O peso da corrupção


Por Eder Lima Moreira, cientista social

12/03/2020 às 07h02- Atualizada 12/03/2020 às 07h31

Uma vida de corrupção não é um fardo para quem a escolhe. Explico! Quem a pratica – ou apoia quem, descarada ou veladamente, dela vive – carrega a fome, a falta de saneamento, o analfabetismo, as escolas sucateadas, a falta de acesso à saúde, as falhas do trânsito que matam, os buracos nas ruas, os jovens morrendo por falta de oportunidade, a desvalorização de servidores, o impedimento da ascensão social, os idosos abandonados, as crianças sem escola, sem futuro; ou seja, o fardo real é dos necessitados! Quem vive dela e sabe que dela vem parte do seu enriquecimento, ao carregar isso tudo e não sair dela, nem o peso da consciência carrega.

O corrupto, portanto, a escolhe [a corrupção], pois não carrega os danos e ainda se beneficia deles! Os virtuosos e incorruptíveis pensam, com esperança, no seguinte: “Um dia a balança da Justiça desconfiará do lado que parece ser tão leve e imputará a ele o peso de sua mão”. Essa é a esperança de todo brasileiro, de direita, de esquerda ou de centro, que tem o mínimo de ética e caráter ilibado. A questão não requer que sejamos “santos” – dificilmente seremos – mas envolve o que queremos deixar para a escrita de nossa história.

Esta esperança na Justiça, às vezes, nos deixa esquecer que Têmis, a deusa que a simboliza, um dia, fora acusada de ter provocado propositalmente, através de uma ideia sua, a Guerra de Troia, para livrar a Terra do excesso de população. Talvez seja nessa “justiça” que os corruptos se baseiam: “Roubar um pouquinho só ajuda o mundo a ter cada vez menos pessoas, já que morrem os mais necessitados” – eles sabem que é assim.

Precisamos resgatar a representação de Têmis mais moderna, sem a venda nos olhos. Nela os pratos da balança são iguais, na mesma altura, denotando que “não há diferenças nos prêmios e castigos: todos recebem o seu quinhão de dor e alegria”. Mas, cá entre nós, já passou da hora de os corruptos e alimentadores de corrupção receberem um peso maior de justiça e, sem violência, pagarem pelo que devem!

Assim, à justiça clamamos, com razão, celeridade, para que, inclusive, possa se tornar o que está no site do Supremo Tribunal Federal: “Definida, no sentido moral, como o sentimento da verdade, da equidade e da humanidade, colocado acima das paixões humanas”. No momento, o que percebemos é que a paixão humana chamada corrupção tem tido seu espaço garantido, explicitando que, ao contrário do que representa a balança de Têmis, há muitas diferenças entre os homens “quando se trata de julgar seus erros e acertos”.

Entretanto, o resultado da Justiça, sem vendas, há de vir, desde que comece por nós! Lembremo-nos, todavia, que, um dia, a conta também chega para quem finge que paga, pois, neste fingimento, na verdade, há apenas a transferência do peso do fardo pelo qual é o responsável!