Evangelizar sem coagir
“Jesus Cristo convidou à fé e à conversão, mas de modo algum coagiu”
Jesus Cristo convidou à fé e à conversão, mas de modo algum coagiu. Deu testemunho da verdade, mas não quis impô-la pela força aos que a ela resistiam. Seguindo o exemplo de seu fundador Jesus Cristo, a Igreja Católica afirma que “jamais é lícito a alguém levar os homens a abraçar a fé católica por coação, contra a própria consciência” (Código de Direito Canônico, cânon 748 § 2).
Cristo afirmou que todos os povos devem ser evangelizados (Mateus 28, 19-20) e, por isso, a tarefa de evangelizar constitui a missão e o dever essencial da Igreja. Este dever sagrado de evangelizar deve respeitar a liberdade de consciência e, por isso, deve-se evitar a “doutrinação”.
No século IV, Santo Agostinho explicou que a fé, se não for pensada, nada é, ou seja, crer nada mais é senão pensar consentindo; todo o que crê pensa; crendo, pensa e pensando, crê. Se tira o assentimento, tira-se a fé, pois, sem o assentimento, realmente não se crê”.1
O Papa Leão XIV afirmou: “A doutrinação é imoral, impede o juízo crítico, atenta contra a sagrada liberdade do respeito pela própria consciência (ainda que esteja equivocada) e fecha-se a novas reflexões porque recusa o movimento, a mudança ou a evolução das ideias face a novos problemas. Pelo contrário, a doutrina como reflexão séria, serena e rigorosa tem como finalidade ensinar-nos, em primeiro lugar, a saber abordar as situações e, antes ainda, as pessoas. Além disso, ajuda-nos na formulação do juízo prudencial”.2
Nos ensinamentos da Igreja, é preciso distinguir entre aquilo que é essencial e aquilo que é secundário e passível de mudança. O Papa São Paulo VI explicou: “Na mensagem que a Igreja anuncia, há, certamente, muitos elementos secundários. A sua apresentação depende, em larga escala, das circunstâncias mutáveis. Também eles mudam. Entretanto, permanece sempre o conteúdo essencial, a substância viva, que não se poderia modificar nem deixar em silêncio sem desnaturar gravemente a própria evangelização”.3 O Concílio Vaticano II afirmou que “subjacentes a todas as transformações, há muitas coisas que não mudam, cujo último fundamento é Cristo, o mesmo ontem, hoje, e para sempre (Hebreus 13,8)”.4
“A Igreja Católica manda crer fiel e firmemente tudo o que Deus revelou, isto é, o que está contido na Sagrada Escritura e na Tradição tanto oral como escrita e, no decurso dos séculos, desde o tempo dos apóstolos foi estabelecido e definido pelos Sumos Pontífices e pelos legítimos Concílios Ecumênicos. Sempre que alguém se afastou desta verdade, a Igreja com a sua materna autoridade não deixou de o chamar repetidamente ao reto caminho. Pois sabe muito bem e defende que há uma só verdade e que não podem admitir-se “verdades” contrárias entre si; faz sua a afirmação do Apóstolo das gentes: “Nada podemos contra a verdade, mas pela verdade” (2 Coríntios 13,8).
Há, porém, não poucos pontos em que a Igreja Católica deixa liberdade de discussão aos teólogos, porque se trata de coisas não de todo certas e também porque, como notava o celebérrimo escritor inglês, Cardeal João Henrique Newman, tais disputas não quebram a unidade da Igreja, mas pelo contrário levam a maior e mais profunda inteligência dos dogmas, pois aplanam e tornam mais seguro o caminho para este conhecimento; da oposição de várias sentenças sai sempre nova luz. Mas é preciso manter também a norma comum que, expressa com palavras diversas, se atribui a diferentes autores: nas coisas necessárias, unidade; nas duvidosas, liberdade; em todas, caridade” 5.
NOTAS
1 – Santo Agostinho : De fide, spe et caritate, 7: CCL 64, 61..
2 – Papa Leão XIV: Discurso aos membros da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, em 17/05/2025.
3 – Papa São Paulo VI: Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi nº 25.
4 – Concílio Vaticano II: Constituição Pastoral Gaudium et spes nº 10.
5 – Papa São João XXIII : Encíclica Ad Petri Cathedram nº 37
* Luís Eugênio Sanábio e Souza é escritor
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