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Filiação apresenta tendência de alta


Por RENATO SALLES

28/02/2016 às 07h00

Temos que pensar também no calendário eleitoral. Estamos vivenciando em  Juiz de Fora eleições que prometem ser muito disputadas  Fernando Perlatto, professor da UFJF (Fernando Priamo/25-02-16)

Temos que pensar também no calendário eleitoral. Estamos vivenciando em Juiz de Fora eleições que prometem ser muito disputadas Fernando Perlatto, professor da UFJF (Fernando Priamo/25-02-16)

Considero esse número bom para um país que não tem tradição de maior participação política Maria do Socorro, professora da UFSCAR (Arquivo Pessoal)

Considero esse número bom para um país que não tem tradição de maior participação política Maria do Socorro, professora da UFSCAR (Arquivo Pessoal)

Um em cada dez eleitores juiz-foranos é filiado a um partido político. A assertiva, assim, fora de contexto, é chamativa. Ainda mais em um momento em que a classe política e os partidos são alvo de grandes questionamentos e desconfiança por parte da sociedade, fator evidenciado por pesquisa feita pelo Ibope, no ano passado, quando apontou que dois em cada três brasileiros não têm simpatia por qualquer agremiação partidária. Trata-se do maior índice da série histórica realizada desde 1988. A despeito do recorte de descrédito popular, os números constantes no repositório do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) remontam um cenário distinto. Desde 2002, a soma de todos os registros em situação regular nas legendas juiz-foranas atingiu o maior índice em dezembro do ano passado. Dos 390.170 eleitores da cidade, 9,7% (38.029 votantes) mantêm vínculo com algumas das 35 legendas registradas no país.

Mas nem sempre a frieza dos números é suficiente para retratar a realidade. A frase “um em cada dez eleitores é filiado” pode ser utilizada também nos âmbitos estadual e federal. De 2002 para cá, basicamente essa foi a via de regra em Juiz de Fora, Minas Gerais e Brasil. Em todas as esferas, tal percentual sempre variou entre 9% e 11%. Apesar da, digamos, acomodação histórica na casa dos 10%, as estatísticas apontam uma ligeira tendência de crescimento nos últimos anos, o que é visto de forma distinta por especialistas da ciência política nacional.

Professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Bruno Wilhelm Speck considera que a taxa de filiação em torno de 10% da população apta a votar apresenta uma tendência crescente, contudo, em ritmo moderado. “Esta taxa é relativamente alta se comparada com dados sobre a filiação partidária em países da Europa ocidental, onde a filiação partidária é uma marca dos partidos de massa e onde há pesquisas indicando a tendência ao declínio do número de filiados”, pondera em artigo encaminhado à reportagem.

Doutora em ciência política, a professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) Maria do Socorro Sousa Braga reforça a teoria de que o número de filiados a partidos políticos no Brasil tem traçado uma trajetória ascendente. Segundo a docente, a curva é contrária à observada em países europeus. “Considero esse número bom para um país que não tem historicamente tradição de maior participação política. Revela que vem se configurando no país maiores vínculos entre eleitores e partidos”, avalia, considerando que o crescimento é reforçado pela estruturação das legendas a partir dos processos eleitorais, fortalecidos com a redemocratização na segunda metade da década de 1980.

Outro olhar

O percentual recorde de filiados em relação ao eleitorado em Juiz de Fora (9,7%) e no Brasil (10,8%) é visto com certa surpresa pelo cientista político e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fernando Perlatto. Em uma breve análise sobre o tema, o especialista olha além dos números macros e lembra levantamento feito pelo jornal “O Estado de São Paulo”, que apontou que 2015 foi o ano que antecede um pleito municipal, período em que sempre ocorre picos de filiação, com o menor número de adesão – crescimento de 522.374 filiados em relação a 2014 – nos últimos 20 anos, ano em que passou a valer a exigência de filiação a um ano do pleito para aqueles que pretendem se filiar.

Por outro lado, vale lembrar que a minirreforma eleitoral, aprovada no ano passado, mudou a obrigatoriedade de filiação para os interessados em se candidatar para seis meses antes do pleito, e não mais um ano como ocorreu até as eleições de 2014. Nova regra à parte, Perlatto ressalta que a retração no número de filiações no período que antecede as disputas municipais pode ser motivada pela desconfiança acerca dos partidos tradicionais. Para isso, cita fenômenos e novas correntes partidárias observadas na Europa como o “Podemos” e o “Cidadãos”, na Grécia, e o “Syriza”, na Espanha.

“No Brasil, não tivemos nenhum movimento da mesma magnitude, mas as manifestações de junho de 2013 estiveram, em grande medida, vinculadas a uma crítica forte das instituições políticas e do sistema representativo, de maneira geral. Mesmo as manifestações de março de 2015, contra o Governo Dilma, tiveram, assim como março de 2013, uma agenda ‘antipartidos’ forte”, considera o cientista político da UFJF.

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‘Estoque’ é formado por novos candidatos

Por outro lado, o cientista político ligado à Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Urizzi Cervi, tem ponto de vista distinto. O especialista vê inconsistências em possíveis comparações com a realidade de outros países. Para justificar seu ponto de vista, destaca que é preciso analisar com cuidado os dados disponibilizados pelo TSE, antes de considerar que a curva de crescimento apontada pela análise estatística dos números, de fato, aponta para uma maior politização do eleitorado brasileiro.

“Na prática, as pessoas se filiam a um partido porque querem ser candidatos. Temos quase 500 mil candidatos a vereador a cada quatro anos. São 15 mil candidatos a prefeito e outros 15 mil a vice-prefeito. A cada ciclo de quatro anos, meio milhão de pessoas se apresentam como candidatas a eleições no Brasil. A imensa maioria delas não se elege, não participa da vida partidária e, também, não se desfilia. Então, é possível que uma parte desse “estoque” seja em função da obrigatoriedade de filiação partidária para se candidatar e não por interesse na vida partidária”, avalia Cervi.

O especialista considera ainda que a recente retomada do processo de formação de novos partidos possa funcionar como um ciclo fomentador, que ajude a manter o número de filiados sempre na casa dos 10%. “Começando com PSOL, em 2005, e chegando à Rede, em 2015, esses novos partidos geram maior interesse inicial e número de filiados. O que se estabiliza no momento seguinte.”