Explosão em banco de Guidoval reacende discussão sobre ‘novo cangaço’ no interior de Minas
Especialistas explicam o que é o “novo cangaço”, prática marcada por explosões de bancos e armamento pesado, e analisam se o caso de Guidoval se encaixa nesse tipo de ação
Nesta sexta-feira (10), o termo “novo cangaço” voltou a circular após uma quadrilha formada ao menos quatro suspeitos explodir uma agência do Banco do Brasil, na cidade de Guidoval – município mineiro com 7 mil habitantes, a cerca de 130 quilômetros de Juiz de Fora. Na ocasião, eles furtaram um malote que continha moedas e fizeram disparos de arma de fogo, o que foi descrito pela Polícia Militar como um ato que “colocou em risco a integridade de terceiros”.
Durante a fuga, em uma motocicleta e uma Fiorino, os homens teriam incendiado ao menos dois veículos: a Fiorino, na zona rural de Rodeiro, município vizinho, e um Ônix, na altura do km 712 da MGC-120. Objetos perfurantes também teriam sido espalhados pela via. O caso, ocorrido durante a madrugada, resultou na prisão de pelo menos três suspeitos, com idades entre 17 e 33 anos, na manhã desta sexta-feira. Participaram da ação a Polícia Militar, a Polícia Civil e uma equipe do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Em coletiva de imprensa realizada nesta sexta-feira, o governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), descartou que o caso de Guidoval se enquadre no chamado “novo cangaço”. Segundo Simões, os criminosos “conhecem a nossa velocidade de reação”, e o episódio deve ser tratado como crime comum. A Tribuna ouviu o delegado regional Bruno Wink e o antropólogo Lênin Pires, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), para detalhar os critérios que definem o chamado “novo cangaço” e discutir em que medida ações como a registrada em Guidoval se aproximam dessa classificação ou dela se afastam.
O que é novo cangaço
Uma ação criminosa violenta, normalmente em pequenas cidades, praticada por grupos organizados com uso de explosivos, armas de grosso calibre e, em alguns casos, reféns, tendo como alvo principal agências bancárias. É assim que o delegado regional Bruno Wink define o chamado “novo cangaço”, modalidade criminosa marcada por um padrão específico de atuação, geralmente durante a madrugada.
O termo, dado em analogia ao cangaço, fenômeno presente entre o final do século XIX e o início do século XX no Nordeste brasileiro e que tem como figura mais conhecida Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Conforme o delegado, o “novo cangaço” não se resume a um crime isolado, mas a um conjunto de ações criminosas, como formação de organização criminosa, roubo com aumento de pena, porte ilegal de arma de fogo, normalmente de uso restrito, dano qualificado pelo uso de explosivos, dentre outros.
Professor doutor do Departamento de Segurança Pública da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), o antropólogo Lênin Pires acrescenta que outra característica dessa modalidade criminosa são os ataques extremamente violentos a agências bancárias e carros-fortes, geralmente em cidades de pequeno e médio porte.
Para Pires, o caso de Guidoval parece não se encaixar no modus operandi dessas quadrilhas. “Não envolve um grande número de criminosos, que utilizam armas de grosso calibre, com um estudo meticuloso do funcionamento da cidade, a ponto de interromper as principais vias de acesso ao local onde ocorrerá o roubo, impedindo ou dificultando ao extremo a atuação das polícias”, explica.
Com exceção do caso da chacina de Varginha, no Sul de Minas, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) teve acesso, mediante o uso de tecnologia inteligente, aos planos arquitetados por uma quadrilha, o que lhe permitiu antecipar a ação e matar os suspeitos, os grupos conhecidos por “novo cangaço” geralmente têm êxito. “Em outras palavras, geralmente esses criminosos empenham recursos tecnológicos em seus planejamentos, demandando atuação das autoridades que se pautem pela inteligência, em lugar da força bruta”, conclui o professor.
Apesar disso, ele avalia que não se trata de um crime comum, uma vez que o uso de explosivos não é tão frequente, e o risco envolvido pode alcançar pessoas para além do espaço focal do roubo. Um levantamento realizado pela Tribuna de Minas, com base em dados abertos da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), identificou ao menos quatro ocorrências de furto mediante arrombamento ou rompimento de obstáculos com uso de explosivos em Minas Gerais desde 2022.
Os casos foram registrados em Belo Horizonte, em janeiro de 2022; em Uberlândia, em setembro do mesmo ano; em Martinho Campos, em dezembro de 2022; e em Uberaba, em janeiro deste ano. Esse último foi o caso mais recente até a explosão da agência do Banco do Brasil em Guidoval, registrada na madrugada.
Quando se consideram ocorrências em instituições financeiras com uso de força ou ameaça – o que caracteriza o crime de roubo -, os registros são ainda mais raros. Em levantamento complementar, a reportagem não identificou casos recentes com esse perfil envolvendo o uso de inflamáveis, combustíveis, produtos químicos, explosivos ou fogo. A última ocorrência com essas características foi registrada em maio de 2020, na cidade de Pedralva, também no Sul de Minas.
Chacina já ocorreu em Minas Gerais em tentativa de combate ao ‘novo cangaço’
Ipirapetinga
Em 9 de junho de 2021, um grupo explodiu uma agência bancária na cidade de Pirapetinga, a cerca de 175 quilômetros de Juiz de Fora. A quadrilha fez disparos de arma de fogo, feriu um caminhoneiro, fez reféns e fugiu em direção ao Rio de Janeiro. A ação também ficou conhecida como um caso associado ao chamado “novo cangaço”.
A Polícia Federal deu então início a uma investigação que culminou no cumprimento de mandados de prisão temporária contra dois homens, sendo um deles um ex-fuzileiro naval, encontrado no bairro de Realengo, na Zona Oeste do Estado do Rio.
Chacina em Varginha
Em 31 de outubro de 2021, vinte e seis pessoas foram mortas em uma chacina resultado de uma megaoperação conjunta entre a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), no Sul de Minas, na cidade de Varginha, a aproximadamente 315 quilômetros de Juiz de Fora. Os mortos eram suspeitos de integrarem uma quadrilha que foi chamada de “Cangaço Novo”, por ser especializada em assaltos a bancos com uso de instrumentos de alto poder letal.
À época, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) chegou a ser acionado e atuou junto com os demais órgãos de segurança na localização e no confronto com os suspeitos. Os supostos membros da quadrilha foram encontrados e mortos em duas chácaras na cidade do interior de Minas. Não houve vítimas entre os policiais.
Ação do Cangaço Novo em Itajubá
No dia 23 de junho de 2022, um grupo criminoso também atacou uma agência da Caixa Econômica Federal em Itajubá, no Sul de Minas. Os suspeitos teriam trocado tiros com a PM até chegar à instituição bancária. Ao menos sete pessoas ficaram feridas.
Entre os feridos estavam um morador, que foi atingido na perna esquerda por um tiro, e um policial militar, que foi alvejado por um tiro de fuzil no braço e precisou passar por cirurgia. Ambos foram os que sofreram os ferimentos mais graves.
Tópicos: Novo Cangaço









