‘O país deveria aprender com JF’
Sempre que alguém se refere ao seu correligionário e companheiro de bancada como apenas um ex-participante do Big Brother Brasil (BBB), da TV Globo, o deputado Chico Alencar (PSOL) provoca: Você conhece o Jean Wyllys? Baiano radicado no Rio de Janeiro, por onde se elegeu como o primeiro deputado homossexual assumido, Jean Wyllys cortou um dobrado até formar-se em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. O quarto filho de dona Inalva teve que vender algodão-doce para ajudar a colocar comida em casa para seus cinco irmãos. Iniciou militância política nas comunidades eclesiais de base. Depois, veio o Movimento Gay da Bahia. Antes de passar três meses em um reality show, vivi uma vida de 30 anos. Trinta anos da vida de uma pessoa é muito mais rica do que três meses, avalia o deputado. Em Juiz de Fora, onde participou dos eventos do 14º Rainbow Fest, Jean Wyllys exaltou a forma como a cidade acolhe a diversidade.
Tribuna – Juiz de Fora realiza o 14º Rainbow Fest, com discussões em torno dos direitos reclamados pelo movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT). Ao mesmo tempo, veem-se iniciativas em direção contrária como a criação do dia do Orgulho Heterossexual em São Paulo. Qual relação da lei paulista com o movimento LGBT?
Jean Wyllys – Trata-se de uma reação às conquistas do movimento LGBT em vários campos. Em Juiz de Fora, por exemplo, tem a Lei Rosa (Lei 9.791/2000, que protege os homossexuais contra qualquer ato discriminatório). Há também políticas públicas nacionais de combate à discriminação criadas, principalmente, nas gestões do presidente Lula e agora com a presidente Dilma Rousseff. Há campanhas contra homofobia nos estados, como a criada pelo governador Sérgio Cabral (PMDB) no Rio. Temos ainda as paradas do orgulho gay em todo o país. Tudo isso tem provocado uma reação dos grupos conservadores, que não são maioria, mas são barulhentos. O grupo de resistência pode estar na institucionalidade, caso de vereadores, deputados e senadores. Quem está fora da institucionalidade reage com o recrudescimento da violência, como os ataques aos jovens na Avenida Paulista, em São Paulo, a agressão ao pai que abraçava o filho em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, e o assassinato do rapaz que foi defender o amigo gay na Paraíba.
– Quem integra essa minoria barulhenta?
– Essas pessoas da resistência, embora não sejam maioria, são barulhentas por que têm instrumentos de poder. Geralmente são grupos ligados a um fundamentalismo religioso. São pastores, quase sempre líderes de igrejas. Quase todos têm rádios. Têm dinheiro arrecadado com o dízimo. O dinheiro não é tributado. Não é preciso prestar contas dele. Com esse dinheiro, é possível comprar rádio, alugar tempo na TV.
– Como enfrentar a questão?
– Olhe para o Miss Brasil Gay. Juiz de Fora deve ser exaltada como exemplo para o país inteiro. O país deveria aprender com Juiz de Fora. Os heteros não ficaram menos heteros em Juiz de Fora. As famílias não foram destruídas em Juiz de Fora. A educação não foi ameaçada em Juiz de Fora. Estamos falando de um evento que acontece há 35 anos.
– É a primeira vez que vem a JF?
– Visitei a cidade em outra ocasião justamente para este evento. Gosto da forma como a cidade acolhe o evento. Chega a ser curioso o modo como o juiz-forano abraça a questão. Quando me convidaram, nem pestanejei.
– As pessoas se surpreendem com sua atuação na Câmara. Ainda guardam a imagem do ex-BBB. Isso é ruim?
– Ninguém nasce num reality show. Não saí de dentro de um ovo. Não sou filho de chocadeira. Antes de passar três meses em um reality show, vivi uma vida de 30 anos. Trinta anos da vida de uma pessoa é muito mais rica do que três meses. Quem julga os três meses é porque tem a vida grudada apenas na televisão. Até chegar ao BBB, tive uma vida de ativismo. Primeiro, no movimento pastoral da Igreja Católica. Depois, no Movimento Gay da Bahia. Fui jornalista de jornal impresso por dez anos na Bahia. Sou professor universitário, com mestrado em letras e linguística. Não podem pegar esses 30 anos e reduzi-los apenas a uma participação em um reality show.
– A participação no BBB impulsionou a vida pública?
– Orgulho-me muito da minha participação no BBB. Foi uma participação, antes de tudo, política. Uma nova representação da homossexualidade na grande mídia, em um horário nobre e de grande audiência. As pessoas são refratárias a buscar informações sobre as outras. A vida de ninguém começa ali no reality show. Tinha interesse em estudar o reality show como novo fenômeno de massa. Tinha acabado de fazer mestrado e havia me interessado em estudar mais a cultura de massa. Não sou da ala dos intelectuais que torcem o nariz para a cultura de massa. A cultura de massa tem papel relevante, ela forja o imaginário, e esse imaginário tem uma materialidade na vida das pessoas. Inscrevi-me no programa para isso e lá vivi minha vida normal. Jamais imaginei que ficaria muito tempo lá, muito menos que ganharia. Mas isso não significa muito coisa para mim. O circo da mídia nunca me fascinou. Pedi demissão do Mais Você (programa da Rede Globo apresentado por Ana Maria Braga) porque queria tocar minha vida de ativista. Minhas escolhas são feitas a partir daquilo que me faz feliz.
– Na Câmara, há bancadas para defender os mais diferentes interesses. Ainda não há uma bancada homossexual. Faltam representantes?
– Temos uma frente parlamentar onde sou o único homossexual assumido. Se elegêssemos mais homossexuais assumidos, teríamos mais representantes na luta. A comunidade LGBT tem homofobia internalizada. Essa homofobia internalizada impede a identificação com figuras públicas que lutam em favor dos homossexuais. É o que acontece com os negros, com as mulheres. Há uma dificuldade de as mulheres votarem em mulheres. Essa ordem que a gente vive destrói a auto-estima desses grupos vulneráveis. Tem-se, então, a dificuldade de representação.
– O senhor fez uma representação contra o deputado Jair Bolsonaro (PP) por conta de suas declarações consideradas racistas e homofóbicas no programa CQC, da TV Bandeirantes. A representação, no entanto, foi arquivada pela Comissão de Ética. Foi uma derrota?
– Isso é ruim para o Parlamento. A política, segundo Hannah Arendt, nasce no espaço entre os homens e não no homem. Nasce no espaço entre os homens para mediar seus conflitos, suas diferenças. A política implica sempre em correlação de forças. Não fico triste porque isso reflete a correlação de forças aqui dentro da Câmara. Deputados progressistas, que defendem o direito das minorias, são ainda bem poucos aqui. Fiz minha parte. Fui lá, denunciei, argumentei. Mas se o Conselho de Ética não partiu de princípios éticos e da noção de ética que considera a agressão sexista como quebra de decoro, é lamentável para o Parlamento. Fomos derrotados apenas nesse ponto. Nada que me desanime.








