Igreja e filosofia

“A fé enquanto tal não é uma filosofia e a Igreja não se baseia em uma sabedoria humana”


Por Luís Eugênio Sanábio e Souza*

24/09/2025 às 15h23

A Igreja Católica considera que a plenitude da verdade que Deus nos revela em Jesus Cristo, não está em contraste com as verdades que se alcançam filosofando através da razão natural. Pelo contrário, a fé e a razão são duas ordens de conhecimento que conduzem à verdade na sua plenitude, porque “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” 1 .

Diante do racionalismo e também do fideísmo, no século XIX, a Igreja, através do Concílio Vaticano I, afirmou assim : “A Igreja Católica sempre sustentou e sustenta que existem duas ordens de conhecimento, distintas não apenas pelo seu princípio, mas também pelo seu objeto; pelo seu princípio, porque em um conhecemos pela razão natural, no outro pela fé divina; pelo objeto, porque, além das verdades que a razão natural pode compreender, nos é proposto ver os mistérios escondidos em Deus, que não podem ser conhecidos sem revelação divina” (Concílio Vaticano I: DF cap. IV). Assim, a Igreja reprovou dois extremos : de um lado o fideísmo, pela sua falta de confiança nas capacidades naturais da razão; e, do outro, o racionalismo porque atribuía à razão natural aquilo que apenas se pode conhecer pela luz da fé. “É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição” 2

O termo filosofia significa, segundo a etimologia grega, “amor à sabedoria”.Santo Tomás de Aquino nos lembra a distinção de duas sabedorias : a filosófica, que se baseia sobre a capacidade que tem o intelecto, dentro dos próprios limites naturais, de investigar a realidade; e a sabedoria teológica, que se fundamenta na revelação divina e examina os conteúdos da fé, alcançando o próprio mistério de Deus. Na Bíblia, o apóstolo Paulo nos fala do perigo de vãs filosofias. Sobre isso, o Papa São João Paulo II explicou que São Paulo estava se referindo ao esoterismo quando advertiu assim: “Vede que ninguém vos engane com falsas e vãs filosofias, fundadas nas tradições humanas, nos elementos do mundo, e não em Cristo” (Epístola aos Colossenses 2, 8) 3 .

É verdade que “no desenvolvimento do saber filosófico, surgiram diversas escolas de pensamento; ora, este pluralismo impõe ao Magistério da Igreja Católica a responsabilidade de exprimir o seu juízo sobre a compatibilidade ou incompatibilidade das concepções de base, defendidas por essas escolas, com as exigências próprias da palavra de Deus e da reflexão teológica” 4. Certas antigas concepções pagãs e que hoje, sob influência de um neopaganismo, se encontram presentes em algumas correntes filosóficas, são reprovadas pela Igreja em razão da revelação divina. Algumas dessas errôneas concepções são: o panteísmo, a mitologia, o esoterismo, a magia, a astrologia, o ocultismo, a reencarnação, a superstição, o politeísmo, as idolatrias e outras ilusões e desvios que contrariam a autêntica fé cristã 5 .

A fé enquanto tal não é uma filosofia e a Igreja não se baseia em uma sabedoria humana como se Cristo fosse simplesmente um sábio no sentido em que foi Sócrates ou qualquer outro admirável filósofo. É sempre importante discernir “não o que os homens pensam, mas qual é a verdade objetiva”, alertava Santo Tomás. A Igreja tem o dever de anunciar para todos a plenitude da verdade que se encontra em Jesus Cristo que é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14,6). Ele que é “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” 6 . Valorizando o esforço racional, a Igreja Católica “considera a filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem ainda” 7 . Santo Agostinho concluiu assim : “eu creio para compreender e compreendo para melhor crer”.

NOTAS
1 – Papa São João Paulo II: encíclica “Fides et Ratio”, introdução.
2 – Papa São João Paulo II: encíclica “Fides et Ratio” nº 48.
3 – Papa São João Paulo II: encíclica “Fides et Ratio” nº 37.
4 – Papa São João Paulo II: encíclica “Fides et Ratio” nº 50.
5 – Catecismo da Igreja Católica nº 2111 até 2117; Pio XII: Humani generis nº 39; “A história da salvação não é mitologia, mas uma história verdadeira e, portanto, deve ser estudada com os métodos de uma séria investigação histórica” (Papa Bento XVI: Sala do Sínodo em 14/10/2008).
6 – Credo Niceno-Constantinopolitano.

* Luís Eugênio Sanábio e Souza é escritor

 

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