Ventos em outubro


Por Tribuna

30/09/2018 às 07h00

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As eleições em 2018 têm origem e raízes profundas. Hoje há fraturas no eleitorado, mas é inútil tentar explicá-las segundo “extremos” políticos do presente. Podemos rastreá-las na cena pública, constituindo um marco temporal, até 2013, nas jornadas de junho e seus combates: por um lado, as variadas defesas de políticas públicas inclusivas; por outro, a estruturação de grupos resistentes ao corpo político constituído e em aberta rejeição à política e aos seus instrumentos de organização, como os partidos. Dali se fortaleceu, entre vários atos, uma oposição conservadora ao PT enquanto grupos à direita intencionavam a ruptura com a agenda reformista de cunho social. A vitória de Dilma em 2014 abriu a contestação ao resultado eleitoral, inédita no ciclo democrático pós-88, em ação combinada com as forças mais conservadoras, a crescente judicialização da política, os erros na agenda econômica, a construção de uma imagem deletéria na mídia, a corrupção como agenda e uma furibunda oposição no legislativo, conduzindo ao impeachment. O novo governo, com uma agenda oposta à lógica do lulismo, amealhou apoio decisivo no empresariado, na mídia e no Congresso, sendo atropelado em seguida por denúncias de corrupção, o esvaziamento das forças políticas, a desmoralização do grupo hegemônico (MDB e PSDB à frente) e seu próprio fracasso econômico.

Diante do desmonte de qualquer pacto, desconstruiu-se a política e, em seu lugar, sobreveio o vazio. Dele brota a negação, a escolha pela fórmula fácil ou pela lógica do autoritarismo, fortalecendo a possibilidade da saída pelo personagem outsider, o voluntarista pragmático. Militares retornaram à cena política, a violência surgiu no debate e na prática, o desapreço pela diferença se exacerbou e a própria História tornou-se vítima do revisionismo. Seu extremo programático é Bolsonaro. Não há outro extremo político, pois daí a disputa se desloca para os campos da centro-direita (com Alckmin) e da centro-esquerda em torno de Ciro e Haddad; há nítidas tendências centristas, algumas com tons de vermelho. Enquanto o extremo opera no esvaziamento da política e no voluntarismo, com seu discurso em choque com o pacto que construiu a Constituição de 1988, a centro-esquerda retorna a bandeira da lógica inclusiva, desenvolvimentista e universalista.

Uma eleição é percebida como um momento de “refundação” simbólica definida pelo voto, o momento da escolha sobre quem governará e comandará o aparelho de Estado. Um momento vinculante para todos, onde se exige a aceitação das regras do jogo, com validade para governantes e governados, eleitos e eleitores, vencedores e perdedores, na constituição do pacto político que sustenta a República. Refundar-se por outro pacto político consequente é uma tarefa da democracia. Descobriremos, em fins de outubro, se estamos diante de uma florada de primavera com vento leve ou sob uma tempestade intimidadora. O mundo não termina, mas pode estar mais danificado e ameaçador.