo passo desse rap que saiu da periferia e ganhou o Centro, mais palatável, mas nem por isso menos ácido. Primeiro, ele diz: “O próximo passo é continuar trabalhando e não perder o foco.” Logo, como em sua música, engrossa o tom. “É importante, também, se policiar, porque quando se cria um mercado, começam a surgir coisas que banalizam.” E, cirurgicamente, cria uma metáfora de força surpreendente: “Música é igual medicina, porque o músico precisa sempre se atualizar, se reciclar. É importante acompanhar o que está acontecendo no universo para dialogar a altura.”