A fé plural e o testemunho vivo das religiões
Nas últimas décadas, como que soprando um vento do Espírito sobre templos, terreiros e paróquias, vieram à tona pautas que antes jaziam escondidas entre folhetos litúrgicos e púlpitos
Nas últimas décadas, como que soprando um vento do Espírito sobre templos, terreiros e paróquias, vieram à tona pautas que antes jaziam escondidas entre folhetos litúrgicos e púlpitos: raça, gênero, identidade. Igrejas católicas, evangélicas e tradições de matriz africana começaram a entoar novos cânticos de justiça, resgatando dos antigos textos bíblicos personagens negros, recontando histórias que, até há pouco, permaneciam fora do altar.
A Igreja Católica, por exemplo, que até meados do século XX tolerava hierarquias silenciosas e distinções que ferem a dignidade humana, hoje acolhe, pouco a pouco, reivindicações do movimento negro, celebra liturgias com batuques e rezas que fazem ecoar raízes africanas. E nas comunidades evangélicas, brotam vozes que clamam por visibilidade, que evocam a negritude dos heróis bíblicos, reivindicando o sagrado na pele, no corpo, na história dos que foram silenciados.
No Censo de 2022, Deus parece soprar sobre números: os católicos seguem sendo maioria, embora a luz que incide sobre eles se apague levemente; os evangélicos aumentam, deslocando antigas fronteiras; os que dizem não ter religião crescem, apontando para horizontes de espiritualidade fora de templos formais. E as religiões afro-brasileiras, por muitos anos marginalizadas, veem o seu espaço reconhecido como guardiãs da ancestralidade, como pontes entre passado e presente, entre orixás, santos e santos-negros.
Essa realidade alterada ressurge de forma a enaltecer os lugares de cultos que se tornaram palcos não só de louvor, mas de produção de sentido como: a luta contra o racismo e o clamor por justiça. Essa transformação é visível e sentida não só fisicamente, mas também na alma.
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