Sem Itamar, Minas e Juiz de Fora perdem seu árduo defensor
Juiz de Fora se apequena com a morte do senador e ex-presidente Itamar Franco, único filho da terra – por mais que, na prática, tenha nascido no mar, lá no litoral da Bahia – alçado ao posto de chefe da nação em todos os 121 anos de República. Para a história política da cidade, sua ascensão ao Palácio do Planalto como o homem que realmente consolidou a democracia após mais de duas décadas de regime militar (além de cinco de um Governo civil eleito pelo voto indireto e mais dois anos que culminaram no escândalo que motivou o impeachment de Fernando Collor), foi quase uma redenção cívica depois do fato de terem partido daqui as tropas que precipitaram o golpe que mergulhou o país na ditadura.
Juiz de Fora fica menor sem Itamar porque perde uma de suas maiores lideranças políticas, para gregos e troianos. Tanto é assim que foi ele o principal responsável pela façanha da única derrota sofrida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas margens do Paraibuna: em 1994, quem venceu as eleições presidenciais no município foi Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ex-ministro e candidato de Itamar. O que não significa que o ex-prefeito, ex-presidente, ex-governador e senador da República fosse unanimidade. Pelo contrário. Oito anos antes, quando concorreu ao Governo de Minas contra Newton Cardoso (PMDB), que venceu a disputa, transformou-se na gota d’água que levou ao racha no secretariado da primeira administração do ex-prefeito Tarcísio Delgado (PMDB). A cisão entre os que apoiaram Itamar e os que ficaram ao lado de Newton foi tão forte que persiste ainda hoje, polarizada nas forças políticas opostas representadas pelo prefeito Custódio Mattos (PSDB) e pela petista Margarida Salomão.
Corrente ou incoerente?
Criticado pelas diversas passagens por diferentes partidos, apesar de ter mantido coeso seu grupo de itamaristas na cidade, passou pelo PMDB duas vezes e por duas vezes deixou a sigla pelas mesmas razões: ter sido preterido em relação a "Newtão", primeiro no desejo de ocupar o Palácio da Liberdade em 1986 e, exatos 20 anos depois, ao perder a vaga de candidato da legenda ao Senado. Incoerência para uns, coerência para outros.
Prefeito de Juiz de Fora por dois mandatos, de 1967 a 1970 e, mais tarde, em 1973 e 1974 (quando a gestão foi abreviada pela decisão de ir para o Senado), seu legado para a cidade não se resume aos bastidores das articulações políticas. Como chefe do Executivo, deixou obras importantes como a construção da segunda adutora, a abertura da Avenida Independência – que agora deve ser rebatizada em sua homenagem – e a canalização do córrego que passa pelo local.
Município foi contemplado com obras e ações
Se Itamar Franco deixou obras importantes para Juiz de Fora enquanto foi prefeito da cidade, também o fez como presidente da República, incluindo a realização de construções complementares àquelas feitas em seus anos de PJF. A começar pela terceira adutora, nascida de uma parceria entre o município e o Governo federal para ampliar o abastecimento de água. O investimento da União até o fim de 1994, quando ele deixou o Planalto, foi de cerca de R$ 15 milhões. Paralelo a isso, o Governo Itamar também investiu na barragem de Chapéu D’Uvas.
Depois de abrir a Avenida Independência, veio o Viaduto Augusto Franco, idealizado para transpor a linha férrea de modo a integrar melhor a Avenida Brasil ao restante dos sistema viário da região central da cidade e desafogar o tráfego. A obra foi feita com esforços conjuntos do município – cujo prefeito era Custódio Mattos (PSDB) -, do Governo do estado e do Governo federal, através da Rede Ferroviária. Além do viaduto em si, que na época foi orçado em cerca de R$ 1,7 milhão, fez-se também prolongamento da Rua da Bahia, bem como a construção da Ponte Nelson Silva e a complementação do sistema viário na área. As obras completas custaram em torno de R$ 4,1 milhões e o viaduto ainda recebeu o nome do pai do ex-presidente, Augusto Franco.
Educação e cultura
Só em 1994, último ano de Itamar na Presidência, Juiz de Fora recebeu investimentos da ordem de R$ 270 milhões repassados pelo Governo federal. A Prefeitura não foi a única contemplada. Com recursos da União, o Ministério da Educação, encabeçado pelo ministro Murílio Hingel, repassou verbas para a aquisição do Cine-Theatro Central, a construção de uma sede própria para o Colégio Técnico Universitário (CTU, atual IF Sudeste), a reforma e ampliação do Colégio João XXIII (de onde Hingel foi diretor), a criação do Centro de Estudos Murilo Mendes (atual Casa de Cultura) e a restauração do Forum da Cultura.
Antes de se lançar na empreitada do Aeroporto Regional, quando já era governador de Minas, o presidente investiu também na ampliação do Aeroporto da Serrinha, que na época teve sua pista ampliada em 220 metros de comprimento. As obras foram coordenadas pela Prefeitura e viabilizada por meio de convênios firmados entre o município e os governos estadual e federal. O investimento total foi de R$ 2 milhões.
Enfim, governador do estado
A ordem dos acontecimentos foi peculiar. Em dezembro de 1994, quando Itamar preparava-se para passar a faixa a Fernando Henrique, a Tribuna publicou um caderno especial sobre a trajetória política do então presidente da República. A reportagem também trazia a constatação de que, naquele momento, depois de quase quatro décadas de vida pública, o político carregava apenas uma frustração: não ter sido governador de Minas Gerais. A concretização do anseio havia sido impedida não só em 1986, mas também quatro anos antes, quando abriu mão da candidatura em prol de Tancredo Neves.
