Futuro sustentável?
A problemática ambiental constitui uma das maiores questões de nosso tempo. Governos, empresas, instituições financeiras e sociedade civil organizada incorporaram o discurso ambientalista, com argumentações e preocupações preservacionistas ou conservacionistas. Obviamente, percebemos lógicas discursivas distintas e diferentes interesses na defesa do meio ambiente. Do despertar da consciência ecológica (década de 1960), passando pela primeira Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente (Estocolmo 1972) até a Rio+20 (2012), vivenciamos muitas propostas. Foram propostos novos paradigmas, como o conceito de desenvolvimento sustentável, e protocolos importantes, como o Protocolo de Montreal (1987), o Protocolo de Kyoto (1997) e o Protocolo de Nagoya (2010).
Ainda na Rio+20, a ONU oficializou o conceito de “economia verde”, ou seja, “aquela que resulta em melhoria do bem-estar humano e da igualdade social ao mesmo tempo em que reduz, significativamente, os riscos ambientais e a escassez ecológica”. Vandana Shiva, física, ecofeminista e ambientalista, em entrevista durante a Rio+20, defendeu que: “sustentabilidade e justiça social são inseparáveis, e não teremos uma sem a outra”.
É uma concepção avançada, embora não exista consenso sobre a possibilidade de se conciliarem os interesses do capital com a preservação ambiental e a justiça social. Na verdade, o que percebemos ao longo de todo esse tempo é que a realidade pouco mudou.
De Estocolmo (1972) até os dias atuais, as emissões de carbono, os desmatamentos e a crise hídrica aumentaram. Por outro lado, as economias evoluíram, dinamizaram-se e alcançaram a escala planetária, seguindo a lógica que prioriza a aceleração do crescimento econômico como objetivo fundamental das políticas governamentais e empresariais.
Os benefícios desse modelo ficam concentrados nas mãos de poucas pessoas e/ou empresas, enquanto as externalidades negativas (poluição, esgotamento de recursos e injustiças ambientais) são socializadas. De fato, os avanços na área ambiental foram modestos e restritos à imposição de instrumentos legais de regulação (políticas ambientais, licenciamento ambiental, fiscalização).
Segundo a filósofa política Hannah Arendt, “a Terra é a própria quintessência da condição humana, e, ao que sabemos, sua natureza pode ser singular no universo”. Essa condição especial do planeta nos obriga a questionar se ainda é possível reconstruir a relação mutualística que a sociedade tinha com a natureza. Mas sabemos que é impossível, afinal, o tempo social se superpôs, de modo irreversível, ao tempo da natureza, através das tecnociências e das imposições do mercado.
Para o teólogo Leonardo Boff, “a humanidade perdeu o sentido de totalidade, o sentimento de que nós, seres humanos, pertencemos a um todo maior, primeiro à natureza, depois à Terra, e, por fim, ao cosmos”. Logo, a crise ambiental é também uma crise de nossa civilização. Uma crise que nos faz refletir sobre os valores que direcionam nossa existência no planeta – o ter mais do que ser e o poder sobre os outros e sobre a natureza.
Portanto, se a problemática ambiental é inerente à existência humana, o que podemos fazer? O que temos é a proposta do desenvolvimento sustentável. Mas esse conceito carrega uma contradição fundamental que nos obriga a questionar: como é possível alcançar altas taxas de crescimento econômico e, ao mesmo tempo, garantir qualidade ambiental para as atuais e futuras gerações?









