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Minha terra sem palmeiras

“Basta apenas dar uma volta rápida pelas ruas do centro, de preferência em dias amenos.”


Por Carlos Magno Adães de Araújo *

16/09/2026 às 06h00

O trocadilho do título deste artigo com o poema oitocentista de Gonçalves Dias, cujo título é Canção do Exílio, é o mote para chamarmos a atenção para uma questão cada vez mais inadiável, qual seja a dos benefícios da arborização urbana.

A primavera no hemisfério austral se aproxima e com ela a instabilidade atmosférica típica da estação, alternando dias úmidos a dias secos e dias frios a dias quentes. Até aí, nada de novo no front. A questão é que a cada ano temos novidades no que tange à severidade dos eventos meteorológicos, sobretudo as ondas de calor que tornam os dias insuportáveis para a massa da população pauperizada que precisa se deslocar diariamente em busca de sustento e tampouco tem condições de climatizar o ambiente doméstico. Nas escolas, o calor excessivo é gerador da chamada ansiedade climática, que dispersa a atenção das crianças e adolescentes que não conseguem se concentrar diante do incômodo provocado pelas altas temperaturas, que mesmo os mais potentes ventiladores não conseguem arrefecer, comprometendo, assim, o desempenho escolar.

Em Juiz de Fora, um aspecto controverso (sim, controverso, me explico adiante) da paisagem urbana é digno de nota: a arborização. Em uma volta rápida pelas ruas do centro percebe-se não haver árvores ou, no máximo, algumas árvores raquíticas sufocadas pelo concreto ou por hemiparasitas como a erva de passarinho, que “roubam” nutrientes das mesmas. Quanto à controvérsia, as árvores prestam inúmeros e imprescindíveis serviços ecológicos ou ambientais aos centros urbanos, como a formação de ilhas de frescor proporcionadas por sua sombra, que limita a incidência direta da radiação solar no solo, que por sua vez irradia essa energia para a atmosfera na forma de calor, aumentando o mal-estar em dias quentes. As árvores reduzem o ruído (poluição sonora geradora de estresse) de veículos, equipamentos de som, obras, buzinas e sirenes em até 30%, permitem a infiltração das águas pluviais, contribuindo para a redução das enchentes em dias chuvosos, fornecem alimento e abrigo para aves, insetos e pequenos mamíferos e tem um efeito estético e psicológico que faz as pessoas se sentirem bem durante e após a contemplação. Por outro lado, há quem veja as árvores como um estorvo, seja em função da veiculação midiática da queda de um exemplar que eventualmente danifica um automóvel ou imóvel, seja em função das folhas e frutos que caem e são associados a lixo, seja até mesmo porque as árvores obstruem a visão.

Fato é que a falta de informação a respeito da importância da cobertura vegetal urbana e a carência de um corpo técnico especializado em meio ambiente em cargos públicos comissionados e estratégicos, fez que ao longo do tempo Juiz de Fora se tornasse uma cidade menos arborizada em sua região central, com um índice de área verde (IAV) abaixo do mínimo desejável, conforme aponta, dentre outros, um estudo por nós realizado em 2014 e intitulado “Áreas verdes públicas de Juiz de Fora: uma análise do estado da arte nos dias de hoje”, de domínio público. De lá para cá, nada de novo no front.

Claro que há dificuldades no plantio e manutenção de espécies, como ruas e calçadas estreitas, fiação elétrica obsoleta suspensa, construções sem recuo, entre outros. A despeito de tudo isso, existe conhecimento científico de vanguarda para auxiliar na escolha, plantio e manutenção das espécies nativas mais indicadas para o meio urbano. Florestas de bolso em espaços ociosos, canteiros e praças cimentadas poderiam cumprir as funções descritas acima, melhorando a qualidade ambiental e de vida na cidade. Cabe ressaltar que estamos no referindo à arborização urbana e não em unidades de conservação, parques ou em propriedades rurais.

Embora o município tenha recebido o título de cidade árvore do mundo pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 2024 por atender a padrões de cuidado com as árvores e as florestas, o coração da urbe permanece despido de vegetação, o que faz saltar aos olhos a paisagem cinza de concreto e asfalto.

Reprisando, basta apenas dar uma volta rápida pelas ruas do centro, de preferência em dias amenos.

* Carlos Magno Adães de Araújo é mestre em geografia e doutorando em história.

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