Largada para 2012 divide PT
Mesmo com a ex-reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Margarida Salomão (PT), como virtual candidata à Prefeitura desde o segundo turno das eleições de 2008, quando o prefeito Custódio Mattos (PSDB) foi eleito, o PT tem adotado cautela antes de colocar o bloco na rua para a disputa de 2012. A calmaria no diretório local começa a incomodar uma parcela de dirigentes e filiados, acostumados a debates internos acalorados nos meses de pré-campanha. A principal demanda é quanto à necessidade de se começar a capitalizar no município ações e obras do Governo federal. A formulação de políticas alternativas ao modelo tucano também aparece nos discursos. Questões dessa natureza percorreram os bastidores da reunião anual do diretório nacional do PT, na última sexta-feira, em Belo Horizonte. A recomendação, por ora, é para aguardar a chegada do próximo ano.
Para tentar acalmar os ânimos da militância, visto com naturalidade pela cúpula petista, a direção do partido vai trabalhar na elaboração de um calendário eleitoral. Enquanto isso, as conversas estarão focadas nas alianças partidárias, notadamente com o PMDB, principal aliado do PT na esfera nacional. O acerto com os peemedebistas para reeditar a dobradinha em Juiz de Fora tornou-se quase uma obsessão para os petistas. Nesse sentido, confirmar a indicação de Margarida como candidata antes de se esgotar todas as conversas é considerado pouco estratégico. O problema, no caso do PMDB, é a condição de candidato do deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB). Quanto a isso, o ex-prefeito Tarcísio Delgado (PMDB) aparece como um caminho de diálogo alternativo, mesmo com o fato de seu filho, deputado federal Júlio Delgado (PSB), também aparecer com um pé na sucessão executiva municipal.
As conversas com Tarcísio ficariam a cargo da própria Margarida. Os dois trabalharam juntos na primeira gestão do peemedebista (1983-1988) e, em 2008, o ex-prefeito apoiou a petista no segundo turno. Paralelamente, as costuras devem continuar em Brasília. Juiz de Fora, por figurar na lista de cidades estratégicas para o PT, tem suas articulações presas à cúpula nacional petista. Com isso, o discurso para manutenção da aliança partidária da base de sustentação da presidente Dilma Rousseff na cidade ganha força. A condição de prioridade pode render também para o PT local cabos eleitorais de peso, como ministros e até mesmo o ex-presidente Lula. Para ter um cacique petista de primeira linha na campanha, no entanto, a condição é de que do outro lado não haja nenhum aliado. Ou seja, com PMDB e PSB no páreo, dificilmente o PT conseguirá nacionalizar a campanha, situação que somente reforça a necessidade de unidade.
Embora a ordem seja para insistir enquanto for possível na aliança com o PMDB, muitos petistas com bom trânsito com Bruno sabem da dificuldade para conseguir formar chapa única ainda no primeiro turno. O mais provável é que as conversas caminhem para uma eventual parceria no segundo turno, no caso de um deles avançar para a próxima etapa. Quanto a isso, os petistas, assim como o grupo peemedebista ligado a Tarcísio, temem pela proximidade de Bruno, herdeiro político do ex-presidente Itamar Franco, com o senador Aécio Neves (PSDB). Para tentar reverter o quadro de desconfiança, o deputado despachou interlocutores próximos para atuarem junto a setores do PT e do próprio PMDB. Nos próximos meses, Bruno deve procurar Margarida pessoalmente para uma conversa. Ele quer deixar claro que vai rezar religiosamente na cartilha peemedebista.
Não havendo chance de compor com o PMDB, o caminho natural do PT será lançar chapa puro-sangue. A parceria histórica com o PCdoB deixou de ser ventilada entre os petistas desde as eleições do ano passado. Como não bastasse, a recente crise no Ministério dos Esportes, que é comandado pelos comunistas e teve desdobramentos em Juiz de Fora, só fez alargar o fosso entre as duas legendas no município. Com isso, uma composição nos moldes daquela da eleição de 2008, quando Margarida Salomão formou chapa com Ivan Barbosa (PT), é considerada a aposta menos arriscada. Em relação a nomes, a estratégia também é a mesma da disputa municipal passada, quando optou-se por um petista histórico para dar peso interno à dobradinha.
Castelar quer prévias para dialogar
A calmaria no PT de Juiz de Fora a sete meses do início da campanha levou o vereador Wanderson Castelar (PT) a encaminhar correspondência aos dirigentes estaduais de sua tendência pedindo indicação para disputar prévias com a ex-reitora da UFJF, Margarida Salomão (PT). De repente, o PT parou de dialogar com suas forças internas, e é preciso retomar isso, justifica o vereador, para quem a disputa pode contribuir para as discussões internas. O mal-estar gerado pela forma como se deu a filiação do ex-vereador Juraci Scheffer também teria contribuído, segundo ele, para o atual estágio do partido internamente. O ingresso de Scheffer foi contestado por integrantes do diretório municipal por meio de representação junto à instância estadual da legenda. O processo ainda permanece em aberto. Gerou-se um desgaste desnecessário, avalia Castelar. A tendência O Trabalho, da qual faz parte o vereador Roberto Cupolillo (Betão), também questiona o episódio.
