Ouça agora

Eleições 2026: Cleitinho e Carlos Viana lideram interações nas redes em Minas, aponta levantamento

Levantamento feito entre 31 de agosto e 15 de setembro analisou publicações no Instagram de candidatos ao Governo e ao Senado; pesquisador explica por que engajamento não significa intenção de voto


Por Tribuna de Minas

24/09/2026 às 15h27

Voto e Cidadania 2026As redes sociais digitais já superam a televisão como principal fonte de informação política para os eleitores mineiros. Segundo pesquisa Genial/Quaest de abril de 2026, 37% dos entrevistados apontaram as plataformas digitais como principal meio de informação sobre política, contra 35% que citaram a TV. Mas como os candidatos ao Governo de Minas e ao Senado têm utilizado esse espaço durante a campanha? Um levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX) analisou as publicações no Instagram e identificou diferenças no volume de postagens, nas interações e nos temas explorados pelas candidaturas.

O estudo integra os Hubs Regionais 2026, que acompanham a circulação de conteúdos eleitorais nas disputas estaduais. Na edição mais recente, divulgada na terça-feira (22), o instituto analisou publicações feitas entre 31 de agosto e 15 de setembro, período em que candidatos mineiros acumularam milhões de interações na plataforma.

O levantamento é realizado em cooperação com a Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), além de parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal do ABC (UFABC), a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Carlos Viana é o candidato ao Senado com mais interações no Sudeste

No levantamento mais recente, divulgado na terça-feira (22), o Instituto Democracia em Xeque analisou 13 das 16 candidaturas ao Senado em Minas Gerais, entre 31 de agosto e 15 de setembro. Ao todo, foram 870 publicações e 11.618.923 interações. O instituto reconhece uma falha na coleta que deixou Aécio Neves (PSDB) de fora da análise: “A indecisão dele fez a gente mudar o código que mapeia as postagens algumas vezes, e ele acabou ficando de fora em uma dessas mudanças”.

Carlos Viana (PSD) é o candidato ao Senado com mais interações em todo o Sudeste: 10.325.756, o equivalente a 88% das interações registradas entre os candidatos mineiros analisados. Suas 368 publicações tiveram como principal tema as críticas e os ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o levantamento, o volume de publicações e interações é “atípico”.

Eleições 2026: Cleitinho e Carlos Viana lideram interações nas redes em Minas, aponta levantamento
Viana é candidato à reeleição no Senado (Foto: Waldemir Barreto / Agência Senado)

“Seus conteúdos são direcionados a ataques contra Alexandre de Moraes, o STF, Davi Alcolumbre, ao presidente Lula e ao PT. Além disso, também publica mensagens de apoio ao ministro André Mendonça, sinalizando um importante perfil na estratégia nacional da direita bolsonarista”, aponta o relatório.

Entre os dez candidatos ao Senado com mais interações no Sudeste nesse período analisado, aparecem também Marco Antônio Superman (Novo), em oitavo lugar, com 92 publicações e 684.758 interações, e Marcelo Aro (PP), em nono, com 29 publicações e 308.490 interações. Enquanto Superman teve como principal tema as críticas ao STF, Aro concentrou suas publicações em conteúdos relacionados a crianças atípicas.

Lucas Isidio, cientista político e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC), explica que a concentração do engajamento em poucos perfis está relacionada não apenas aos temas abordados, mas também ao formato dos conteúdos.

“Carlos Viana tem um modelo muito fácil de ser reproduzido, por exemplo, tem gravações rápidas com a câmera frontal do celular que o próprio candidato faz para os temas mais urgentes; utiliza muitos cortes de programas jornalísticos que concordam com o seu posicionamento, numa busca por validação da imprensa para os seus discursos; utiliza das imagens no Senado ou congresso dos momentos onde discursa e que podem render bons cortes; fora todos os prints e reações a outros conteúdos”, observa.

“Essa máquina de produção de conteúdo é perfeita para o algoritmo”, explica. “Estatisticamente falando, quanto maior a amostra de um grupo de testes, mais precisa é a distribuição da curva e, por consequência, menor o erro da inferência. Em outras palavras, com a quantidade de posts que ele publica, o algoritmo tem maior precisão para saber o que viraliza ou não”, complementa o cientista político.

Ele deixa algumas ressalvas: a primeira é que qualquer análise sobre o funcionamento do algoritmo carece de comprovação pela falta de acesso aos parâmetros da Meta, a dona do Instagram.

“Em segundo, desconto dessa análise também a regra instituída pelo TSE sobre a distribuição orgânica dos conteúdos, o que me levanta o questionamento sobre a veracidade do engajamento. Afinal, mapear perfis de bots está cada vez mais difícil”, prossegue.

