Ulysses Guimarães tinha razão

“Toda esta balbúrdia política provocada, não nos esqueçamos por aqueles eleitos com nosso voto, tende a radicalizar ainda mais”


Por Paulo César de Oliveira*

12/08/2025 às 08h00

Por mais otimistas que queiramos ser, temos que admitir que tempos difíceis ainda estão por vir. Não por tarifaço, por desequilíbrios de humor de Donald Trump – um problema real, temos que admitir- mas, sim, pela qualidade da política brasileira atual.

Aí nos recordamos de Ulisses Guimarães, lá nos anos1980, quando ao ouvir críticas ao Congresso fez sua previsão do que estava por vir: “tão achando ruim, esperem pela próxima composição”. Infelizmente, ele estava certo. A crise internacional que estamos enfrentando agora nos dá a medida – ainda não sei se exata – da qualidade de nossos políticos. Mas numa primeira análise é realmente de assustar, assistir um Congresso aceitar a ingerência externa de um país que, não nos esqueçamos, patrocinou o último período ditatorial no Brasil.

Escutarmos um senador – um senador bem antigo por sinal – acusar um ministro do Supremo Tribunal Federal de violação da Constituição dos Estados Unidos – isto mesmo, a Constituição norte americana – ao decretar a prisão domiciliar do ex-presidente. Isto sem contar os atos de selvageria praticados na Câmara e no Senado, semana passada, impedindo o funcionamento das duas Casas. Atos assim só desvalorizam a atividade parlamentar e, pior do que isto, geram em parte da população um sentimento de revolta e – não se assustem – de saudade dos regimes autoritários que para parte da população, colocava ordem na casa.

Toda esta balbúrdia política provocada, não nos esqueçamos por aqueles eleitos com nosso voto, tende a radicalizar ainda mais, com a aproximação do julgamento dos golpistas e das eleições de 2026. O quadro eleitoral para a sucessão presidencial que se desenha será de alguém da chamada direita enfrentando Lula, que as pesquisas insistem em apontar como favorito, apesar dos levantamentos mostrarem também uma insatisfação não bem explicada com o seu governo.

A persistência deste quadro e o previsível esvaziamento político de Bolsonaro, caso se confirme sua condenação, devem provocar uma retração nas candidaturas da chamada direita, com muitos do que hoje se dizem postulantes, confiantes ainda na força política do bolsonarismo, desistindo da disputa, o que fortalece a candidatura petista.

Um quadro real da disputa do ano que vem nós vamos ter a partir da condenação ou absolvição de Bolsonaro, desfecho previsto para daqui um mês, no máximo. Enquanto isto a nós eleitores só resta o banquinho da arquibancada de onde assistiremos as bravatas dos que, até aqui, têm de aproveitado do episódio Bolsonaro para se manterem como os valentes defensores do país.

*Paulo César de Oliveira é jornalista e diretor-geral da revista Viver Brasil 

 

 

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