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Memorial recupera o legado de Itamar para a República


Por RENATO SALLES

20/12/2015 às 07h00

 

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Economia claudicante. Grande desgaste do sistema político. Ocupante da cadeira de presidente da República ameaçado de impedimento. As situações descrevem o atual cenário e despertam enorme insatisfação popular sobre as atuações do Congresso e do Governo da presidente Dilma Rousseff (PT). Porém, remontam também ao início da década de 1990, período em que o Brasil virou os olhos para um político juiz-forano, que viria a se tornar presidente da República com o impeachment de Fernando Collor (hoje senador pelo PTB) e responsável pelo maior passo da política econômica brasileira, com a implantação do Plano Real. Duas décadas depois, Itamar Franco será uma vez mais eternizado com a inauguração do Memorial da República Presidente Itamar Franco, que utiliza a linha da vida e o acervo do ex-presidente para restaurar a história da República e de Juiz de Fora. A inauguração acontece nesta segunda-feira, às 20h, em solenidade agendada para o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm).

Reunindo peças pessoais que vão desde uma máquina de escrever usada por Itamar Franco ao Fusca que se tornou símbolo de seu esforço em tentar facilitar o acesso dos brasileiros a um veículo popular, o Memorial remonta a trajetória do juiz-forano desde o nascimento de seus pais, Augusto César Stiebler Franco (1898-1929) e Itália América di Lucca Cautiero (1901-1992). Tudo organizado em um prédio moderno, planejado pelo arquiteto Rogério Mascarenhas. Paralelas à narrativa que remonta também a passagem de Itamar pela Prefeitura de Juiz de Fora, pelo Governo de Minas e pelo Senado, exposições permanentes e transitórias contarão a história da cidade e da República. Os visitantes também poderão acompanhar depoimentos e imagens históricas em vários aparelhos televisores espalhados pelo museu – inclusive em gavetas. Há ainda peças assinadas por artistas locais do presente e do passado.

A homenagem só foi possível graças ao altruísmo do próprio Itamar, que, em 2008, assinou o termo de doação do acervo do Instituto Itamar Augusto Franco (IIAF) à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), objetivo oficializado em novembro de 2010, quando o ex-presidente e o ex-reitor Henrique Duque assinaram convênio que resultou na concepção do memorial. “O maior trabalho foi mesmo o de pesquisa e o de encontrar as pessoas certas para contornar quaisquer divergências históricas que encontrássemos durante o processo”, afirma José Alberto Pinho Neves, responsável pela coordenação da implementação do espaço.

“Está na hora de o país reconhecer o legado de Itamar. Há um reconhecimento, mas não está à altura da história de um presidente que deixou o Governo com 89% de aprovação”, destaca o jornalista Ivanir Yasbeck, autor do livro “O real Itamar – uma biografia”. O escritor juiz-forano reforça ainda que foi no Governo de Itamar que o país chegou a almejada estabilidade econômica, com a implementação do Plano Real. “Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente, PSDB) assumiu o papel de pai do Plano Real. Isso não é verdade. Foi o Governo Itamar que determinou o ‘antes e o depois’ e fez com que o povo brasileiro recuperasse a confiança.”

Além do Real


O sociólogo Brasilio Sallum Jr., também escritor e autor do livro “O impeachment de Fernando Collor – sociologia de uma crise”, destaca ainda que o Governo de Itamar Franco vai além do Plano Real. Ele destaca trabalhos como a Lei Orgânica de Assistência Social e o restabelecimento de uma política de coalizão partidária, o que deu base a gestões e conquistas alcançadas nos últimos 20 anos até seu enfraquecimento e iminente colapso no segundo mandato da presidente Dilma. Apesar disso, Brasilio considera que Itamar não teve o reconhecimento merecido ao passar dos anos. “A questão do ‘esquecimento’ é até inteligível. Itamar não fazia parte das duas correntes partidárias que dominaram a política a partir de 1995 e viu suas iniciativas serem ‘absorvidas’ pelos sucessores. A estabilidade monetária foi reivindicada pelo PSDB. O ‘social’, pelo PT. Mas é importante lembrar que o Governo Itamar esteve na origem das duas políticas que marcaram o Estado brasileiro contemporâneo.”

