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Urna era escape para insatisfação


Por Tribuna

14/12/2014 às 07h00- Atualizada 26/12/2014 às 05h34

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O segundo turno das eleições presidenciais de 1989, que completa 25 anos nesta quarta-feira e elegeu Fernando Collor de Mello (PTB), então no PRN, marcou a volta do voto direto para a escolha do principal cargo do país após um hiato de quase três décadas desde a vitória de Jânio Quadros nas urnas em 1960. Aquele foi o primeiro passo para um dos maiores períodos democráticos do país, que, no último dia 26 de outubro, reelegeu a presidente Dilma Rousseff (PT) no sétimo processo eleitoral consecutivo decidido pela via direta. O pleito atual, todavia, foi marcado por um clima de intensa insatisfação popular, visível desde as manifestações de junho de 2013. A sensação de incredulidade evidente, personalizada nas redes sociais, entretanto, não parece exclusividade dos dias de hoje. Há duas décadas e meia, ainda com resquícios dos tempos de repressão, as ferramentas utilizadas para manifestar a contrariedade eram outras, como mostram os bilhetes deixados em urnas espalhadas por Juiz de Fora quando as cédulas de votação ainda eram de papel.

A reportagem da Tribuna teve acesso a materiais recolhidos por mesários em urnas físicas da cidade nas eleições presidenciais de 1989 e estaduais de 1990, que elegeram Hélio Garcia para o Governo de Minas, além de um senador e deputados federais e estaduais (ver arte). Uma breve análise dos recados deixa claro que muitos dos questionamentos comuns há duas décadas e meia permanecem recorrentes nos dias de hoje. Muitos deles revelam a falta de confiança de eleitores nos políticos. “Enquanto a política for o melhor emprego do mundo, não haverá sinceridade”, diz um dos bilhetes deixados nas urnas, que reforça um questionamento que parece indelével ainda na atualidade e é endossado por outro em forma de poema. “Hoje chamam de excelência quem mata os outros de fome. Excelência é ladrão. Ou ladrão mudou de nome.”

Alguns dos recados valem-se do deboche para mostrar como já naquela época os nomes colocados na disputa não atendiam aos anseios de alguns eleitores. Em um pedaço de papel jogado na urna, um eleitor elenca personagens de um dos mais famosos crimes de Juiz de Fora, o sequestro da Rua das Margaridas, quando, em 1990, cinco presos fugiram da Penitenciária de Contagem, chegaram em Juiz de Fora em um carro forte e terminaram por manter um coronel da Polícia Militar em cativeiro por 12 dias intermináveis. Neste caso, o bilhete indicava o nome do coronel Edgar Soares como “governador”, enquanto três dos cinco fugitivos – Leitão, Peninha e Popó – foram apontados como “opções” para o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

Outros temas que se mantiveram como alvo de discussões ao longo das últimas décadas figuram entre os bilhetes. Com um volante contendo os resultados “do dia” do jogo do bicho, um eleitor clamava pela liberação da contravenção. “Proteja o jogo dos pobres”, dizia o apelo. Em outro caso, o tema era a situação financeira e o endividamento da União. Em uma das urnas, os mesários encontraram uma nota de CZ$ 50 (cinquenta cruzados) escrita em caneta: “Uma contribuição ao pagamento da dívida externa.” Em outra, quando sequer a pauta acerca da necessidade de uma reforma eleitoral era colocada à baila, já havia quem protestasse contras as regras utilizadas para a escolha de nossos representantes: “Eu sou contra eleição em dois turnos”, afirmava a frase acompanhada de um tímido xingamento.

Falta envolvimento político

Para o cientista político ligado à Universidade Federal de Viçosa (UFV), Diogo Tourino, a identificação de um padrão entre a insatisfação manifestada entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990 e os dias de hoje reflete, de certa forma, um “status quo” compartilhado por aqueles que optam por se manter alheios ao processo político. “Falar mal da política sempre foi um lugar-comum, uma espécie de postura crítica de quem não se envolve diretamente.” O especialista, entretanto, considera as realidades distintas e evita traçar paralelo entre um momento e outro.

“De lá pra cá, vejo pouca energia canalizada para as esferas representativas. Não que não haja energia, pois há. Basta você correr as periferias das cidades e verá vida associativa, organizações culturais, o povo nas ruas. Mas, parece que essa vida associativa corre em paralelo à dimensão da representação formal. Em outras palavras, desde 1989, o que vemos é o surgimento de outras formas de representação. Isso é bom. No entanto, como dado ruim, percebemos também o declínio na confiança depositada nos mediadores tradicionais: partidos, sindicatos, entre outros.

Rotina

Diogo ressalta que a primeira eleição direta após um longo período em que a democracia ficou em segundo plano marcou um momento de grande fervor cívico. “Diferentemente de hoje, quando a democracia já se ‘rotinizou’, 1989 representa o retorno do voto depois de um processo que, malgrado as idas e vindas, culminou na eleições diretas. Mas essa ‘rotinização’ tem seu ônus. Hoje é mais ainda um lugar-comum falar mal da política. Quando casamos isso ao número atual de brancos e nulos e abstenções, chegamos a um resultado ruim. É uma prova de que as eleições já não contagiam como antes, talvez pela segurança que a democracia alcançou.”

Consolidação de um novo ator político

Realizada seis anos após a campanha das “Diretas já”, que ajudou a pautar o processo de redemocratização do país após os militares deixarem o poder, as eleições de 1989 foram marcadas por ataques pessoais de parte a parte. Em um dos processos mais disputados da história, 22 presidenciáveis integraram a corrida, com praticamente todas as grandes siglas lançando candidato próprio. Ao decorrer do processo, Fernando Collor de Mello surgiu como alternativa da direita, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Leonel Brizola (PDT) competiam pelos votos dos mais identificados com os pensamentos esquerdistas. Lula levou a melhor e avançou ao segundo turno unificando forças de centro-esquerda, contando à época, inclusive, com o apoio de Mário Covas, que havia disputado o pleito como candidato do PSDB.

“Aquelas eleições significaram também o aparecimento de novos atores no mundo da política. Lula é um caso notório, sem dúvida”, afirma Diogo Tourino. Apesar de derrotado por Collor no segundo turno, Lula saiu fortalecido daquele pleito como principal voz da esquerda nacional, abrindo caminho para se tornar o maior fenômeno eleitoral do atual período democrático. Após dois reveses consecutivos para Fernando Henrique Cardoso (PSDB) nas eleições presidenciais de 1994 e 1998, chegou à Presidência após vencer em 2002, sendo reeleito em 2006. Quatro anos depois, conseguiu fazer sua sucessora, levando Dilma Rousseff (PT) ao Palácio do Planalto em 2010, com a atual presidente garantindo o segundo mandato no último pleito.