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O cinismo não veste amarelo

“Com a Seleção,  exercemos um nível de exigência quase inalcançável”


Por Mateus de Albuquerque*

02/07/2026 às 08h00

Após o jogo entre Noruega e Senegal, foram visíveis as manifestações de entusiasmo com a torcida nórdica, especialmente pelo movimento de remada viking, executado pelos torcedores e, naquela ocasião, mimetizado pelos jogadores. Uma das primeiras reações, claro, parte daqueles que miram o jardim do vizinho e só conseguem ver jade fosforescente: que legal seria se o Brasil tivesse algo assim.

O Brasil já teve, na verdade. Na Copa de 2014 (e na Copa das Confederações do ano anterior), era comum o ato de entoar o hino nacional à capela, acompanhado pelos jogadores. As cenas desse ocorrido ainda circulam em muitas redes sociais no estrangeiro, mas aqui são tratadas como algo menor. Chegaram até a ser piada.

A verdade é que nada relacionado à Seleção Brasileira nos toca. Somos cínicos com tudo. Tudo nosso é mais chato, menos orgânico, mais comercial. Literalmente, a única coisa que nos faz sorrir é ganhar o título. Pensava-se que a taça de 1958 havia exterminado a tal síndrome de vira-lata nelsonrodrigueana, mas inaugurou uma formada por outro tipo. Com a Seleção,  exercemos um nível de exigência quase inalcançável: tem que ganhar, ganhar por muito, ganhar por muito jogando bem, tem que ter boas posições políticas, tem que se relacionar com parceiras coerentes e éticas. Não esquadrinhamos os outros escretes com lupa tão ajustada, apenas recebemos, em doses homeopáticas, as notícias dispersas do que é legal nelas.

Enquanto da amarelinha, ao consumirmos tudo, apenas nos entristecemos, sempre desejando ser o outro. Sou dos românticos que ainda veem certo valor na Seleção Brasileira. Estou junto com os vanuatuenses, os bengaleses e os haitianos em ver valor no fato de um selecionado de homens (majoritariamente) negros do sul global ser a melhor do mundo em alguma coisa.

Mas também não fico exigindo que outros me acompanhem. Se futebol também é política; é muito ruim resumi-lo a isso. Eu, por exemplo, seco a Argentina não porque os odeie, mas porque vejo beleza em uma rivalidade constituída única e exclusivamente no entorno do futebol. Mas quem quiser, por algum sentimento de latinidade, torcer para eles, que o faça, sem também transformar isso em proselitismo.

Por fim, um breve comentário sobre Neymar Jr. Assisti a Brasil x Escócia em um bar. A cada aparição do jogador na tela, metade do bar vaiava e metade aplaudia. Eu já passo a realmente ver certo valor não intencional na figura: um Quincas Berro D’Água, um Tancredo Neves tirando foto já falecido, um golem cambaleante formado por todas as várias contradições do Brasil. É assustadora a capacidade de Neymar de desorganizar a nossa psiquê e nos levar às reações mais intempestivas e desproporcionais. É um avatar da nossa não-retidão.

*Mateus de Albuquerque é professor no Departamento de Ciências Sociais da UFJF

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