O amor que nos ensinaram é parte da violência que nos mata
“O corpo feminino é tratado como disponibilidade obrigatória, como extensão relacional de um homem, e não como território de desejo e autonomia”
Os casos de violência contra a mulher que chamaram a atenção do Brasil no último final de semana, como a agressão do “Calvo do Campari”, o atropelamento e arrastamento de Tainara Souza Santos, e o duplo feminicídio no Cefet-RJ, dificilmente podem ser lidos como episódios isolados ou como algum desvio cometido por pessoas “monstruosas”. O que eles expõem é um mecanismo cultural que molda e disciplina modos de amar, especialmente entre as mulheres.
Estudos de Valeska Zanello sobre o “dispositivo amoroso” e a “prateleira do amor”, e a teoria da “solidão relacional” de Ana Suy ajudam a esclarecer essa lógica. Do ponto de vista de Zanello, o amor, longe de ser natural, funciona como uma ferramenta estrutural que molda as subjetividades femininas. Porque, é desde muito jovens, que as mulheres são ensinadas que amar requer compreensão, paciência, persistência e, acima de tudo, submissão. E os sinais de perigo, como possessividade, ciúme e agressividade, tornam-se então marcas de “intensidade”, não avisos.
Quando uma mulher é atacada por recusar sexo, como vemos no caso do “Calvo do Campari”, é quando o dispositivo do amor funciona em seu extremo mais cruel. O corpo feminino é tratado como disponibilidade obrigatória, como extensão relacional de um homem, e não como território de desejo e autonomia. E a ideia da prateleira do amor torna explícita essa assimetria no mercado afetivo: enquanto os homens ainda são considerados “escolhíveis” quando são violentos ou misóginos, as mulheres são educadas “para não ficarem sozinhas, para não perderem a chance”. E isso constrói uma fragilidade afetiva e ajuda a explicar por que tantas permanecem em relacionamentos abusivos, por medo de perder seu valor social ou descer da prateleira e enfrentar estigmas.
Ana Suy, ao analisar o descompasso entre o amor idealizado e o amor vivido, afirma que “miramos no amor e acertamos a solidão”. Para ela, a cultura oferece às mulheres fantasias de amor que completaria faltas, daria sentido à vida, venceria dificuldades e redimiria violências. A realidade, contudo, é que muitas acabam vivendo uma solidão acompanhada, em relações nas quais cuidado, reconhecimento e afeto não retornam.
Mas, veja, não se trata de não ter parceiros. Trata-se do enorme abismo entre a fantasia cultural do amor e sua realidade violenta. E vale ressaltar que dados recentes confirmam esse aspecto sistêmico. Conforme o DataSenado, em 2025, 3,7 milhões de mulheres enfrentaram violência doméstica ou familiar e o país registrou 33.999 estupros e 718 feminicídios só nos primeiros seis meses. Além disso, mais de 70% dessas agressões ocorreram perto de crianças, o que indica dinâmicas intergeracionais em jogo na desigualdade de gênero. Meninos aprendem que homens controlam, meninas que mulheres obedecem e que amar é ser paciente e suportar.
Diante disso, é preciso abandonar leituras moralizantes ou patologizantes dos agressores e perceber que os homens que cometem essas violências não são “monstros isolados”, mas produtos e operadores de uma maquinaria social que autoriza, estimula e normaliza a violência masculina como forma de regulação do corpo e da vida das mulheres.
Como nos lembra Teresa de Lauretis, compreender o amor como uma “tecnologia de gênero” produzida culturalmente nos permite ver que esses crimes não acontecem apesar da cultura, mas por causa dela. E repensar como ensinamos mulheres a amar, e como ensinamos homens a lidar com frustração, perda, rejeição e limites, não é apenas uma tarefa ética, mas política e urgente, necessária para romper o ciclo da violência de gênero no Brasil.
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