Entrevista/Custódio Mattos, prefeito de Juiz de Fora
Perto de entrar no último ano de sua gestão, o prefeito Custódio Mattos (PSDB) já não esconde o propósito de buscar um novo mandato. "Vou me submeter ao julgamento do povo." Para isso, aposta em sua trajetória de homem público para contornar eventuais vozes dissonantes no ninho tucano. "Não comecei ontem. As pessoas não têm confiança em mim por um convívio de seis meses." Fora do PSDB, vê alguns dos seus prováveis adversários com ansiedade injustificada e prega cautela. "Há pessoas que demoram aprender com as lições da vida." E assim, sem mencionar nomes, mas falando diretamente a muitos dos atores da eleições de 2012, que o prefeito conversou com a Tribuna, na semana de Natal, em seu gabinete na Prefeitura. Para Custódio, as obras viárias prometidas em campanha sairão do papel ainda no curso do seu mandato. "São obras que podem ser executadas com rapidez, desde que haja recurso." A licitação do transporte público coletivo também será realizada. Do que foi feito até agora, ele chama atenção para a retomada da economia local, com investimentos industriais e geração de empregos.
Eleições 2012
Tribuna- Seus possíveis adversários nas eleições de 2012 começam a ensaiar algumas críticas. Isso era esperado?
Custódio Mattos – Se você vir a história da última eleição e vir agora essas declarações é possível perceber que há pessoas que demoram aprender com as lições da vida. Precipitação e falta de consistência nos argumentos têm um preço. Eu li, registrei, e o tempo vai dizer quem está com a verdade e quem está com a mentira.
-Em que pé está sua candidatura à reeleição no debate interno do PSDB?
– É um processo muito natural para uma pessoa que é prefeito pela segunda vez, foi deputado federal três vezes, deputado estadual uma vez, secretário de estado, fundador do partido. Não comecei ontem. As pessoas não têm confiança em mim por um convívio de seis meses. Os líderes maiores do partido convivem comigo há 20 anos. Alguns são pessoas com quem tenho intimidade. Acho que isso não se coloca. Nunca faria nada para atrapalhar projetos tão importantes como o do senador Aécio Neves e o do governador Antonio Anastasia. Eles têm absoluta confiança nisso, nos meus critérios e na minha avaliação.
– Melhorou a relação com Marcus Pestana?
– Não houve mudança em relação ao ano passado. Respeito muito a inteligência, capacidade política e o espírito público do deputado Marcus Pestana. Não tenho dificuldades de me articular com ele em um projeto político.
Investimento e economia
– No próximo ano, por ser período eleitoral e haver limitações legais, sobrará pouco tempo para promover ações e realizar obras. Qual a avaliação do sr. sobre o que foi feito até agora?
– Do ponto de vista administrativo e econômico dentro do programa apresentado à população, minha avaliação é de que, nem no melhor dos meus sonhos, poderia imaginar os resultados conquistados e aqueles que ainda virão. A cidade vinha de duas crises sobrepostas. Uma estagnação econômica que nos fazia crescer menos que o estado e menos até que a Zona da Mata. As pessoas falavam que Juiz de Fora era uma cidade boa para se viver, mas que não tinha emprego e não circulava dinheiro. Isso há dois anos. Hoje, Juiz de Fora é um dos pólos econômicos mais dinâmicos do país. Temos R$ 1,5 bilhão de investimentos e, o mais importante, mais de dez mil empregos para uma cidade que, nos últimos oito anos, não recebia um empreendimento industrial. Eu me via com essa missão praticamente impossível, que era introduzir Juiz de Fora no polo dinâmico da economia brasileira. Isso vai garantir sustentabilidade. Isso estava claro no meu programa (de governo) e, portanto, era o resultado pelo qual mais me empenharia. Graça a Deus e ao empenho de muita gente, ao apoio do Governo do estado e de lideranças locais, os resultados são muito bons.
– O sr. falou da crise econômica. Qual outra crise se sobrepôs a essa?
– Houve outra crise gravíssima, a mais grave da história do município, que foi os eventos envolvendo o ex-prefeito (Alberto Bejani-PSL). Ele foi forçado a renunciar com todas as consequências negativas que isso acarretou. Isso com o escalavro que estava toda a situação da Prefeitura. Aquilo foi apenas um sintoma. Tínhamos um débito de curto prazo de R$ 80 milhões e a folha de dezembro para pagar. Só consegui ajustar a situação interna entre agosto e setembro, quando acertamos as contas com o INSS e o FGTS. A Prefeitura é pobre, sem dinheiro, e não podia pegar recursos a fundo perdido ou fazer empréstimo. Ao mesmo tempo que fazíamos uma economia de guerra para gerar poupança, pagar as dívidas e recuperar o crédito, fazíamos projetos. Fizemos um estoque de projetos para que, ao longo de 2011, as coisas pudessem acontecer.
– Este ano foi um divisor de águas?
– O ano de 2011 será marcante para a história de Juiz de Fora. Foi um ano mágico. Os resultados da reestruturação econômica apareceram. Hoje a cidade tem pleno emprego. Temos um programa de obras que, contando apenas com o que está garantido, vamos chegar, ao final de 2012, com investimentos de quase R$ 500 milhões. Isso dividido por quatro anos dá R$125 milhões por ano. A média de investimentos da Prefeitura nos dez anos anteriores à minha administração era de R$ 20 milhões, com valores corrigidos. De R$ 20 milhões, nós saltamos para R$ 125 milhões.
Obras
– Em relação a obras, qual a perspectiva quanto aos mergulhões e viaduto para melhorar o sistema viário?
