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A bancada do PT vai ter que ser melhor


Por Tribuna

27/12/2014 às 07h00- Atualizada 30/12/2014 às 14h45

Diferente de outras campanhas, quando todo mundo se dizia de centro-esquerda, agora a direita botou a cabeça para fora

Diferente de outras campanhas, quando todo mundo se dizia de centro-esquerda, agora a direita botou a cabeça para fora

Entrevista/Margarida Salomão, deputada federal reeleita pelo PT

Candidata a deputado federal com o melhor desempenho nas urnas de Juiz de Fora nas duas últimas eleições, Margarida Salomão (PT) se prepara para cumprir uma legislatura de quatro anos na Câmara dos Deputados. Para assumir a responsabilidade, traz na bagagem uma experiência parlamentar de dois anos, após ter ficado como suplente em 2010, herdando a cadeira de Gilmar Machado (PT), eleito prefeito de Uberlândia em 2012. Agora, detentora de mandato, a petista concedeu uma entrevista exclusiva à Tribuna na qual afirma que pretende ser uma espécie de interlocutora entre Juiz de Fora e o governador eleito de Minas Gerais Fernando Pimentel, além de deixar em aberto a possibilidade de disputar pela terceira vez a Prefeitura de Juiz de Fora daqui a dois anos.

A parlamentar fez ainda uma análise de seus primeiros dois anos no Congresso e tratou as discussões da reforma política como pauta relevante para sua atuação na legislatura 2015-2018. Sobre o futuro Governo do estado, Margarida admitiu que existiram conversas acerca de seu nome para compor o secretariado de Pimentel. A possibilidade, entretanto, foi rechaçada pela deputada que manifestou seu compromisso com o mandato conquistado nas urnas. Sobre o segundo mandato da presidente reeleita Dilma Rousseff (PT), a partir do ano que vem, a ex-reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) por duas gestões prevê uma relação pouco amistosa entre a base governista e a oposição, enfrentamento originado do acirramento que marcou as eleições deste ano.

Tribuna – Contrariando expectativas, a senhora e o prefeito de Juiz de Fora (Bruno Siqueira, PMDB), que foram rivais nas últimas eleições, têm mantido uma relação amistosa em prol da capitação de recursos para a cidade. A dois anos das eleições municipais, essa ‘parceria’ pode ser ameaçada?

Margarida Salomão – Quando fui para Brasília já era a deputada majoritária por Juiz de Fora e continuo sendo. Então, meu compromisso com a cidade passa por um diálogo construtivo e republicano com o prefeito Bruno Siqueira. Esse diálogo não implica na formação de uma aliança política. Eventualmente, até fomos aliados agora nas disputas estadual e nacional, pois o PMDB estava alinhado com o PT. Do ponto de vista eleitoral, fomos vitoriosos. Em Juiz de Fora, fizemos barba, cabelo e bigode, pois até na disputa para senador o Josué de Alencar (PMDB) ganhou do Anastasia (Antonio Anastasia, ex-governador, que acabou eleito para o Senado). Tenho levado demandas do Governo municipal para o Governo federal, e (estou) à disposição para fazer o mesmo papel agora com o Governo estadual. Isso é uma tarefa minha como parlamentar. Represento a cidade e sou à favor dela. Não quer dizer, de nenhuma forma, que tenhamos desmanchado as nossas diferenças de opinião e de posição política que nós, certamente, como liderança, temos o dever de expressar.

– A partir do ano que vem, o PT terá em mãos as máquinas administrativas do estado e da União. Pela primeira vez, veremos essa perspectiva em Juiz de Fora. Qual papel o partido deve traçar nas eleições municipais de 2016?

– Sem dúvida nenhuma, o PT é relevante no processo eleitoral de Juiz de Fora. Não só por esse alinhamento partidário com os governos federal e estadual, mas pelo desempenho que tivemos nas eleições recentes. Dos grandes partidos de Juiz de Fora, foi o único a chegar nos dois últimos segundos turnos mostrando-se como um partido competitivo e um player importante. Então, certamente, vamos avaliar no tempo certo a maneira como iremos participar desse processo.

– A senhora voltaria a ser candidata à Prefeitura?

– Com muita honra, acabo de ser eleita deputada. Tenho um compromisso muito grande com esse mandato. Mas, em política, a realidade é dinâmica. Então, não há nada que eu possa dizer nesse momento. Meu compromisso é com o cumprimento do mandato da maneira mais qualificada que puder, com a defesa de teses de grande impacto para o futuro do país e com o desenvolvimento da região. Como o PT vai se posicionar nesse processo ou que nome o PT terá, ainda é cedo para dizer.

– Algumas especulações sobre seu nome para compor o secretariado de Pimentel foram feitas. Existiu, de fato, alguma sondagem?

– Houve esse movimento, mas entendo que não há propósito. Acabei de ser eleita deputada e acho que represento melhor a região no Congresso. Além do mais, ter deputados no Governo não é necessariamente bom. Tivemos parlamentares nos governos estaduais nos últimos anos, e nossa região enfrenta problemas gravíssimos nas áreas de desenvolvimento, saúde e mobilidade urbana, como a estrada que vem sendo feita há oito anos para ligar o aeroporto à BR-040. Penso que o que podemos esperar do governador – e é o que nós cobraremos – é que faça uma política territorializada. Se olharmos o aporte de investimentos em Minas nos últimos quatro anos, a maioria foi para o Sul de Minas ou para a Região Metropolitana. Nesse momento que estamos virando a página, estamos confiante de que o Pimentel olhará para a Zona da Mata, que está ameaçada pela Lei Rosinha, por exemplo, que é um terror para nossa região.

