Diploma de Jornalismo: formação, responsabilidade e democracia
“O diploma não é uma mordaça, é parte do compromisso do jornalismo com a sociedade e com a democracia.”
O diploma de Jornalismo carrega uma história contraditória. A exigência foi estabelecida em 1969, durante a ditadura militar, período marcado por censura e restrições à liberdade de imprensa. Em 2009, o STF derrubou a obrigatoriedade, por considerá-la incompatível com a liberdade de expressão.
Liberdade de expressão e exercício profissional do jornalismo não são sinônimos. Todo cidadão deve poder opinar, criticar e publicar. O jornalismo, porém, possui processos e responsabilidades próprios. Apurar, verificar, contextualizar, ouvir diferentes envolvidos e informar com ética são atividades que exigem formação específica.
A internet ampliou as possibilidades de produção e circulação de informações e permitiu que diferentes vozes ocupassem o espaço público. Ao mesmo tempo, tornou ainda mais complexa a tarefa de distinguir informação, opinião e desinformação. Publicar é fácil, mas informar exige preparo. Exige compreender os processos comunicacionais, avaliar fontes, reconhecer desigualdades e refletir sobre os efeitos sociais daquilo que se publica.
Esse desafio se apresenta em uma sociedade marcada por profundas desigualdades no acesso e na compreensão da informação. Segundo o Inaf, em 2025, 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos eram considerados analfabetos funcionais. Nesse cenário, a formação jornalística assume uma responsabilidade que ultrapassa o domínio de técnicas: preparar profissionais capazes de produzir informação acessível, contextualizada e socialmente responsável.
O diploma não garante que um jornalista nunca errará nem transforma ninguém em dono da verdade. Também não restringe o direito de qualquer pessoa produzir e compartilhar conteúdos. O que a graduação oferece é uma formação que articula teoria e prática, conhecimentos técnicos, reflexão crítica e princípios éticos. É nesse percurso que estudantes compreendem o lugar do jornalismo na sociedade, seu papel na democracia e sua responsabilidade diante das desigualdades.
A formação também contribui para a segurança profissional, ao oferecer fundamentos que orientam decisões éticas e protegem tanto o jornalista quanto as fontes envolvidas na atividade. Defender a formação profissional não é defender censura ou reserva de mercado. É reconhecer que o exercício do jornalismo envolve responsabilidades específicas e que a universidade tem papel fundamental na preparação de quem assume essa tarefa.
Em um ambiente comunicacional marcado pela multiplicação de vozes e pela circulação acelerada de informações, formar jornalistas é fortalecer profissionais conscientes de seus direitos e deveres, capazes de atuar com competência, autonomia e responsabilidade. O diploma não é uma mordaça, é parte do compromisso do jornalismo com a sociedade e com a democracia.
* Talison Vardiero e Kérley Winques são jornalistas e docentes.
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