“Garotas Radicais” que percorrem Juiz de Fora de patins e skate protagonizam documentário sobre igualdade de gênero no esporte

Curta documental tem pré-estreia prevista para o próximo domingo (3/5), no Space JF, em evento com palestra, campeonatos e shows


Por Julia Valgas*

29/04/2026 às 07h00

IMG 5366
(Foto: Mayara Santos)

O curta documental “Garotas Radicais“, que explora a realidade das juiz-foranas que percorrem as ruas da cidade de skate e de patins, já tem pré-estreia marcada: uma exibição para o público será realizada no próximo domingo (3/5), às 18h30, no Space JF. O filme, produzido pela artista, pesquisadora e produtora cultural e esportiva Clara Downey, com cinegrafia de Duda Perrucho, conta a história de mulheres que unem liberdade, expressão e resistência ao desafiarem limites em um espaço ainda predominado pelos homens. O documentário foi produzido com apoio da Política Nacional Aldir Blanc, Funalfa, Prefeitura de Juiz de Fora, Ministério da Cultura e Governo do Brasil.

As “garotas radicais” têm nome e sobrenome

Apesar da presença ainda tímida em comparação com a quantidade de homens que praticam o esporte, a comunidade de meninas e mulheres no skate se reúne para se fortalecer. O Mapa das Minas, plataforma conecta praticantes de skate e patins de todo o Brasil, já reúne 478 mulheres com uma paixão em comum: o amor pelo esporte.

Marina Paiva, de 29 anos, é uma dessas esportistas. A educadora ambiental narra que começou a se interessar pelo patins em 2019, por influência de algumas amigas – entre elas, a Clara, produtora do documentário.

“Eu queria fazer alguma coisa para sair do sedentarismo, alguma coisa divertida que envolvesse atividade física”, relembra.

IMG 5541
(Foto: Mayara Santos)

Para Marina, a cena do skate e do patins está sendo construída agora, principalmente pela atuação de coletivos que garantem a união e o fortalecimento das suas pautas. “Desde muito cedo as meninas e as mulheres são criadas para ter mais cuidado com o corpo, a integridade física, para serem mais cuidadosas para não se machucar e a não ocupar determinados espaços, enquanto os homens são mais estimulados a serem aventureiros, mais livres, mais radicais, até mesmo rebeldes. Então é importante a gente ocupar esses espaços na vida adulta justamente para quebrar essas coisas que nos foram impostas na criação, mostrar que as mulheres podem ocupar locais como a pista de skate e também precisam de respeito“, defende.

Entre as micro violências que experimentam, Clara, Duda e Marina elencam as principais: o medo e vergonha de praticar o patins e o skate pela presença massiva de homens, o desrespeito às condutas éticas do esporte quando elas estão na pista, o medo de sofrer uma queda e o skatista passar por cima delas, além da falta de representatividade nos campeonatos, a ausência de incentivo social e político para a prática do esporte, os casos de assédio e a invasão do espaço pessoal delas.

Mais que um filme, um apelo por respeito

Durante a entrevista à Tribuna de Minas, Clara compartilha que o documentário surge de uma urgência pessoal e coletiva de se ver respeitada na cena local do skate e no universo dos esportes radicais: “os skatistas costumam dizer que ‘o skateboard é uma família’, e realmente, é uma família entre eles, porque eles se protegem muito. É uma cena visceral de injustiças e violências, sabe?”.

O filme propõe um olhar para as desigualdades não apenas no incentivo à prática delas no skate e no patins, mas também às segregações no uso e ocupação do espaço e para as violências de gênero que as mulheres experimentam na cena de Juiz de Fora. A cinegrafista do filme, Duda, aponta que escutar as demandas femininas contribui para construir um ambiente mais acolhedor para elas.

O curta é importante para dar a oportunidade para as mulheres falarem o que elas vivem, entender que são experiências, vivências, que se diferem uma da outra, mas que tem um ponto central: essa desigualdade dentro do cenário dos esportes radicais. E causar uma reflexão em como as pessoas olham para essas mulheres, sobretudo como os homens olham para essas mulheres”, reflete a cinegrafista.

Ciente das desigualdades de gênero no esporte, a produtora Clara indica que, para ela, a parte mais marcante na produção do filme foi  “sentir, de certa forma, o alívio nas mulheres que eu entrevistei por finalmente poderem falar sobre o que elas passaram […], ver o amor delas pelo esporte, porque, apesar de todas as dificuldades, elas são apaixonadas por isso e continuam enfrentando, dentro de suas possibilidades, para fomentar mais mulheres a estar ali e tornar o ambiente mais acolhedor”.

IMG 5039
(Foto: Mayara Santos)

Duda, por sua vez, reconhece que “ter participado (do documentário) como cinegrafista só corrobora com um propósito meu, pessoal, que é de ser uma mulher, negra, operando câmera ou atuando como cinegrafista em projetos audiovisuais, que não é algo recorrente, é uma área muito desigual também, assim como a prática de esportes radicais aqui na cidade”. “A gente percebe que a maior parte dos projetos tem homens nessas posições, na área de fotografia sobretudo”, comenta.

“Existe muita parceria, homens que estão engajados em promover nossa ocupação nesses espaços”, afirma Marina. Mas o apoio, segundo ela, ainda é pequeno em comparação às violências. “Eu gostaria que as pessoas que também frequentam esse espaço pudessem ter um pouco da noção de como existe uma dicotomia muito grande entre o gênero feminino e o masculino dentro da pista, porque parece que a gente vive em duas realidades diferentes”, finaliza Clara.

Serviço

Além da exibição do curta “Garotas Radicais”, às 18h30 no Space JF (Rua Leopoldo Schimidt, 200, no Centro de Juiz de Fora, a programação do evento prevê uma palestra com o rapper Coruja, shows com Nega Preto e os DJs Amanda Fie, Starbaby e Anditaum, e oficinas e campeonatos de skate e patins. O início está marcado para às 14h, no Viaduto Hélio Fadel Araújo.

Para participar da palestra, é necessário fazer uma inscrição prévia por este link. Já para as outras atividades, basta chegar e participar.

Outras informações podem ser encontradas nos seguintes perfis no Instagram: @prod.missratazana ou @space.jfmg.

*Estagiária sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes