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Obstáculos no caminho


Por WALLACE MATTOS

27/01/2013 às 07h00

Apenas alguns dias atrás, a cidade recebeu uma das equipes mais bem sucedidas do atletismo brasileiro, a BM&F Bovespa, de São Paulo, além de outros times de renome para um camping voltado para treinamentos e troca de experiências na UFJF. Durante uma semana, trabalhos na pista do Complexo Olímpico contaram com a participação de esportistas experientes como a saltadora Keyla Costa, além de aulas teóricas.

Atualmente, o único projeto aberto ao público, estruturado e voltado para a prática das modalidades de pista, além de saltos, arremessos e lançamentos, acontece na UFJF, através de um convênio com o programa Minas Olímpica, da Secretaria de Estado de Esporte e Juventude, com apoio do Rodoviário Camilo dos Santos. A iniciativa atende hoje cerca de cem crianças e adolescentes entre 7 e 16 anos e é coordenada pelo professor da Faculdade de Educação Física e Desportos (Faefid) Jorge Perrout. Segundo ele, a prática do atletismo na cidade ainda engatinha.

"Está muito na base ainda. Há um ou outro atleta isolado na transição para o adulto que apresenta bons resultados, principalmente em corridas de fundo. Isso porque, em Juiz de Fora, o Ranking de Corridas de Rua é algo consolidado e que tem contribuído muito para o desenvolvimento do atletismo dentro dessa especialidade de corridas de resistência. Mas, fora disso, estava parado. Começamos no último ano, movimentando as categorias de base, trabalhando com crianças. Então, para ter resultados no nível adulto, vai levar alguns anos", projeta Perrout.

Abnegados

Historicamente, o atletismo local sempre dependeu de ações voluntariosas, mas que acabaram não tendo continuidade, como conta o técnico José Augusto "Guto" Pereira, militante da modalidade há mais de 30 anos. "O atletismo em Juiz de Fora sempre se desenvolveu por conta de iniciativas isoladas, desde os anos 1970, quando o Sport filiou à Federação Mineira de Atletismo uma equipe formada por universitários que já treinavam na pista antiga da Federal. Sempre houve pouquíssima estrutura e apoio, contavam com profissionais abnegados e muito improviso. Por isso, os resultados acabaram sempre sendo isolados e sem continuidade. Há uma grande tradição nas corridas de rua em Juiz de Fora, mas o atletismo é muito mais do que corrida. É uma modalidade democrática com diversas potencialidades que podem ser aproveitadas em qualquer pessoa. O caminho para se criar atletas está em descobrir isso na idade escolar", diz.

Guto chegou a desenvolver, em meados dos anos 2000, um projeto semelhante ao que hoje acontece na UFJF, ainda na pista antiga – feita de terra -, em parceira com a Caixa Econômica Federal. "A ideia era oferecer o espaço às escolas. Mas é muito difícil sem o apoio, por exemplo, do poder público. Tínhamos – hoje, melhor ainda – o material, o espaço e os recursos humanos, mas o acesso do principal público-alvo, as crianças e adolescentes, sempre foi difícil por conta de questões estruturais, como transporte, por exemplo. Hoje, o Jorge comanda um programa com o mesmo foco. Você vai à pista e ela está cheia, mas poderia ter mais. Com o envolvimento da Prefeitura, daria para expandir. Mas está certo, tem que começar lá embaixo mesmo. A tendência é crescer, ainda mais com esse equipamento de alto nível que existe no Complexo Esportivo da UFJF", acredita.

 

Futuro

Além da UFJF, a única pista com medidas oficiais para a disputa de provas de atletismo em Juiz de Fora é a do Colégio Militar, onde os alunos da escola participam de um projeto que tem planos de expansão. "Trabalho o desenvolvimento do atletismo somente com os alunos do Colégio Militar, mas tenho planos de ampliar isso. Quem sabe com uma parceria com a UFJF, consigamos trazer um núcleo do programa deles para cá e abrir para a comunidade", sugere o técnico Alexandre Salimena, há dez anos militando no atletismo local.

A intenção de Alexandre casa com a do coordenador do programa da UFJF que buscará, ainda este ano, uma maior aproximação com a Prefeitura. "Uma das principais limitações que temos é atuarmos basicamente no entorno da UFJF, atendendo somente pessoas de São Pedro e bairros próximos. A intenção é formar novos núcleos, principalmente em bairros mais afastados. Aí sim, teríamos um crescimento exponencial no atletismo juiz-forano. Imagina quantos talentos existem espalhados por aí?", questiona Perrout.

Para o técnico de atletismo Marcus Vinicius da Silva, que até o fim de 2012 era coordenador do Ranking de Corridas de Rua e assistente executivo de iniciação e formação esportiva da Secretaria de Esporte e Lazer (SEL), o crescimento da modalidade depende de buscar novos talentos nas escolas. "Não é porque as instituições de ensino não têm espaços adequados que o colégio não pode oferecer uma introdução ao esporte. A Confederação Brasileira de Atletismo tem, em seu site (www.cbat.org.br), orientações do projeto Miniatletismo da IAAF – a Associação Internacional das Federações de Atletismo. Através dele, ensina-se, de forma adaptada, a utilizar espaços como uma quadra, por exemplo, para atender a esse primeiro contato da criança e do jovem com a modalidade", explica Marcus Vinicius.