Diabéticos e hipertensos no arraial: dá, sim, pra comer com prazer e consciência

“O comer vai muito além de matar a fome. Ele é social, simbólico, afetivo”


Por Alessandra Cupertino*

19/06/2025 às 08h00

Nessa época do ano, é impossível não pensar nos aromas e sabores das festas juninas. Milho verde cozido, canjica, pamonha, pé de moleque, caldos e outras tantas delícias que fazem parte da nossa identidade cultural. Mas também é nessa época que escuto muitos pacientes, especialmente diabéticos e hipertensos, perguntarem se precisam se afastar da festa por causa das restrições alimentares. A resposta é simples: não precisam se afastar, mas precisam aprender a participar com consciência.

O comer vai muito além de matar a fome. Ele é social, simbólico, afetivo. Nas festas, comemos também para celebrar,  compartilhar, pertencer. E isso não pode ser ignorado. Excluir alguém da experiência em nome de um “rigor nutricional” é não compreender a dimensão completa do ato de comer. Por isso, sou defensora do equilíbrio, não da proibição.

Para quem tem diabetes, o cuidado com os doces típicos é essencial, sim. O consumo de açúcar simples pode descompensar a glicemia e trazer prejuízos imediatos. Mas há alternativas: receitas adaptadas com adoçantes como estévia, xilitol ou eritritol podem manter o sabor sem trazer riscos. Uma canjica feita com leite desnatado e sem açúcar continua sendo uma canjica — e pode ser tão prazerosa quanto a original.

Já os hipertensos devem ficar atentos ao excesso de sódio, especialmente presente nos caldos industrializados e temperos prontos. Mas um caldo caseiro, feito com verduras frescas e ervas naturais, é uma excelente opção. Temperos como alho, cebola, cebolinha, salsinha, cúrcuma e louro trazem sabor e ainda agregam valor nutricional. A pipoca sem sal e sem manteiga, preparada na panela, com pouco óleo, também é uma boa pedida para quem quer petiscar sem medo.

Mas o grande inimigo, no fim das contas, não é o milho, o amendoim ou o açúcar — é o exagero. Aquela mentalidade de “comer como se não houvesse amanhã” traz consequências reais. O organismo responde com inflamação, azia, queimação, mal-estar e, em casos mais graves, crises de hipertensão ou picos de glicemia. O segredo está em reconhecer os sinais do corpo e entender a hora de parar. Comer com prazer não significa comer até passar mal.

Se houver exagero, a melhor estratégia no dia seguinte é voltar para o plano alimentar habitual, reforçar a hidratação e respeitar o tempo do corpo para se reequilibrar. Não adianta fazer jejuns extremos ou compensações radicais: a constância é sempre mais eficiente do que as soluções desesperadas.

Defendo, com todas as letras, que diabéticos e hipertensos têm lugar à mesa junina. Desde que haja informação, planejamento e moderação, todos podem — e devem — participar dessa festa tão rica para a nossa cultura. Não se trata de excluir, mas de incluir com responsabilidade.

Comer bem é, também, um ato de liberdade. E liberdade, para mim, é poder celebrar a vida com saúde e sabor!

*Alessandra Cupertino é nutricionista e professora do curso de Nutrição da Estácio Juiz de Fora

 

Esse espaço é para a livre circulação de ideias e a Tribuna respeita a pluralidade de opiniões. Os artigos para essa seção serão recebidos por e-mail ([email protected]) e devem ter, no máximo, 30 linhas (de 70 caracteres) com identificação do autor e telefone de contato. O envio da foto é facultativo e pode ser feito pelo mesmo endereço de e-mail.