Como Juiz de Fora votou: cidade mantém perfil progressista, mas direita avança
Juiz de Fora mantém perfil mais progressista, mas eleição de 2026 mostra redução da vantagem de Lula e crescimento da direita

Mais de 150 mil juiz-foranos escolheram a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições 2026, que aconteceu neste domingo (4). A cidade vai na contramão do estado e do país, que tiveram Flávio Bolsonaro (PL) na liderança, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
No primeiro turno das eleições em 2022, quando Lula disputava com Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar, Juiz de Fora também esteve com o petista. Mas, Lula perdeu votos na cidade nos últimos quatro anos.
À época, Lula recebeu 167.048 votos em Juiz de Fora, o equivalente a 52,6% dos votos válidos, contra 121.945 votos (38,4%) de Bolsonaro. Em 2026, na comparação com aquele desempenho, o candidato perdeu cerca de 15.496 votos no município e terminou com 49,58% dos votos válidos.
O número é relativamente pequeno, mas simbólico, conforme observa o doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), Raul Magalhães. “Lula sempre se saía muito melhor do que se saiu dessa vez. É simbólico, nesse sentido, de que nem mesmo um baluarte como Juiz de Fora permaneceu sem que o Lula tivesse perda de votos, mas não foi uma perda de votos significativa em número”, explica, sobre a larga margem que o candidato já teve na cidade e que não se repetiu com tanta folga.
Já Flávio, além de herdar o eleitorado do pai, conseguiu um desempenho levemente melhor. Foram 126.964 votos em Juiz de Fora, o que equivale a (41,53%). Cerca de 5 mil votos a mais que Jair Bolsonaro em 2022. Para o cientista político Luiz Ademir, professor do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o resultado pode ser resumido em cerca de 15 mil votos a menos para Lula e 5 mil a mais para o candidato da direita. “Uma diferença de 20 mil votos que impactou no percentual”, observa.
Ele adianta, no entanto, que Juiz de Fora se mantém como uma cidade de perfil progressista com a vitória de Lula, “só que com um percentual bem menor e uma diferença bem menor que em 2022”. Um aspecto que não há como descartar, neste cenário, é a tendência de um crescimento da onda conservadora também em Juiz de Fora, acompanhando uma realidade testemunhada em todo o país.
Grande parte do eleitorado de Minas Gerais, por exemplo, apoiou Flávio Bolsonaro. Foram 588.612 mil votos a mais que Lula, deixando o candidato com 48,24% dos votos validos, contra 43,33% do atual presidente.
Uma regularidade observada em Juiz de Fora, Minas Gerais e no país foi o terceiro lugar de Augusto Cury (Avante). O escritor, que estreou na política já como candidato à Presidência da República, tinha como vice Júlio Delgado (Avante), figura conhecida entre os juiz-foranos tanto por sua trajetória política quanto por ser filho de Tarcísio Delgado, ex-prefeito da cidade.
O desempenho de Cury foi semelhante nas três escalas. Em Juiz de Fora, recebeu 10.517 votos, o equivalente a 3,44% do total. Em Minas Gerais, somou 409.737 votos (3,42%), enquanto, no país, alcançou 3.448.569 votos (2,89%), mantendo a terceira colocação nos três recortes.
Juiz de Fora reduz vantagem de Cleitinho e dá liderança a petista no Senado
A disputa pelo Governo do Estado, a partir dos eleitores de Juiz de Fora, não foi de folga para Cleitinho (Republicanos), que venceu em primeiro turno. Embora o candidato tenha levado 118.858 dos votos válidos (42,11%) na cidade, Patrus Ananias (PT) levou 109.912 eleitores às urnas e conquistou 38,94% dos votos.
O resultado em Juiz de Fora, no entanto, destoou do cenário estadual quanto à vantagem obtida pelo candidato. Em Minas Gerais, Cleitinho abriu mais de 3 milhões de votos sobre Ananias. O então senador recebeu 6,3 milhões de votos no estado, o equivalente a 55% dos válidos, enquanto o petista somou cerca de 3 milhões, ou 26%.
Em 2022, Romeu Zema (Novo) também venceu em primeiro turno em Minas. Com 6.094.136 votos, 56,18% da votação válida, ficando a frente de Alexandre Kalil (PSD) que teve 3.805.182 eleitores (35,08% dos votos válidos).
Embora ambos os candidatos ao governo, em 2022 e em 2026, tenham vencido no primeiro turno, o apoio de Zema em Juiz de Fora era maior do que o encontrado por Cleitinho na cidade. Foram 155.127 eleitores, o que corresponde a 55,27% dos votos válidos.
Para Luiz Ademir, isso revela que o alinhamento da cidade em relação ao Governo do Estado teve um viés mais progressista do que há quatro anos. A inclinação de centro-esquerda na cidade pôde ser vista também na escolha dos senadores. Em Juiz de Fora, a candidata Marília Campos (PT) teve 123.616 votos, o que equivale a 24,30% dos votos válidos, contra 111.219 de Domingos Sávio (PL), que ficou com 21,86%.
A candidata petista foi a mais votada da cidade, mas, no total estadual, ainda que ambos tenham sido eleitos, quem levou a melhor foi o candidato do PL, com quase cinco milhões de votos (24,21%), contra 19,44% de Marília, que teve 3,9 milhões de votos.
A diferença entre o comportamento eleitoral de Juiz de Fora e o conjunto do estado ajuda a explicar por que Minas Gerais é considerado estratégico nas eleições nacionais. Segundo Luiz Ademir, o estado funciona como “um retrato do Brasil” justamente por reunir regiões com perfis políticos distintos.
Enquanto o Norte de Minas e o Alto Jequitinhonha apresentam maior proximidade com o Nordeste, onde Lula tem desempenho mais favorável, áreas como o Triângulo Mineiro e o Sul de Minas tendem a ter um eleitorado mais conservador e alinhado ao bolsonarismo. Já a Zona da Mata apresenta uma votação mais equilibrada, com vantagem para Lula em cidades como Juiz de Fora, enquanto Flávio Bolsonaro obteve melhor desempenho em Belo Horizonte e na Região Metropolitana.
É nesse contraste que Juiz de Fora ganha peso simbólico para o segundo turno. A leitura de Luiz Ademir converge com a de Raul Magalhães: mais do que a vantagem de Lula na cidade, importa observar se o petista conseguirá recuperar parte do terreno perdido em relação a 2022. “Tem uma expectativa de que aqui Lula possa ter um desempenho melhor do que teve no primeiro turno. Se não acontecer, mais uma vez a gente tem uma marca que destoaria de um certo padrão histórico”, avalia Raul. Para Ademir, o desafio é ainda maior no plano nacional, já que, nas eleições pós-redemocratização, nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu virar a disputa no segundo.