O presidente que respondia cartas

Ao ser indagado sobre qual seria a joia da coroa do Memorial, José Alberto Pinho Neves é taxativo ao afirmar que o conjunto do acervo funciona como uma peça única. Mas milhares de cartas de populares encaminhadas ao político ao longo de sua trajetória pública não passam despercebidas. Diretora do Instituto Itamar Franco, entidade que também teve participação relevante na consolidação do espaço, Neusa Mitterhoff destacou que o ex-presidente nutria muito carinho por essas correspondências. “Ele guardava todas e não deixa uma sequer sem resposta.”

Todas essas cartas estarão disponíveis no arquivo do Memorial. Três delas, porém, ganharam relevância e ocupam uma das dezenas de gavetas que, ao serem abertas, contam a vida de Itamar da escola primária até sua morte, em 2011. Entre as correspondências evidenciadas está uma datada de dezembro de 1993, em que um garoto de 10 anos pede ao então presidente a “eliminação” de dois personagens: “a fome e a miséria”, além de uma solução para os problemas econômicos que afligiam o país (ver arte).

Tais solicitações não ficaram sem resposta, e o menino recebeu um telegrama da Presidência da República agradecendo as sugestões e afirmando que “o apoio de bons brasileiros é importante nesse processo de condução do país a melhores dias”. Vinte dois anos depois, aquele garoto ainda mora no Rio de Janeiro. “O Brasil vivia uma situação interessante, com tudo muito à flor da pele após o impeachment do Collor. O que eu queria era ajudar o país”, lembra hoje o médico veterinário Jair Melo.

Com 32 anos, Jair ainda guarda com carinho a resposta encaminhada pelo então residente da República. Com a consciência política e social em dia, o veterinário acredita que suas indagações feitas em dezembro de 1993 foram em parte atendidas. “O Brasil desenvolveu muito de 1993 para cá. Houve alguns avanços importantes. Hoje, há um número maior de pessoas com acesso à educação universitária, por exemplo. Mas há também problemas similares aos daquele período, como a corrupção, a saúde e a violência”, avalia.

Ao saber que sua carta mereceu lugar de destaque no Memorial, Jair já pensa em visitar Juiz de Fora. ” O povo deveria dar um valor maior a um presidente que contribuiu muito para a consolidação da nova República”, considera o garoto que, há 22 anos, queria ajudar a mudar o país.

A diferença entre os vices

O jornalista juiz-forano Ivanir Yasbeck considera justa a homenagem ao ex-presidente. “Ainda mais em um momento como esse, em que se repete um cenário em que Itamar se tornou um dos grandes protagonistas da história política do Brasil.” Apesar de apontar coincidências entre os períodos que antecederam o impeachment de Collor, em 1992, e o atual, em que a ameaça de abertura de um possível processo de impedimento ainda paira sobre a cabeça de Dilma, o biógrafo considera que existem grandes distinções entre os dois momentos. Principalmente, no que diz respeito à postura dos dois vice-presidentes em questão: Itamar Franco e Michel Temer (PMDB).

“Há uma grande diferença. Itamar assumiu a Presidência com altivez. Sem qualquer punhalada nas costas”, afirma Yasbeck. Para o jornalista, a postura de Temer e a forma como se manteve sempre próximo ao poder o desabona. “Àquela época, a única desconfiança que pairava sobre Itamar dizia respeito a sua habilidade política para assumir um país com grandes dificuldades. Porém, logo se viu que se tratava de uma pessoa honrada, capaz de desenvolver um trabalho e montar uma equipe ministerial sem barganhas políticas. Acredito que isso não ocorreria hoje.”

O sociólogo Brasilio Sallum Jr. lembra outras características que diferem os dois momentos. Na década de 1990, pouco após a posse de Collor, a divergência entre presidente e vice-presidente pareciam e irremediáveis e, logo, Itamar rompeu com Collor e se afastou do Governo. Postura muito distinta a de Temer, que chegou a ameaçar um afastamento de Dilma recentemente, por meio de uma “carta pessoal”, rompimento que não se confirma além das entrelinhas.

“Desde o fim de 1991, Itamar sinalizou claramente sua distância política em relação a Collor, o que se acentuou quando deixou o PRN, de Collor, em 1992. Manteve-se, porém, discreto”, lembra Brasilio. O sociólogo reforça que as distinções denotam um possível projeto de poder dos peemedebistas, que recentemente lançaram um projeto de Governo alternativo, intitulado “Uma ponte para o futuro”. “Desde que a presidente Dilma esvaziou suas funções de articulador do Governo, Temer ficou disponível para tratar das questões partidárias, e, agora, da eventual sucessão à Presidência.”

Arte Itamar