Na orelha da bola
Não é todo dia que o craque é craque. Não é todo dia que a bola quer entrar e não é todo dia que a rede quer balançar. Nós, que somos apaixonados por futebol, sabemos disso.
Sabemos porque não é todo dia que acertamos a mão no tempero do molho do macarrão. Às vezes não acertamos nem a medida do colarinho da cerveja em um copo americano.
Não é todo dia que acertamos nossos palpites no bolão, e não é todo dia que conseguimos ser educados como gostaríamos. Ou como pelo menos deveríamos.
Não é todo dia que conseguimos ser carinhosos e nem é todo dia que sabemos receber carinho.
Não é todo dia que conseguimos cantar no tom.
Que a divina providência nos livre, mas não é todo dia que conseguimos amar.
Não é todo dia que Bob Dylan escreve Like a rolling stone e não é todo dia que Rubem Fonseca escreve Romance negro e não é todo dia que Francis Ford Coppola dirige O poderoso chefão e não era todo dia que Van Gogh pintava Café terrace.
A gente entende isso também. Porque reconhecemos o talento, mas sobretudo o esforço, a vontade de fazer direito.
Entendemos porque não é todo dia que conseguimos acordar com um sorriso no rosto. Ou botar um sorriso no rosto de alguém, o que é ainda pior.
Não é todo dia que conseguimos colocar a serenidade acima da nossa fome, da nossa pressa, da nossa frustração, da nossa noção de responsabilidade ou de poder.
Também não é todo dia que Neymar faz aquele gol driblando meio time do Flamengo e não era todo dia que Martin Luther King proferia I have a dream e não era todo dia que Augusto dos Anjos escrevia Versos íntimos e não é todo dia que Michael Phelps ganha oito medalhas de ouro na mesma olimpíada.
Nós, que somos fãs de futebol, entendemos isso tudo e aceitamos: aceitamos a falta de inspiração, entendemos a falta de condições físicas, psicológicas, aceitamos a falta de sorte. Aceitamos o erro, mesmo quando (olha!) não é nosso erro. E mesmo no calor do jogo, diante das provas irrefutáveis dos carrinhos, dos tufos de grama voando e dos bofes para fora que conduzem à certeza transpirante de que houve entrega absoluta, aceitamos até a derrota.
Só tem uma coisa que nós, fãs de futebol, não aceitamos: o raio da preguiça.









