Campanha longe das ruas

Marina diz que se identifica com candidato para o qual trabalha

Leonardo defende as causas de seu candidato com convicção
A grande quantidade de cartazes, carros de som e cabos eleitorais que tomam as ruas das grandes cidades, a cada dois anos, durantes as eleições, nĂŁo chegou com a mesma força a Juiz de Fora em 2014. A trĂŞs semanas da eleição, a divulgação de candidaturas restringe-se a placas e cartazes em espaços privados, carros com adesivos de candidatos e raros jingles executados por carros de som. Pelas ruas, há poucos militantes e cabos eleitorais, seja do PT, tradicionalmente concentrados na Rua Halfeld, ou das demais legendas e coligações, que exibem bandeiras e distribuem ‘santinhos’ no cruzamentos das ruas e avenidas centrais.
Para as próximas três semanas, é esperado um acirramento da campanha nas ruas, mas a expectativa é que a propaganda não ganhe as mesmas proporções de pleitos passados.
A sĂ©rie de leis e determinações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), restringindo a possibilidade de propaganda em espaços pĂşblicos, Ă© um dos motivos apontados para a mudança.Diversas restrições Ă propaganda nas ruas foram impostas nos Ăşltimos anos. Elas proibiram, por exemplo, a fixação de cartazes em bens de uso comum, alĂ©m de alguns locais privados, como estabelecimentos comerciais. Cartazes deram lugar a cavaletes, colocados no chĂŁo, que devem ser removidos Ă noite. Placas de candidatos em locais autorizados devem obedecer a um padrĂŁo dimensional, nĂŁo excedendo a quatro metros quadrados. Segundo a juĂza eleitoral Zona Eleitoral 153, Maria LĂşcia Cabral Caruso, a transformação faz parte de toda a reforma eleitoral que está em curso, cujas restrições serĂŁo ainda mais rigorosas nas prĂłximas disputas. “Pela ‘mini-reforma eleitoral’ vigente, o cavalete está valendo este ano, mas será proibido nas prĂłximas eleições. Os outdoors causavam poluição visual, foram proibidos. A propaganda Ă© mais livre na internet, porque na rede o cidadĂŁo pode escolher melhor ao que tem acesso.”
Todavia, muitas estratĂ©gias de campanha ainda legĂtimas, tais como carreatas, execução de jingles por carros de som em vias pĂşblicas e mesmo o corpo a corpo da militância, nĂŁo estĂŁo presentes Ă s ruas como há quatro ou oito anos. A diferença, segundo especialistas, se dá por dois motivos, um, conjuntural, e outro, tĂ©cnico. O primeiro Ă© o evidente descontentamento do eleitor com as formas tradicionais de busca pelo voto, consideradas ultrapassadas e ligadas a um momento polĂtico de desmandos e corrupção que o paĂs quer superar. A outra Ă© a concorrĂŞncia que as campanhas tradicionais tĂŞm nas novas formas de divulgação pelas redes sociais.
Segundo o consultor polĂtico GaudĂŞncio Torquato, a mudança principal se dá porque o perfil atual do eleitorado pede um novo direcionamento para a polĂtica e para as plataformas de campanha. “O cidadĂŁo hoje tem um olhar mais crĂtico, mais ácido, quanto Ă polĂtica. Ele nĂŁo idealiza candidatos, e era na idealização que este tipo de campanha, esta maquinaria criada pelos polĂticos, se apoiava para angariar votos. Hoje o eleitor Ă© pragmático, quer comparar propostas e saber o que Ă© melhor.” Segundo o especialista, este ceticismo do eleitorado teve influĂŞncia no prĂłprio arrefecimento da militância voluntária. “Hoje, mesmo a militância do PT Ă© mais envergonhada, menos entusiasmada do que há dez ou 20 anos. O âmbito eleitoral Ă© mais racional e menos emotivo, em todos os agrupamentos de eleitores.”
Torquato pondera, no entanto, que este tipo de propaganda ainda existe, porĂ©m numa roupagem diferente. Na internet, segundo o consultor, exĂ©rcitos dos trĂŞs principais concorrentes Ă PresidĂŞncia da RepĂşblica, Marina Silva (PSB), Dilma Rousseff (PT) e AĂ©cio Neves (PSDB), travam uma guerra para lapidar a imagem de seus candidatos e atingir a dos adversários. “Nas redes sociais, as ‘bandeiras’ continuam fortes. Se considerada a amplitude da divulgação nas redes e o baixo investimento, uma vez que na internet trabalha-se com a adesĂŁo voluntária Ă s candidaturas, podemos dizer que houve uma redistribuição dos investimentos das campanhas. Apostar na internet Ă© mais barato, e o concorrente pode lograr uma divulgação atĂ© maior.” Apesar disso, como se trata de uma redistribuição, Torquato lembra que a campanha nas ruas ainda tem a sua vez e o seu lugar. “No interior e em locais onde o aceso Ă internet Ă© menor, o corpo a corpo e todas as formas tradicionais de divulgação nas ruas sĂŁo importantes. E mesmo nos grandes centros, elas vĂŁo surgir com força nas Ăşltimas semanas.”
