Universo binário

Peça ‘Aqueles dois’ é encenada desde 2007 e já passou por 25 capitais brasileiras, ultrapassando as 350 apresentações
O local de trabalho pode se tornar um ambiente desolador, hostil, quase solitário, quando dividido por pessoas que não comungam de laços de amizade, afetivos – o que se costuma ver, por exemplo, em ambientes como repartições, escritórios, com toda sua vidinha burocrática a ditar um cotidiano muitas vezes opressivo. E quando duas pessoas conseguem quebrar essa barreira e desenvolvem um espírito de amizade – talvez até mesmo algo mais? É este o norte que direciona o espetáculo teatral “Aqueles dois”, da Cia. Luna Lunera, de Belo Horizonte, que volta a se apresentar em Juiz de Fora neste sábado e domingo, no Diversão e Arte Espaço Cultural.
A peça, adaptação do conto homônimo do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, é centrada na relação de amizade e cumplicidade criada entre Raul e Saul, os dois novos funcionários do tal escritório/repartição. A proximidade entre a dupla cria incômodo entre os demais “colegas” de serviço. Para interpretar os protagonistas, o Luna Lunera terá quatro atores no palco revezando-se entre os papéis: Cláudio Dias, Guilherme Théo, Marcelo Souza e Odilon Esteves, que dividem a criação e direção do espetáculo com Zé Walter Albinati, num trabalho concebido a dez mãos. “Tentamos manter neste trabalho todos os desenhos e ambiguidades, toda a literatura do Caio”, explica Cláudio Dias. “Contamos a história desses dois homens que se conhecem num ambiente árido de trabalho e desenvolvem uma relação em que deixamos para o público julgar: o que são esses dois? É uma relação de amizade, amor, ou ambos? Por isso, os quatro atores fazendo os dois papéis, com o desenrolar da peça o público vai perceber características deles em cada um de nós.”
Resultado de muito estudo
“Aqueles dois” é o desenrolar de um grupo de estudo interno realizado em 2007, baseado em Contato Improvisação (técnica corporal criada por Steve Paxton) e Método das Ações Físicas e Vocais, de Stanilavski, em que utilizavam textos aleatórios. De todos eles, o que acabou indo além foi justamente o conto de Caio Fernando Abreu. “A gente acreditava que haveria algum potencial (para desenvolver uma peça) a partir desses exercícios físicos e vocais, e isso se deu com o texto do Caio”, conta o ator. A partir daí, foi decidido pelo grupo que cada um dos integrantes teria uma semana para desenvolver o seu projeto de direção – e esta foi outra proposta que ganhou vida própria.
“Com o tempo, as ideias foram se mesclando, cada um oferecendo suas sugestões e propostas, e decidimos pela direção compartilhada. Não havia mais como separar o que era meu ou do outro. Aconteceu de forma natural. Com esse esquema de um diretor por semana, acabamos criando um processo muito particular. Isso foi importante, porque depois desse espetáculo criamos outros em que o ator é também diretor, figurinista, etc… Existe um envolvimento maior”, acrescenta. Do quarteto original, Zé Walter Albinati preferiu se dedicar ao núcleo de direção, e Rômulo Braga foi convidado para integrar o grupo de atores.
Em constante transformação
“Aqueles dois” estreou em novembro de 2007 em Belo Horizonte e já contabiliza mais de 350 apresentações, incluindo 25 capitais brasileiras e países como a Argentina e Colômbia. O espetáculo já passou por festivais teatrais em Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Natal, Brasília, Rio de Janeiro, além de Presidente Prudente e São José do Rio Preto (SP).
Com tanto tempo na estrada, como explica Cláudio, a peça foi passando por modificações em que a resposta da plateia é um dos principais feedbacks para o aperfeiçoamento do trabalho. “Ele vai se modificando porque entra aí o olhar do público. O que muda é pouca coisa, como o entendimento (da história) em determinado momento. Ele (o espetáculo) muda porque a gente muda, mas as questões centrais da discussão apresentada pelo Caio permanecem. Um desses temas é o preconceito, que antes não parecia tão importante, mas hoje é o centro das questões, seja ele de sexualidade, cor. As pessoas, hoje, se agridem por causa disso, o que torna o espetáculo atual, necessário.”
Olhos nos olhos com a plateia
O espetáculo, que já foi encenado em Juiz de Fora no Cine-Theatro Central, desta vez retorna a um espaço menor (o Diversão e Arte) por escolha do próprio grupo, que chega à cidade por meio da 6ª Expedição Lunar, projeto da Companhia contemplado pela seleção pública do Petrobras Cultural Minas Gerais 2014 e que já passou por Araxá, Uberlândia, Uberaba e, depois de Juiz de Fora, irá até Divinópolis, Barbacena e uma cidade a definir. “Preferimos voltar num espaço menor, pois a troca de olhares entre a gente e o público é muito importante. Para nós, será legal que a plateia possa perceber todos os detalhes”, explica Cláudio Dias, adiantando que haverá um bate-papo com os espectadores após a apresentação.
Segundo o ator, a Expedição Lunar é interessante para que o grupo possa compartilhar seu processo criativo com os artistas dos municípios por onde passa. Esse compartilhamento não é feito apenas por meio das peças, mas também com as oficinas realizadas em cada cidade. Uma delas é “Ator criador”, que acontece neste sábado e domingo, a partir das 9h, no CCBM, direcionada para quem já faz teatro. Na atividade, o Luna Lunar busca expor seus processos de criação de forma prática. “O ator terá como passar pelas atividades e ver os resultados no espetáculo”, diz Cláudio. A outra oficina é “Produção cultural”, que será realizada domingo, às 14h, também no CCBM, em que o grupo fala de seus processos de produção, como lidar com as leis de incentivo à cultura, projetos de patrocínio fora da esfera pública e gestão de grupo.
AQUELES DOIS
Neste sábado, às 20h, e domingo, às 19h
Diversão e Arte Espaço Cultural (Rua Halfeld 1.322)
OFICINAS
Neste sábado, às 9h, e domingo, às 9h e 14h
Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)









