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Prazos comprometem estratégias


Por RICARDO MIRANDA

11/03/2012 às 06h00

Em Minas, ensinava o precavido Tancredo Neves, decisão política só se toma depois da procissão do Senhor Morto, na Sexta-feira da Paixão. A pouco menos de um mês da Semana Santa, quando se abre a temporada de definições, os partidos com pré-candidatos à Prefeitura de Juiz de Fora ainda usam a maior parte do tempo na costura de alianças, na construção de unidade e viabilidade partidárias e no deslanchar de projetos. O receio, caso esses acertos não estejam, pelo menos, encaminhados até passar a tal procissão, é quanto ao risco de atropelamentos e desarticulação das estratégias eleitorais. Contribuem para a tensão em torno dos prazos, segundo os dirigentes partidários, a importância do município nos cenários estadual e nacional e a multiplicidade de atores com caráter decisivo no processo.

De fato, nomes como do ex-presidente Lula, do senador Aécio Neves (PSDB), do vice-presidente Michel Temer (PMDB) e da própria presidente Dilma Rousseff (PT) aparecem com certa frequência nas articulações locais. Isso, claro, sem falar na tríade: Tarcísio Delgado (PMDB), Alberto Bejani (PSL) e Custódio Mattos (PSDB). Embora a relevante importância desses atores, que contribuem sobremaneira para a morosidade do processo decisório, as legendas têm encontrado dificuldades no varejo eleitoral. O PT, que se uniu em torno do nome da ex-reitora da UFJF, Margarida Salomão, sabe da escassez de tempo para ainda encontrar aliados dispostos a uma coligação majoritária ou proporcional. O PCdoB, o mais tradicional dos companheiros do partido, sinalizou com a possibilidade de aliança, mas mantém conversa com outras siglas. Enquanto isso, os petistas ainda não desistiram do sonho da dobradinha com o PMDB. A principal aposta, nesse caso, reside em Brasília, mais precisamente, no Palácio do Jaburu.

Entre os peemedebistas, a abertura para composição existe, mas não nos termos petistas. Com a pré-candidatura do deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB) colocada, o partido espera por aliados para somar tempo de TV e densidade eleitoral. A vaga para vice também está em aberto. Ainda assim, a questão em pauta no momento é outra. Dirigentes ligados a Bruno consideram arriscado esperar pelas bênçãos ou não do ex-prefeito Tarcísio Delgado. Ele já anunciou que, de sua parte, conversas mais decisivas somente em maio. Também para a direção estadual do PMDB, não só Juiz de Fora, mas em todos municípios polos, o prazo ideal para definições seria mesmo a Semana Santa. Nesse sentido, uma força tarefa de Belo Horizonte deve aportar no município nos próximos dias para assuntar o cacique peemedebista local.

No compasso do PMDB, segue o PSB, do deputado federal e pré-candidato a prefeito, Júlio Delgado. Filho de Tarcísio, ele também aguarda a movimentação do pai para saber como vai se posicionar no processo sucessório municipal. Como o PSB frequenta as bases dos governos estadual e federal, a morosidade na definição doméstica acaba comprometendo possíveis entendimentos do parlamentar nas duas direções. Mesmo na difícil hipótese de conseguir de Tarcísio a simpatia do PMDB por sua candidatura, Júlio sabe que vai precisar de tempo para quebrar a resistência de alguns setores. Outra problema quanto à demora, na avaliação de pessoas próximas ao deputado, é o avanço da candidatura de Bruno. O próprio peemedebista tem falado a interlocutores que, na necessidade de entendimento com Júlio para viabilizar apenas um nome, uma boa medida seria o percentual de intenção de votos nas pesquisas.

 

Deslanchar de obras no encalço do PSDB

Com grande número de aliados definidos e sem o fantasma de uma segunda candidatura apadrinhada pelo Palácio da Liberdade, o PSDB, que buscará a reeleição do prefeito Custódio Mattos (PSDB), corre contra o tempo para deslanchar obras prometidas na campanha de 2008. Embora os prazos comecem a jogar contra, o otimismo entre tucanos e os partidos governistas se mantém. Até pelos atropelos das previsões anteriores, ninguém quer arriscar uma data para o lançamento das intervenções viárias ainda pendentes. A revitalização do Rio Paraibuna e as intervenções em áreas de riscos enfrentam a fase final dos trâmites burocráticos. Licitadas e com recursos, o início delas é aguardado para antes da Semana Santa.

Já as obras na Avenida Rio Branco devem demorar um pouco mais para serem concluídas. A aposta, no entanto, é de que os transtornos comecem a ser minimizados ainda esta semana, com a liberação da pista central para ônibus. O término dessas obras e o início das intervenções viárias, com a construção de mergulhões e viadutos, é a principal esperança de fôlego novo ao PSDB. A avaliação de dirigentes da legenda é de que, ao verem o resultado da Avenida Rio Branco e mesmo da Avenida Getúlio Vargas, que também será remodelada, os juiz-foranos retomem a avaliação positiva do Governo. "A reação negativa aos transtornos das obras era esperada, mas terá caráter passageiro frente aos benefícios que serão gerados", sintetiza o vereador Rodrigo Mattos (PSDB). Para obter os efeitos esperados com a conclusão de algumas obras, os tucanos sabem, no entanto, que não contam mais com muito tempo.

Até quem corre por fora no processo sucessório, caso do vereador e pré-candidato à Prefeitura, Isauro Calais (PMN), já começa a se preocupar com a escassez de tempo. Citado com frequência como candidato a vice, o vereador tem dito que não será segundo nome da chapa de ninguém. "Nem se o Papa for candidato à Prefeitura de Juiz de Fora, serei seu vice." Embora a negativa, a situação começa a preocupar por conta do assédio a seus redutos eleitorais de outros concorrentes à Câmara. A avaliação entre os vereadores atuais é de que, estendendo ainda mais o prazo para definir se será ou não candidato ao Executivo, Isauro pode ver sua reeleição para o Legislativo, considerada certa, sofrer abalos.

Em Juiz de Fora, a pré-candidatura de Victória de Fátima de Mello (PSTU) ganhou sinal verde para uma aliança com o PSOL. Às duas legendas ainda pode se unir o PCB. O problema comece quando a aliança PSTU e PSOL sai do município e ganha as esferas estadual e nacional. A dobradinha tem resistência por questões ideológicas no estado e no país. Não havendo intervenção, a coligação da chamada esquerda radical deve vingar. Com bem menos chances de entrar no páreo municipal, o ex-prefeito Alberto Bejani (PSL) ainda busca entendimento diferente em relação à Lei da Ficha Limpa, que proíbe a candidatura de políticos condenados por tribunais colegiados e que tenham renunciado para fugir de processo de cassação de mandatos. No seu caso, os prazos são maiores. Ele saberá se poderá ou não concorrer somente após protocolar pedido de registro de candidatura à Justiça Eleitoral.