Feminicídio no Brasil

“É revoltante ver que a masculinidade, para muitos, ainda está atrelada a esse sentimento ridículo de posse doentio e à violência covarde”


Por Eduardo Colucci*

14/05/2026 às 08h00

Às vezes, eu me pego em um silêncio profundo e desconfortável, sentindo um peso no peito que é difícil de explicar, uma espécie de vergonha silenciosa por compartilhar o mesmo gênero de tantos homens que cometem atrocidades. É impossível ignorar o noticiário e não sentir um aperto no estômago ao ver que os casos de feminicídio no Brasil não param de crescer, revelando uma realidade brutal em que mulheres perdem a vida simplesmente por serem mulheres.

Sinto uma angústia genuína ao perceber que vivemos em uma sociedade em que a recusa de um convite ou o fim de um relacionamento pode se tornar uma sentença de morte, tudo porque alguns homens não possuem a maturidade ou o caráter necessário para aceitar um “não”. É revoltante ver que a masculinidade, para muitos, ainda está atrelada a esse sentimento ridículo de posse doentio e à violência covarde que não tem justificativa alguma.

O que mais me dói é perceber como esse comportamento sombrio e criminoso acaba respingando em todos nós. Quando um homem mata por não aceitar um fora, ele mancha a imagem de todos os homens de verdade, daqueles que entendem o valor do respeito, da parceria e da liberdade alheia. Essa sombra de desconfiança e medo que paira sobre as mulheres é um reflexo direto dessa barbárie, e entendo perfeitamente por que elas se sentem inseguras, afinal, como diferenciar o homem íntegro daquele que esconde um monstro por trás de um ego ferido? É frustrante ser colocado no mesmo grupo de assassinos que acreditam ter o direito de tirar uma vida por puro orgulho ferido, pois sei que a verdadeira força de um homem deveria ser usada para proteger, para construir e para honrar aquelas que estão ao nosso lado, e não para destruí-las.

Acredito piamente que as mulheres merecem ser tratadas sempre com o máximo de cuidado, respeito e admiração, sem exceções. Não se trata apenas de cortesia, mas de um princípio básico de humanidade que parece estar se perdendo em meio a tanto ódio e egoísmo. Elas deveriam poder caminhar sem medo, terminar ciclos sem receio de represálias e viver suas vidas com a certeza de que sua integridade física e emocional será preservada.

Ser um homem de verdade, para mim, é carregar essa consciência e repudiar veementemente cada ato de violência, entendendo que o silêncio também é uma forma de conivência. Enquanto houver homens que tratam mulheres como objetos de sua propriedade, a minha vergonha persistirá, impulsionando-me a ser alguém que luta, pelo menos no meu círculo, para que o respeito seja a única regra aceitável e que a vida de cada mulher seja sempre celebrada e protegida.

*Eduardo Colucci é designer gráfico

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