Por TATI PEREIRA, FUNCIONÁRIA PÚBLICA

08/03/2016 às 07h00- Atualizada 08/03/2016 às 08h24

Se eu tivesse que narrar minha vida em um parágrafo, eu registraria que: “Quando criança, brincava de bonecas e me via nos contos de fadas. Já adolescente, pensei em ser modelo (mas faltava o padrão de beleza), e, enquanto aguardava o príncipe encantado, me bastavam as fantasias com os artistas da TV. Quando adulta, percebi (na marra) o desencanto dos príncipes; constatei que ser mãe é, realmente, “padecer no paraíso”; vi que eu não era o “robozinho” dos chefes e que ninguém jamais me tiraria a minha sabedoria. E quando idosa? Ah! Olhei para trás e senti que teria vivido tudo isso de novo, mas ‘dei um tapa do visual’ e tingi os cabelos!”

Indubitavelmente, esta seria uma biografia comum a muitas mulheres, não fossem as entrelinhas, que, entre Marias, Amélias, Beatrizes, Monalizas e muitas outras, podem configurar realidades marcadas pelo chauvinismo masculino (machismo) e/ ou pela misoginia (aversão a mulheres), mesmo com toda essa tal igualdade de gêneros.

Há quem insista em não aceitar o “sexo frágil”. Todavia, essa condição é prevista, inclusive, pela Organização das Nações Unidas (ONU), que classifica a mulher no patamar dos grupos vulneráveis, dada a suscetibilidade de violação dos seus direitos, garantias e liberdades. Por conseguinte, ser mulher também implica admitir as especificidades inerentes ao gênero. Simples assim!

Desde os primórdios, existe o subjugo feminino. De uma forma ou de outra, ele acaba sendo uma herança cultural mundo afora. Mesmo depois da queima dos sutiãs, dos “toplesszaços” e dos novos arranjos familiares e ocupacionais, a mulher ainda está sujeita a várias formas de assédio e de rotulação. Muito além do metrô, ela pode estar “sub” também no ambiente doméstico, no trabalhista, no amoroso e no social. Vejamos:

A ditadura da beleza exigiu que a senhorinha pintasse seus cabelos brancos. Apesar da dupla jornada, a coroa de “rainha do lar” é de quem? Surreal como até mesmo trabalhos voltados à valorização feminina refletem rótulos machistas. No trabalho, costumam usar a “bandeira” da igualdade de gêneros para ignorar, por exemplo, que a mãe (principalmente a chefe de família) tem que acompanhar o filho menor ao médico e/ou para negligenciar condições indispensáveis ao trabalho do corpo feminino em determinadas profissões. Outrossim, em plenos tempos de combate à violência contra a mulher, nos lançam “goela adentro” obras artísticas que submetem a figura feminina a humilhações físicas e psicológicas, dizendo que é romance. Ora, no verdadeiro romance, as pessoas são, umas das outras, adjunto (o que vai junto), e não complemento (o que obrigatoriamente completa). Das páginas policiais, (dificilmente) depreende-se o caráter misógino de alguns criminosos que vitimizam mulheres. Enfim, é tanto etcetera que nem cabe no papel…

A luta feminina é uma infinita “odisseia”. Sabem por quê? Porque a própria mulher, quando dá para ser machista ou misógina, é o pior que consegue. Não acredita? Basta pensar de onde vêm os bebês. Eureca! Uma mulher dessas criará quem? Isso mesmo: futuros homens e mulheres à sua imagem. E netos, bisnetos, tetranetos… Quase como um clã “zumbi”, cujo conjunto resultará numa sociedade mais “zumbi” ainda!

Como desfecho àquela narrativa nada melhor do que uma metáfora clichê: todo dia é 8 de março! Portanto, mulher, você é a “senhora do seu destino”. Case-se, ou não! Tenha filhos, ou não! Vá para o tatame, ou não! Se jogue na pista, ou não! O seu lugar é onde você quiser. A essência da valorização feminina é amar a si própria. Ah! Como é difícil ser um ser feminino! Mas, apesar das adversidades, ser mulher continua lindo!