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A solidão da presença

“A ausência de diálogo, de escuta e de tempo compartilhado produz um distanciamento que se instala lentamente”


Por Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves*

26/06/2026 às 08h00- Atualizada 26/06/2026 às 14h29

A experiência da solidão costuma ser associada à ausência de companhia. No entanto, um dos fenômenos mais característicos das relações contemporâneas é a possibilidade de sentir-se só mesmo estando ao lado de outra pessoa. Essa condição, cada vez mais frequente, revela que a convivência física não garante, por si só, a construção de vínculos significativos.

Em muitos relacionamentos, o compartilhamento da rotina substitui o compartilhamento da vida. Casais dividem a mesma casa, os mesmos compromissos e até os mesmos espaços de lazer, mas o diálogo torna-se escasso e a comunicação passa a ser funcional. A presença permanece, porém o encontro se enfraquece.

As transformações sociais e tecnológicas contribuem para esse cenário. A conectividade permanente ampliou as possibilidades de interação, mas também reduziu os momentos de atenção exclusiva ao outro. É comum observar pessoas reunidas em uma mesma mesa, cada uma concentrada em seu próprio dispositivo eletrônico, evidenciando uma convivência marcada mais pela simultaneidade do que pela reciprocidade.

Essa realidade não resulta, necessariamente, da falta de afeto, mas do desgaste gradual das relações. A ausência de diálogo, de escuta e de tempo compartilhado produz um distanciamento que se instala lentamente, quase sempre imperceptível. Quando percebido, muitas vezes já se tornou parte da rotina.

Outro aspecto relevante é a permanência em relações esvaziadas por medo da ruptura, pela estabilidade construída ao longo dos anos ou pela dificuldade de enfrentar mudanças. Nesses casos, a manutenção do relacionamento nem sempre significa a preservação do vínculo, mas apenas a continuidade da convivência.

A qualidade das relações humanas depende menos da proximidade física do que da capacidade de construir espaços de confiança, comunicação e reconhecimento mútuo. Estar presente exige mais do que ocupar o mesmo ambiente; pressupõe disponibilidade para ouvir, dialogar e compartilhar experiências.

A solidão da presença, portanto, não é apenas um desafio da vida afetiva, mas um reflexo das formas contemporâneas de convivência. Em uma sociedade marcada pela velocidade, pelo excesso de estímulos e pela comunicação instantânea, preservar relações autênticas tornou-se uma tarefa que exige atenção, tempo e disposição para reencontrar o outro para além da simples proximidade.

*Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves é mestre em Teologia, professor de Ensino Religioso do Colégio Santa Catarina e de Filosofia, Sociologia e Projeto de Vida do Centro Educacional do Raciocínio e Aprendizagem Socializada em Juiz de Fora