Esse sentimento de desilusão, porém, só durou mais quatro anos. Em 1998, as urnas trouxeram a realização do sonho – a essa altura incomum para quem já havia comandado todo o país – e o conduziram ao Palácio da Liberdade. Como quatro anos, na política, representam um tempo às vezes longo demais, o Itamar governador já não era mais o homem que havia ajudado a eleger seu ex-ministro da Fazenda como sucessor. Era, na verdade, crítico ferrenho da administração FHC. E isso ficou claro logo na campanha, com o lema "Levanta Minas", em que literalmente erguia a voz do estado contra o Governo federal.
Conforme noticiou a imprensa da época, a estreia de Itamar na função de governador provocou dor de cabeça em Fernando Henrique. Logo no dia 6 de janeiro de 1999, ele decretou moratória das parcelas da dívida mineira que venciam nos três primeiros meses do ano. Na ocasião, a dívida total do estado era de R$ 21 bilhões. A defesa nacionalista contra a política de privatizações implementada pela administração tucana o fez retomar judicialmente o controle acionário da Cemig, parcialmente vendida por seu antecessor, Eduardo Azeredo (PSDB). Ele também se insurgiu contra a privatização de Furnas, mobilizando até a Polícia Militar para intervir, caso fosse necessário.
Se, num vislumbre do futuro, a notícia da eleição de Itamar em 1998 tiver sido um ruído incômodo em Brasília, sua vitória soou como música nos ouvidos dos cidadãos da Zona da Mata mineira. Para a região, da qual foi o quarto representante no cargo máximo do estado, idealizou o Expominas e o Aeroporto Regional da Zona da Mata – apontados como ‘elefante branco’ por críticos e detratores -, na tentativa de atrair investimentos e minimizar o processo de estagnação econômico que persevera até hoje. Não viveu para ver o aeroporto funcionar. A tarefa de concluir a obra ficou para Aécio Neves e agora para Antonio Anastasia, ambos seus aliados, a despeito da ironia de representarem o mesmo PSDB ao qual fez oposição. De reeleição, ele não quis saber, talvez porque um sonho só se realize uma vez.
O caminho de volta ao Senado
Eleito em 2010 para seu terceiro mandato de senador, Itamar Franco nunca escondeu de ninguém seu desconforto ao retornar para o Congresso envolto em reiteradas crises. Em uma ponderação simbólica, reclamou do constante desrespeito ao Regimento Interno da Casa. Atualmente, participava da comissão que analisa as propostas de reforma política. Os seus cinco meses incompletos de mandato, no entanto, foram marcados por posicionamentos contundentes em relação ao Governo da presidente Dilma Rousseff. Ao comentar na manhã de ontem a morte do companheiro de Parlamento, o senador Aécio Neves (PSDB) falou da importância das vozes da oposição para a democracia e lamentou a perda da mais importante delas na atualidade.
Aécio, na verdade, foi o grande articulador do retorno de Itamar ao Senado. Os dois, ao lado do governador Antônio Anastasia (PSDB), realizaram campanha conjunta e vitoriosa em todo o estado. Antes, em 2006, quando o senador tucano buscava a reeleição como governador de Minas, a proposta de levar o juiz-forano ao Congresso havia sido ensaiada, mas não avançou por veto do PMDB. Filiado ao partido pelo qual havia exercido seus dois primeiros mandatos como senador e, mais recentemente, como governador, Itamar disputou prévia com o ex-governador Newton Cardoso, que contava com o apoio do PT. Derrotado, perdeu a chance de voltar ao Senado e acabou deixando definitivamente o PMDB.
Em 2008, ainda sem partido, teve participação direta na sucessão municipal de Juiz de Fora. Contrariado com o principal cacique do PMDB local, o ex-prefeito Tarcísio Delgado, o ex-presidente foi decisivo nas articulações que levaram o prefeito Custódio Mattos (PSDB) à Prefeitura. Um ano depois, filia-se ao PPS e inicia uma insistente campanha pela candidatura de Aécio à Presidência da República. Com o argumento de que havia chegado o momento de romper com a longa permanência de paulistas no poder, o juiz-forano chegou a visitar outros estados levando o nome do tucano mineiro como alternativa às pré-candidaturas de Dilma Rousseff e do ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Sem sucesso na empreitada, ainda assim ficou do lado de Serra na campanha de 2010.
Embora sempre discutisse internamente com aliados os cenários políticos nacional, estadual e municipal, poucas vezes Itamar externava suas opiniões. Antes de ser internado em maio, havia conversado longamente com o deputado Bruno Siqueira (PMDB), considerado hoje o único herdeiro político do itamarismo com mandato eletivo. Questionado alguns dias depois a respeito do diálogo como afilhado político, o ex-presidente desconversou e falou do hábito de ouvir os jovens. Sobre a uma possível candidatura de Bruno à Prefeitura de Juiz de Fora em 2012, Itamar considerou que ser prefeito foi a melhor coisa que lhe aconteceu. "Como prefeito, você faz parte do dia-a-dia das pessoas, olha nos olhos." Ao insistir se esse era o caminho a ser seguido pelo deputado, mais uma vez, o senador preferiu a mineiridade. "Acho que todo político deveria ser prefeito pelo menos uma vez."








