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O sucesso que o Amazônia-1 representa

“O principal ganho é a validação da Plataforma Multimissão (PMM), o ganho em confiabilidade e a redução de prazos e custos para futuras grandes missões, aquelas da ordem de um bilhão de reais, que criaria um parque industrial competitivo e com ambições no mercado externo”


Por Mario Eugenio Saturno, tecnologista sênior do INPE e congregado mariano

06/04/2021 às 07h00

O lançamento do Amazônia-1 trouxe-me à memória a incrível saga para se ter esse satélite, especialmente os empecilhos da Justiça brasileira e da busca de financiamento para terminar o satélite.
A Missão Espacial Completa Brasileira previa a Base Espacial de Alcântara, o foguete lançador e os satélites de coleta de dados e sensoriamento remoto. Em meados dos anos 1990, foi concebido o Satélite de Sensoriamento Remoto, sendo licitado em 1997, mas travado pela Justiça. Nenhuma surpresa, né?

No final de 2000, a gerência composta por Carlos Eduardo Santana, Jânio Kono e Marcos Quintino da Silva (os maiores especialistas que o Brasil teve) montou uma nova equipe com novos integrantes, como Roberto Lopes, Sebastião Varotto e eu, pessoas essenciais – os dois primeiros. E, também, conceberam uma nova e mais moderna versão do SSR-1, Satélite de Sensoriamento Remoto. Havia algumas necessidades básicas, como usar câmaras grandes e evitar um fracasso certeiro.

O resultado inicial do projeto produzido pela equipe agradou tanto que, em setembro de 2001, ganhou novo status: Plataforma Multimissão e com carga útil da primeira missão para observar a Amazônia. Em dezembro, somente metade do satélite foi licitada com sucesso, o medo da disputa judicial fez a gerência optar por cancelar a compra do sistema de controle de três eixos e de computação.

Aí veio crise financeira do Brasil, mudança das chefias, que implicou nova tentativa de desenvolver internamente, o que atrasou o projeto do início de 2003 até 20 de setembro de 2005, quando o grupo responsável estimou 27 anos para cumprir a tarefa. De 2005 a 2008, foram anos dedicados também à busca de financiamento e de um parceiro que repassasse a tecnologia de controle. O Governo prometeu recursos do CNPq que não vieram. Mas, parceiros, apareceram dois israelenses e três europeus. E que foram ouvidos para a elaboração da concorrência, para que todos tivessem a mesma oportunidade.

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Parecia que fecharíamos 2008 com o projeto finalizado, mas um dos grupos tinha uma empresa parceira com índices contábeis ruins. A lei faculta ao órgão público aceitar com garantia ou recusar, considerando a tecnologia de ponta, optamos por apenas empresas com saúde financeira. Novamente, disputa na Justiça, e um juiz que quis forçar o INPE o que a lei facultava. Parece incrível, mas é verdade.

Finalmente, o diretor Gilberto Câmara resolveu usar o acordo com a Argentina e fez uma compra da estatal argentina INVAP. E, hoje, temos o Amazônia-1!

O satélite monitorará o desmatamento e a agricultura com uma alta taxa de revisita. Mas o principal ganho é a validação da Plataforma Multimissão (PMM), o ganho em confiabilidade e a redução de prazos e custos para futuras grandes missões, aquelas da ordem de um bilhão de reais, que criaria um parque industrial competitivo e com ambições no mercado externo.

Deveríamos começar com um satélite radar de banda L para mapear geologicamente o Brasil e monitorar debaixo das copas das grandes árvores da Amazônia. Lembro que a Argentina já fez dois nos últimos anos e que este país tem um terço do nosso PIB.

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