Sem afinidade e por dinheiro
A análise Ă© similar Ă do professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro, Eugenio Giglio. Para ele, a adesĂŁo na internet Ă© ampla porque voluntária, reunindo pessoas que acreditam num candidato. Já as bandeiras das ruas, por outro lado, sĂŁo empunhadas por pessoas muitas vezes sem identificação com o polĂtico que representam. “SĂŁo pessoas que estĂŁo ali fazendo um trabalho temporário. Todos sĂŁo remunerados. NĂŁo estĂŁo ali por que acreditam no processo polĂtico como elemento de mudança. É uma pena, mas Ă© isso.” O professor afirma que a principal importância da propaganda paga nas ruas Ă© mostrar que a campanha está grande, com recursos e mobilização. “Acho que, como fato simbĂłlico, isso tem valor sim. Mas nĂŁo podemos confundir com efetividade, pelo menos para as campanhas proporcionais.”
A Tribuna conversou com alguns cabos eleitorais, buscando identificar quem eles sĂŁo e por que assumiram o papel de divulgadores de campanha. O “dinheiro no bolso” predomina entre os motivos que levam estas pessoas, jovens em sua maioria, a buscar esse trabalho. Em Juiz de Fora, o valor Ă© variado. Há candidatos que pagam R$ 50 por dia ou aqueles que remuneram por semana. Um concorre a uma vaga na Câmara dos Deputados teria contratado 24 cabos eleitorais divididos em trĂŞs equipes. Cada um receberia, alĂ©m de lanche e transporte, R$ 220 por semana para trabalhar de segunda a sábado. O coordenador de cada grupo leva R$ 320, segundo uma entrevistada, que nĂŁo quis se identificar.
Uma das campanhas mais presentes Ă s ruas Ă© a do candidato tucano ao Governo de Minas, Pimenta da Veiga. Os cabos eleitorais tĂŞm se concentrado no cruzamento da Avenida Rio Branco com a Itamar Franco, realizando panfletagem, empunhando bandeiras e pedindo aos motoristas para colar adesivos nos carros. Contratado pela campanha de Pimenta, o estudante E.R., 21 anos, diz que, antes de começarem os trabalhos, os jovens foram orientados sobre como abordar os cidadĂŁos. A equipe de campanha apresentou a trajetĂłria dos candidatos do PSDB e preparou os cabos eleitorais quanto Ă possĂvel reação do pĂşblico ante as ações de divulgação. “A primeira fase da campanha Ă© para buscar a aceitação do pĂşblico”, afirma.
Outro caso de “militante” contratado Ă© o do estudante Henderson França, 22, que faz campanha para o deputado JĂşlio Delgado. Ele conta que cumpre com sua função com profissionalismo, balançando bandeiras e abordando motoristas para distribuir panfletos e colar adesivos nos carros, mas que nĂŁo tem comprometimento eleitoral com o candidato. “Ainda estou definindo meu voto, mas estar trabalhando para um candidato, conhecendo suas propostas, Ă© algo importante na hora de escolher.”
Militância voluntária e comprometida
Relação diferente Ă© estabelecida pela militância voluntária. Um dos casos mais conhecidos em Juiz de Fora Ă© o grupo de sindicalistas, estudantes e militantes de movimentos sociais que apoiam as candidaturas do hoje vereador Roberto Cupolillo (BetĂŁo, PT), que este ano concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa. Grupos ligados a BetĂŁo sĂŁo vistos, sobretudo, no calçadĂŁo da Rua Halfeld, em frente ao Banco do Brasil, local que já se tornou tradicional ponto de atos pĂşblicos e manifestações da esquerda juiz-forana. O advogado Leonardo Iung, 28, Ă© um exemplo de cabo eleitoral voluntário. “Sou militante do PT, filiado Ă mesma tendĂŞncia do Beto (BetĂŁo), e sempre o defendi nas eleições. NĂłs trabalhamos sem hora para começar ou sair, fins de semana e domingos, durante todo o dia.”
A funcionária pĂşblica Marina CĂ©zari, 44, faz campanha para o vereador Isauro Calais (PMN), que tambĂ©m busca um lugar na Assembleia. Segundo Marina, a identificação Ă© pessoal, uma vez que ela Ă© do Bairro Progresso, Zona Leste, onde vive a famĂlia do parlamentar. “Eu o conheci quando era muito nova e, desde lá, acompanho a sua trajetĂłria e milito voluntariamente.” Marina trabalhou com Isauro em sete eleições, cinco municipais e duas para deputado estadual. Ela trabalha das 14h Ă s 18h e recebe dinheiro pelo serviço, mas nĂŁo se afirma uma “militante paga”. “Há a contribuição, mas o meu trabalho Ă© voluntário, porque eu acredito no homem sĂ©rio que ele (Isauro) Ă©. NĂŁo estaria aqui se nĂŁo acreditasse, apenas por dinheiro.”