Além do imbróglio envolvendo a filiação de Scheffer, Castelar lamenta a demora para se iniciar a formulação de um programa de Governo do PT. Historicamente, construímos nossas propostas em conjunto com a sociedade, mas até agora não fizemos nada. Chegar depois com um programa pronto não é a mesma coisa. O vereador cita como exemplo a recente visita feita pela secretária municipal de Saúde, Maria Helena Leal, à Câmara Municipal para apresentar um projeto de sua área. Ouvi a secretaria falar, mas sem saber qual a alternativa o meu partido tem para isso que está aí. Ele considera ainda necessário que a legenda comece a capitalizar para si as ações e obras do Governo federal realizadas no município. Essa discussão esteve inclusive na pauta de reuniões do diretório local.
O presidente do diretório local do PT, Rogério Freitas, concorda que programas como Minha Casa, Minha Vida e Bolsa Família, além do Restaurante Popular, são vinculados às gestões do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff e devem ser capitalizados pelo partido em Juiz de Fora. Isso vai ser falado no momento certo e na hora certa. Para o dirigente, as cobranças dos companheiros locais são naturais e condizem com a histórico da legenda. Na nossa última reunião do diretório, já teremos condição de aprovar um calendário e iniciar o próximo ano com atividades. Em relação às propostas para uma eventual administração petista, ele considera haver muito material formulado nos últimos anos que servirá como base para as novas discussões. É um processo de construção permanente.
Não só os bônus do Governo federal estão na pauta do PT local para a campanha do próximo ano, como a necessária proximidade com a presidente Dilma. A escassez de recursos do município e as dificuldades enfrentadas pelo Governo de Minas fazem da União uma parceira para lá de estratégica. É com esse entendimento que os petistas locais pretendem criar um mote para a campanha de 2012. Para isso, mais uma vez, a unidade dos partidos da base governista de Dilma é considerada quase uma condição. A cidade merece esse entendimento (entre PT e PMDB), afirma Rogério Freitas.
O dirigente lembra que, na última gestão de Tarcísio Delgado (2001-2004), os dois partidos caminharam juntos, bem como no segundo turno de 2008. O momento é de buscar o diálogo e manter a serenidade. As conversas iniciais têm revelado que é possível avançar muito ainda. O mesmo discurso é defendido também pelo vereador Flávio Cheker (PT). O partido vem forte com a candidatura da Margarida, e ela tem todas as condições de estar no segundo turno, com uma campanha vitoriosa. Para isso, acho importante mantermos conversação com os demais partidos, principalmente com o PMDB.
Reforma ministerial no caminho
Além de respeitar o tempo das articulações internas de possíveis aliados, é preciso esperar também o desenho final da reforma ministerial planejada pela presidente Dilma Rousseff para o início de 2012. O diagnóstico é de um petista local com trânsito em Brasília. Para ele, as eleições municipais vão afetar e serão afetadas pela arrumação a ser feita na Esplanada dos Ministérios. A proposta da presidente é conseguir, a um só tempo, ganhar mais eficiência administrativa, eliminando ministérios e trocando dirigentes de baixo desempenho, e nomear comandados com traços mais parecidos com o seu. Para isso, é praticamente inevitável arranhões na base governista, que podem ter reflexos direto no comportamento dos partidos aliados. Para se ter uma ideia, antes mesmo de a reforma ser anunciada, o PMDB já bateu o pé para não perder espaço.
Mesmo com o risco, cresce a aposta na redução do número de ministérios. A opinião do coordenador da Câmara de Gestão, Desempenho e Competitividade, Jorge Gerdau, de que é impossível administrar com 40 ministérios ainda ecoa em Brasília. A própria presidente tem relatado a assessores mais próximos ser impraticável manter os 38 ministros. A ideia com mais poder de prosperar envolve a fusão de algumas pastas. Outra aposta que circula com menos intensidade envolve o fim dos ministérios com porteira fechada, quando o partido assume todos os cargos importantes da pasta. Dessa forma, ficaria mais fácil abrigar todos aliados.
As duas medidas são vistas com desconfianças não só por aliados como pelo próprio PT, que precisa de espaço para manter no Governo as muitas tendências do partido. Na avaliação de petistas com larga permanência em Brasília, desarticular a arquitetura política de ocupação de ministérios e autarquias idealizada no Governo do ex-presidente Lula, embora desejável, não será tarefa fácil.