– Posso dizer que eu mantenho o meu compromisso e intenção. Nossa avaliação é de que faremos as obras no curso do meu mandato. Sempre tive plano A e plano B em relação a isso, e A ou B, as obras serão realizadas. São obras que podem ser executadas com rapidez, desde que haja recurso, e creio que, em poucas semanas, teremos planejamento específico quanto a isso.
– As obras na Avenida Rio Branco eram necessárias?
– O centro viário da cidade é péssimo devido ao subinvestimento. Anos e anos de uma Prefeitura sem recursos e, às vezes, usando com pouca eficiência o que tinha, levou a uma infraestrutura viária totalmente defasada, obsoleta, precária, que se agrava com o crescimento da frota de veículos.
– Concluída a Rio Branco, as intervenções na Avenida Getúlio Vargas vão começar?
– Não necessariamente terminar a Rio Branco para começar a Getúlio, mas a fonte de financiamento que me permite fazer as duas obras é a mesma. Então, estou menos restrito à questão física, de terminar uma para começar a outra, mas à questão do ritmo do financiamento. Mas a sequência de prioridade é Rio Branco e Getúlio Vargas. Vamos fazer um canteiro central e alargar os passeios.
– A Prefeitura também pleiteou a conclusão do primeiro trecho da BR-440. Será possível a via chegar à BR-040?
– Não creio que o Dnit vá contrariar a orientação do Tribunal de Contas, que é fazer o restante do primeiro trecho e o segundo mediante nova licitação. Ponderei quanto à possibilidade de fazer, na primeira licitação, o restante, porque o que falta é muito pouco – 400 metros de uma obra de 5,6 km – e faltam as coisas essenciais, que é a ligação de um lado a outro do bairro. Não há nenhuma irregularidade quanto à execução, qualidade ou preço da obra, todas as razões do Tribunal se referem à licitação, que é muito antiga, mas os preços estão compatíveis com valores atuais do Dnit, a qualidade técnica da obra é muito boa. Essa obra vai ficar retardada agora dois anos, se tudo der certo.
Transporte
– A Prefeitura vai realizar nova licitação do transporte público coletivo ?
– Infelizmente, por fatores absolutamente inexplicáveis, o TCE não liberou (o edital), embora tenha havido parecer claro do Ministério Público, que claramente não vê nenhuma irregularidade na licitação. O Tribunal, numa segunda decisão isolada de um conselheiro, bloqueou aquela licitação. Não há mais tempo hábil nessa gestão de fazer o trabalho. Fomos impedidos de fazer o diagnóstico e uma proposta de modernização e reformulação abrangente do nosso sistema de transporte coletivo. Infelizmente, fiquei numa situação sem saída. Não posso contratar o licitante vencedor e estou impedido de contratar outro licitante. Tomei a decisão, que já foi comunicada à Settra, para a própria secretaria, com o apoio de consultoria, apresentar um projeto de reformulação do sistema atual. Vamos licitar em função desse projeto, que está longe de ser o ideal, mas é o possível nesse momento.
– Qual a avaliação do sr. a respeito do sistema de transporte público coletivo?
– Nessa, como em outras questões afetas a avaliações que as pessoas de Juiz de Fora fazem sobre a nossa própria cidade, falta um pouco de critério. O sistema de transporte coletivo deve ser avaliado em função de duas variáveis: preço e qualidade. Nosso sistema passa pelo critério do preço para garantir que pessoas de baixa renda possam andar de ônibus. Quanto à qualidade, nossos ônibus são novos, porque existe, inclusive, restrição legal, são limpos, até pela educação da nossa população. Há dois tipos de críticas: pontualidade e lotação. E aí que vem a questão do conflito preço e qualidade. O ônibus, na hora do pico, em qualquer lugar do mundo, anda lotado. Para o cidadão, o ideal é que o ônibus passe em frente a sua casa, que tenha ônibus de dez em dez minutos e que ele ande sentado todos os dias. Isso não é possível em lugar nenhum porque fica caríssimo, o que só permitiria que pessoas ricas andassem de ônibus.
Educação
– Em uma entrevista recente o sr. revelou que a educação básica está abaixo da média do estado. O que está sendo feito?
– A criança que não é alfabetizada no tempo certo entra em desvantagem, quase derrotada a priori, em toda a evolução da educação. Estamos investindo pesadamente em educação infantil, no aumento do número de vagas e da rede de educação infantil. Contratamos desde o primeiro mês da administração uma das melhores especialistas brasileiras como consultora na área de educação. Ela está treinando professores, desenvolvendo métodos e fazendo alfabetização com crianças julgadas problemáticas. Já tivemos uma melhoria bastante significativa no teste Proalfa, que avalia a alfabetização aos oito anos. Fizemos uma experiência bem sucedida com aquisição de equipamentos de informática. O resto é batalha do dia a dia.
– Como o sr. pretende resolver o impasse da atividade extraclasse para os docentes?
– Isso foi uma bomba que caiu no nosso colo este ano. No Brasil inteiro, isso é um problema, mas para nós, é nitroglicerina concentrada, porque a jornada aqui é completamente diferente da dos outros municípios. Nossa jornada é de 20 horas, com 15 em sala de aula (5 extraclasse). Diminuir ainda mais essa jornada é extremamente contraproducente do ponto de vista pedagógico, porque, da primeira à quarta série, a criança tem que ter um professor de referência. O que eu faço? Fiz um expediente ao MEC, me reuni com as autoridades do MEC, expus a situação e solicitei complementação (prevista em lei). Isso tem uns cinco meses. O MEC ainda não respondeu. Vamos esperar que o tempo nos dê uma saída para esse problema.








