Doa a quem doer
Em entrevista concedida em dezembro último à jornalista Samira de Castro, diretora de Comunicação do Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce), a presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, levanta questões importantes para o desempenho desses profissionais. No cenário atual de banalização da palavra, que perde cada vez mais sua função mediadora, essas questões importam, não só para jornalistas, como também, e principalmente, para quem estiver preocupado com a nossa ainda jovem (e ameaçada) democracia.
Ela alerta que a mídia tradicional no Brasil abandonou o jornalismo, cuja missão é apurar com rigor e noticiar com clareza os fatos de interesse público que estão ocorrendo, aqui e agora, denunciando, doa a quem doer, orientando e mobilizando a sociedade no sentido do que é bom ou ruim para o país. Logo, não está atuando como guardiã da democracia.
Para Maria José, a reforma trabalhista “é uma depenação da CLT”, e, como ressalta, nenhum veículo de comunicação de massa (como a TV) explicou criticamente o seu impacto na vida do trabalhador. E o mesmo ocorreu com a Previdência, cuja reforma limita-se simplesmente a dificultar o acesso às aposentadorias e com as confabulações de Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato, que ferem o Estado democrático de direito. Nos três casos, a grande imprensa não atuou como caixa de ressonância do interesse público, e quem perdeu (e muito) foi a população.
Ela não vê com bons olhos as redes sociais enquanto produtoras de informações “jornalísticas” e faz autocrítica: “Nós aceitamos uma desvalorização da profissão de jornalista, entendendo que a informação jornalística pode ser produzida por qualquer um – o chamado jornalismo cidadão. Cidadão é fonte! Quem tem obrigação de apurar, verificar e contextualizar é o jornalista, e não o cidadão! Nós, não só nos veículos em que trabalhamos, mas até individualmente, aceitamos uma disputa equivocada com as redes sociais”.
De fato, essa desvalorização consentida do jornalista deixa espaço livre para a manipulação e a construção de uma realidade que interessa hoje, principalmente, ao capital financeiro, ao rentismo que nada produz e se beneficia com práticas predatórias do “deus mercado” que ganha corpo no Brasil. Nesse vácuo, trabalha-se criteriosamente a desinformação.
“Essa desinformação é gravíssima, porque ela é proposital, ela é intencional, ela não é espontânea. Essa profusão de produção e disseminação de mentiras com intenções prévias é extremamente grave, porque ela é hoje um ponto central para a manutenção da etapa do capitalismo que nós estamos vivendo, que é o acirramento do neoliberalismo. É fundamental essa produção de inconsciência coletiva para que esse momento do capitalismo ocorra sem haver de fato revoltas e revoluções. Isso é muito grave”, explica a presidente da Fenaj.
E bota grave nisso. Dada a omissão da mídia tradicional diante dos fatos que vêm ocorrendo no país, verdadeiros crimes de lesa-pátria, as redes sociais, principalmente, têm servido sob medida aos interesses de um sistema que caminha para a selvageria. Como acredita Maria José, esses interesses não querem raciocínio lógico e contextualizado, querem é provocar um turbilhão de emoções, dissonância cognitiva e, em última instância, desagregação social. A estratégia é dividir para reinar.
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