– A senhora pretende atuar como uma interlocutora entre a região e o futuro Governo estadual?

– Essa é uma tarefa prioritária, dada a ótima relação que tenho com o governador e sua equipe, além da minha própria militância, que tem sido regionalizada. Sempre disse que se Juiz de Fora não se entender com a região será péssimo para a Zona da Mata e para a cidade. Estamos conversando com a nova bancada mineira eleita, para construirmos a região metropolitana de Juiz de Fora. Isso é fundamental para que possamos afinar a integração das políticas nas áreas de saúde, educação e transporte. A Fiemg da Zona da Mata tomou a iniciativa de contratar um plano de desenvolvimento regional que será entregue nas mãos do governador. Este material engloba uma série de projetos estruturantes e oferece uma perspectiva de desenvolvimento sustentável pelas próximas três décadas.

– Quais dificuldades e superações podemos esperar do segundo mandato da presidente Dilma?

– Vivemos um momento em que a disputa eleitoral acirrada se mantém no plano político, com uma retórica dura que, em algumas situações, transborda para o inaceitável, como recentemente aconteceu com o deputado Jair Bolsonoaro (PP). Ele não ofendeu só a deputada Maria do Rosário (PT), mas todas as mulheres. Foi uma eleição polarizada ideologicamente, em que, com um debate agressivo, discutiu-se o papel do Banco Central, a questão da maioridade penal e o regime de gestão do pré-sal. Diferente de outras campanhas, quando todo mundo se dizia de centro-esquerda, agora, a direita botou a cabeça para fora. A Dilma ganhou a eleição porque o campo democrático-popular foi para rua. A bancada do PT vai ter que se preparar para ser melhor que vem sendo. A população nos deu mais uma chance. Até mesmo por não ter outra alternativa, pois, além do PT, não tem outro partido que leve as grandes causas da transformação social. O PSDB derivou para a direita. Fico espantada com algumas declarações do senador Aécio Neves. É o anti-tancredismo. O Tancredo (Neves, avô de Aécio já falecido) era um homem da legitimidade e da moderação, que tinha a consciência que não se pode brincar com fogo em um país em que a democracia está em construção.

– Qual balanço a senhora faz dos dois anos de mandato na Câmara dos Deputados?

– Entendo que o trabalho foi aprovado, na medida em que, mesmo com a metade de um mandato regular, logramos a reeleição. O que foi feito foi compreendido pela população, particularmente em Juiz de Fora, onde está a base de minha votação, o que me deixa muito feliz. Fiz um trabalho de encaminhamento das demandas locais e de defesa das causas locais. Desde coisas estratégicas, desde a luta pela reabertura do Aeroporto de Goianá e pela manutenção das linhas de produção da Mercedes, até, por exemplo, defender a instalação de um radar no trevo de Bicas. Da maneira como o sistema político se coloca, esse trabalho de presença junto à comunidade, de atendimento de demandas, também é uma grande tarefa do Legislativo. É, inclusive, como a população entende o exercício do mandato. Além disso, há a discussão nacional, como, por exemplo, o trabalho que fiz na ciência e tecnologia para aprovar a emenda constitucional 290 (que assegura a pesquisa e inovação tecnológicas como prioridade de Estado) e o plano nacional de educação. Este plano foi uma grande conquista da sociedade, pois é uma política de Estado que destina 10% do PIB para a educação, com o impacto imenso na educação infantil e fundamental.

– Após dois anos na Câmara, o que será diferente tendo sido eleita para quatro anos de mandato?

– Há uma pauta que trabalhei muito e que orienta o início de ação nossa que é a reforma política. Estou absolutamente convencida que, da forma que estamos elegendo o Congresso, vamos chegar em um imobilismo absoluto. Todos os que estão lá foram eleitos democraticamente, mas a sub-representação de mulheres, trabalhadores, movimentos sociais e negros, por exemplo, é uma coisa escandalosa. O fator econômico continua sendo muito expressivo nas eleições. Para atender ao clamor por uma representação mais ativa e transparente, é preciso criar condições de disputa em que os sub-representados consigam se eleger. Na medida que você tem as empresas financiando as campanhas políticas é muito difícil de romper esse ciclo. É um processo de retroalimentação. Por isso, a defesa da constituinte exclusiva. Para que possamos elencar pessoas, que não sendo os representantes eleitos, possam se dedicar exclusivamente a essa questão de uma foram mais desinteressada. Hoje, temos mandatos cujo o propósito é sua autorreprodução. Aí, há uma visceralidade entre o interesse e o processo político, o que, naturalmente, distorce a representação.

– A atuação da senhora é muito ligada à educação, isso faz da Margarida uma “deputada da educação”?

– Sou uma deputada dos direitos sociais. Isso envolve meu trabalho na área de ciência e tecnologia, em que sou titular da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. Lá, estamos discutindo a questão da democratização dos meios de comunicação. Não teremos avanço político se mantivermos uma opinião política monopolizada, em que só um lado oferece sua visão dos fatos. É uma coisa espantosa a maneira como a presidente Dilma avançou na avaliação do seu Governo durante a campanha eleitoral por ter como mostrar o outro lado. Sou contra uma imprensa oficial, mas a favor da multiplicação das vozes e que tenhamos uma imprensa regional bem consolidada, com as verbas de propaganda governamental chegando, por exemplo, aos órgãos de comunicação de Juiz de Fora. Por que concentrar tudo em cinco ou seis grupos nacionais localizados no Rio e em São Paulo, de tal modo que ficamos sabendo tudo sobre a enchente de São Paulo e muito pouco sobre o Distrito Industrial, que também enche? Você não se vê. É também é essencial que se dê voz aos setores historicamente desempoderados.