Última despedida em Minas

Cortejo chega ao Cemitério Renascer
"É saudade esse choro". Foi do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), com quem o senador e ex-presidente Itamar Franco (PPS) travaria uma de suas mais árduas batalhas, a frase que melhor sintetizou o sentimento de dezenas de políticos e centenas de populares na derradeira homenagem ao filho mais ilustre de Juiz de Fora na tarde de ontem, no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. O corpo de Itamar chegou à antiga sede do Governo de Minas, no final da manhã, escoltado pelos Dragões da Inconfidência e, ao som de "Oh, Minas Gerais", foi recebido pelo governador Antônio Anastasia (PSDB) e pelo senador Aécio Neves (PSDB). Em um primeiro momento, políticos e parentes realizaram uma homenagem restrita e, em seguida, o velório foi aberto ao público. A presidente Dilma Rousseff, acompanhada por vários ministros, participou da cerimônia fúnebre. Sua comitiva desembarcou na capital mineira por volta das 13h30. Também renderam homenagem ao ex-presidente o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o ex-governador paulista José Serra (PSDB), além de Fernando Henrique, ex-ministros, senadores e deputados. O prefeito Custódio Mattos (PSDB) foi ao velório em Juiz de Fora e Belo Horizonte.
O caixão do ex-presidente deixou o Palácio da Liberdade sob aplausos do público, por volta das 15h, com destino a Contagem, na Região Metropolitana, onde foi cremado. O caixão foi levado pelo American La France, mesmo carro do Corpo de Bombeiros que fez o cortejo do presidente Tancredo Neves e o do ex-vice-presidente José Alencar. O percurso foi acompanhado por soldados do Exército, polícias Militar e Civil, Força Aérea Brasileira e do Corpo de Bombeiros. O comboio chegou ao Cemitério e Crematório Parque Renascer às 15h40, e o corpo foi recebido por oficiais do Exército e da Aeronáutica a tiros de fuzil, além de 21 disparos feitos por quatro canhões. A cerimônia de cremação foi realizada às 16h, restrita a parentes e amigos íntimos de Itamar Franco. De acordo com a administração do local, as cinzas serão entregues à família na tarde de hoje. A pedido do próprio ex-presidente, elas serão depositadas no jazigo familiar, no Cemitério Municipal de Juiz de Fora, mas ainda não há previsão para que a solenidade aconteça.
Choro
Enquanto o choro da maioria daqueles que passaram pelo Palácio da Liberdade, na tarde de ontem, verteu-se em lágrimas, o de Fernando Henrique Cardoso tornou-se reconhecimento. "Devo a Itamar por ter aberto espaço para um obscuro político na época. Um sociólogo, e não um economista." Antes, falou do legado do juiz-forano no campo da ética. "Ele sempre foi um homem simples no modo de viver, falar e relacionar. Ele não se deixou fascinar pelo poder. A ética dele vai fazer falta."
Mas foi ao falar do Plano Real que Fernando Henrique tratou com a devida importância o papel do presidente que lhe havia indicado para o Ministério da Fazenda. "(O Plano Real) foi feito por uma equipe, a qual eu chefiei. Mas nada disso teria sido feito sem o apoio irrestrito do presidente. Mesmo que o Itamar, lá no fundo da alma dele, não estivesse totalmente convencido. Mas ele confiava e deu a mim uma força difícil de imaginar que algum presidente pudesse dar." As declarações do ex-presidente tucano comoveram até outro ex-ministro da Fazenda de Itamar, Ciro Gomes (PSB). "Dele (Fernando Henrique) também sou adversário, mas pude perceber que ele estava triste, emocionado. Isso que a gente tem que por em relevo."

Reconhecimento social, político e econômico
Além de Fernando Henrique, o também ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes, reconheceu a importância de Itamar Franco para estabilização da economia brasileira. "O Brasil acaba de perder um de seus melhores quadros. Eu posso dizer isso menos pelo afeto extremo que nutro pela figura de Itamar e mais pela experiência como ministro da Fazenda, no auge da consolidação do Plano Real." Segundo ele, a inflação no país era um negócio patrocinado por interesses. "Itamar desfez esses interesses e se colocou ao lado da sociedade brasileira. É a ele que o Brasil deve sua estabilidade econômica."
O senador Eduardo Suplicy (PT) também lembrou do legado econômico do ex-presidente. "Vivíamos com um problema de inflação altíssima e foi ele quem instituiu o Plano Real, quando era ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso. Ele teve a coragem de levar um plano, depois de todas as experiências que haviam acontecido – Plano Cruzado, Plano Bresser e outros -, mas que acabou sendo bem-sucedido". O senador petista reconheceu ainda as contribuições de Itamar no combate à fome e à miséria, ao lado do sociólogo Herbert de Souza, Betinho.
Líder do Governo Itamar Franco na Câmara, o presidente Nacional do PPS, deputado Roberto Freire, referiu-se à gestão do juiz-forano como"um Governo sério, de postura, de uma administração que se deu ao respeito, muito diferente do que hoje nós estamos vendo". Para o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (PT), o ex-presidente "deixa um legado a favor do povo e do país".
O presidente do Cruzeiro Esporte Clube e sucessor de Itamar no Senado, Zezé Perrella (PDT) esteve no velório, mas não deu declarações. Ele foi notificado ontem pelo Ministério Público de Minas Gerais (MP) para explicar o crescimento de seu patrimônio. O promotor Eduardo Nepomuceno abriu processo investigatório contra o cartola após publicação pelo jornal "Hoje em Dia" afirmando que Perrella não declarou, nas eleições do ano passado, a posse de uma fazenda avaliada em R$ 60 milhões. A propriedade localiza-se a 300km de Belo Horizonte. À Justiça Eleitoral, Perrella declarou ter patrimônio de R$ 490 mil. Segundo o site Folha.com, o Grupo de Repressão a Crimes Financeiros da Polícia Federal de Minas também abriu um inquérito para apurar denúncias de crimes de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito.Nem o MP nem a PF divulgaram datas.








