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Setembro Amarelo e o morrer de velhice

“A cultura em que estamos inseridos sustenta uma lógica perversa e materialista”


Por David Sender*

03/09/2025 às 07h00

A maior parte das campanhas de prevenção ao suicídio destaca o número alarmante de jovens que tentam contra a própria vida. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam o suicídio como a terceira principal causa de morte evitável durante a juventude – um cenário deprimente.

Porém, para a surpresa de muitos, o risco de suicídio não é maior entre jovens. Ele aumenta à medida que a pessoa envelhece. Ou seja: o número de idosos que tiram a própria vida supera o dos jovens. E não é detalhe estatístico. É o dobro.

Talvez essa falta de visibilidade seja compreensível. Em contraste com um adolescente cuja morte se torna comoção nacional, a de um idoso vira rotina de cartório. Mas há diferenças nas variáveis desse fenômeno, pois, ao contrário dos jovens – em que a impulsividade é característica de cérebros ainda em formação -, os idosos são mais movidos pelo esvaziamento dos laços sociais. Um elemento indissociável do autoextermínio.

A verdade é que não terceirizamos apenas os cuidados com os idosos. Terceirizamos também a culpa. Afinal, o suicídio não ocorre de forma abrupta. É resultado de um adoecimento em múltiplos campos: biológico, psicológico e social. Doenças clínicas, dores crônicas, discriminação e isolamento produzem um acúmulo de vulnerabilidades que aumentam o risco desse desfecho. E, nesse ponto, a responsabilidade recai sobre nós.

A cultura em que estamos inseridos sustenta uma lógica perversa e materialista, em que a capacidade produtiva se liga invariavelmente ao valor social. Uma injustiça refletida nas estatísticas de mortalidade.

Nosso tempo nos incentiva a focar obsessivamente em desempenho. Contamos calorias, contratos fechados, horas de sono. Mas não criamos nada que meça a solidão do idoso ao lado. E é aí que erramos.

Um futuro aprovado por aplicativos não garante qualidade de vida, e os 5 kg adicionados ao supino não reduzem a angústia de ser esquecido na velhice. Se queremos avançar no tempo com dignidade, precisamos lembrar do que importa: as relações. E, para garanti-las, podemos começar oferecendo-as hoje mesmo. A quem teve a sorte de já ter chegado até lá.

*David Sender é médico psiquiatra, psicoeducador, professor e palestrante