Cleitinho, Patrus e Roscoe lideram interações

Com a mesma metodologia e no mesmo período utilizados para o Senado, o Instituto Democracia em Xeque analisou dez candidaturas ao Governo de Minas. Ao todo, foram 542 publicações, que geraram 1.740.855 interações, entre comentários, curtidas e republicações. Uma candidatura ficou de fora devido ao critério de relevância adotado pelo DX, que exclui perfis com menos de 1% das interações.

Cleitinho Azevedo (Republicanos) é o terceiro candidato com mais interações entre os quatro estados do Sudeste. Foram 17 publicações, que somaram 888.085 interações, tendo como principal tema as críticas e os ataques a instituições, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Senado.

cleitinho Ton MolinaAgencia Senado72
Líder nas pesquisas de intenção de voto ao Governo de Minas Gerais, Cleitinho foi o candidato com o maior número de interações no Instagram no período analisado (Foto: Ton Molina / Agência Senado)

Patrus Ananias (PT) aparece em quinto lugar na região, com 117 publicações e 295.485 interações. O principal tema de suas postagens foi a própria campanha. Segundo o levantamento, a estratégia de publicações em collab, principalmente com o perfil do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contribuiu para ampliar o volume de interações do candidato.

Já Flávio Roscoe (PL) ocupa a posição seguinte no Sudeste, com 54 publicações e 232.627 interações. Seu principal tema foi a nacionalização do debate.

Ao analisar os perfis dos candidatos ao Governo, Lucas Isidio destaca uma diferença em relação à disputa pelo Senado. Embora os temas sejam semelhantes, Cleitinho é o que menos publica entre os três candidatos citados, mas concentra o maior número de interações.

“Apresentar proposta custa caro em termos de conteúdo, exige explicação, contexto, um vídeo mais longo, e isso rende menos por publicação. Já a construção de imagem e o discurso anti-sistema cabem num corte de quinze segundos e performam muito melhor”, justifica. “Então, mesmo que a escolha inicial venha da trajetória do candidato, a plataforma acaba premiando um dos dois caminhos, o que ajuda a explicar por que a campanha que menos publica é a que mais engaja”, sinaliza.

O pesquisador ressalta que a escolha entre apresentar propostas e investir na construção da imagem não é exclusiva de um campo político.

“Nos dois lados do espectro existem candidatos fazendo as duas coisas. O que parece explicar melhor essa escolha é o tipo de capital que cada candidatura já tem na mão”, afirma.

No caso de Cleitinho, segundo Isidio, o candidato “carrega consigo o discurso anti-sistema na esfera nacional de forma tangencial, ou seja, não torna esse discurso a sua principal pauta. O que ele apresenta não chega a ser um programa com propostas estruturadas, é mais uma narrativa contra o ‘sistema’ de Minas Gerais”.

Engajamento não é voto

À Tribuna de Minas, o pesquisador explica que a relação entre o desempenho no Instagram e a força eleitoral “existe, mas é bem mais frouxa do que parece à primeira vista”. “Cleitinho publicou 4% de tudo que saiu na disputa pelo governo e ficou com quase metade do engajamento do estado (nesse período analisado). Se interação fosse voto, a eleição já estaria decidida em Minas, e não é o que as pesquisas mostram”, exemplifica.

“O que o engajamento mede bem é intensidade, não amplitude. Ele mostra quem consegue mobilizar uma base já convencida, quem transforma notícia em conteúdo com mais velocidade e qual narrativa está organizando a conversa naquele momento. O que ele não mede é alcance sobre o eleitorado indeciso, que costuma ser exatamente a parcela que decide a eleição”, frisa.

Isidio também ressalta as limitações do levantamento, que considera apenas os perfis monitorados em uma única plataforma e durante um período específico.

“O usuário do Instagram não é uma amostra representativa do eleitorado mineiro, nem por idade, nem por região, nem por acesso à internet. E o algoritmo entrega conteúdo preferencialmente para quem já concorda, então um número alto de interações pode significar uma bolha muito profunda e não um público muito amplo”, pondera.

Outro ponto destacado pelo pesquisador é a “geografia do público”. Com a nacionalização das pautas, os seguidores de um candidato podem estar espalhados por diferentes estados. Assim, parte das interações pode vir de pessoas que sequer votam em Minas Gerais.

“Por último, a interação em si é um dado cego quanto ao sentido”, crava. “Um comentário de apoio e um comentário de ataque contam igual, e boa parte do engajamento dos perfis mais inflamados vem justamente do conflito. Some a isso a dificuldade crescente de identificar comportamento inautêntico, como pontuado, e fica claro por que esses números servem para entender estratégia de comunicação, não para prever resultado de urna”, finaliza Lucas.