Quando o cuidador está exausto: onde é possível mexer na rotina?
“Quando o cuidador está exausto, nem sempre a saída é fazer mais”
Há dias em que o cuidador acorda cansado antes mesmo de começar. Enquanto prepara o café, organiza a mochila, responde mensagens e tenta cumprir horários, já sente que está correndo contra o tempo. A casa precisa funcionar. A criança precisa comer, se vestir, ir para a escola, tomar banho e dormir. Tudo parece urgente. Muitas vezes, o adulto não para para pensar na rotina. Apenas tenta dar conta dela. Mas existe uma pergunta importante: será que tudo precisa ser feito desse jeito?
Quando o cuidador está exausto, nem sempre a saída é fazer mais. Às vezes, é observar o que está consumindo energia demais.
Algumas tarefas não cansam apenas pelo que exigem, mas pela forma como acontecem: sempre com pressa, tensão ou conflito. A hora do banho vira batalha. A saída de casa vira corrida. A refeição vira negociação interminável.
Também vale perguntar: existe alguma atividade nessa rotina que ainda produz prazer? Ou tudo virou obrigação? Uma rotina sustentada apenas por tarefas cobra um preço alto do corpo e das relações.
Mexer na rotina não significa controlar tudo. Significa identificar desgastes repetidos e fazer pequenos ajustes possíveis.
Às vezes, é reduzir escolhas. Outras vezes, simplificar tarefas ou parar de transformar cada detalhe em disputa. Isso não é descuido. É cuidado.
Quando o adulto está constantemente no limite, a paciência encurta, o humor desaparece e a convivência se torna mais difícil.
E humor não é detalhe. Muitas vezes, uma brincadeira simples muda o clima da casa mais do que uma nova regra.
Talvez, a rotina não precise de mais esforço. Talvez, precise de mais consciência. Porque quando o cuidador está exausto, o problema nem sempre é falta de dedicação. Às vezes, é apenas uma vida sustentada por tempo demais sem espaço para respirar.
*Andrea Fernandes da Rocha é terapeuta ocupacional, atua com desenvolvimento infantil e parentalidade, e escritora.
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