‘Eu posso brincar também’

Jadir, Alexandre, Marcelo e Hionara: iguais a todo mundo (Olavo Prazeres/23-07-15)
Juiz de Fora está pronta para invadir a praia. Centenas de corredores se prepararam durante meses com foco voltado para o desafio da Maratona do Rio de Janeiro. O evento acontece na manhã de hoje, percorrendo o deslumbrante cenário da orla carioca. Entre aqueles que vão encarar os 42km ou os 21km da meia maratona, ou mesmo os 6km da Family Run, os juiz-foranos se mobilizaram para o evento, comprovando o futuro promissor que a cidade tem para a corrida de rua.
Os números não mentem: houve mais de 6.500 participações nos cinco maiores eventos realizados em Juiz de Fora ao longo do primeiro semestre de 2015. Isso considerando apenas as provas principais da Corrida da Suprema e do Granbery, Speed of Sound, Meia Maratona de Juiz de Fora e Corrida da Fogueira. Se somados os inscritos nas caminhadas e desafios de menores distâncias nesses eventos, o número cresce ainda mais. Para o desafio no Rio de Janeiro, ao menos quatro ônibus foram contratados para o transportes de atletas juiz-foranos, além daqueles que organizaram suas viagens por conta própria.
“Algumas pessoas falam que é modismo. Eu vou contra. É a conscientização de que precisam colocar o esporte na própria vida”, avalia Gedair Reis, aos 60 anos, um dos corredores veteranos da cidade, que se preparou para a décima maratona com o apoio da UFJF e da Sintufejuf. “Muitos saem do alcoolismo e tabagismo por conta da corrida. Primeiro as pessoas precisam mudar a rotina. Para tudo na vida tem que haver um ponto de equilíbrio. Custa pouco mudar muito a própria vida.”
De todos os desafios, o mais estimulante
E quando superar uma grande distância significa também a superação de um limite do próprio corpo? Para alguns juiz-foranos, ter fôlego para correr entre 3h e 6h é só mais um desafio de quem vive maratonas diárias para desempenhar tarefas corriqueiras para a maioria. Para-atleta campeão da Meia Maratona do Rio de Janeiro de 2014, Jadir Silva não permitiu que a deficiência auditiva fosse uma barreira para ter qualidade de vida, e agora tenta o bicampeonato.
“Eu me sinto melhor correndo. Tenho melhor qualidade de vida para trabalhar. Sem fazer atividade física, fico nervoso, me sinto diferente. Estou muito motivado. Espero trazer um bom resultado para servir de exemplo para outras pessoas. É importante para outros deficientes virem correr também, para a gente montar uma equipe. É importante para eles saírem de casa, não ficarem só no sofá comendo e vendo televisão. Acho que sou um exemplo para outras pessoas. Quero que outros deficientes auditivos venham”, diz Jadir, que já dedicou à corrida dez dos 54 anos de vida, mas depende da ajuda financeira da Equipe Para-Atletas Clube Bom Pastor, que auxilia desde a doação de tênis para corridas até o transporte para eventos distantes de Juiz de Fora.
Um dos companheiros de equipe de Jadir pode dizer que nasceu duas vezes. Aos 17 anos, Alexandre Rosa ajudava na reforma da casa de um amigo, quando, em um descuido, esbarrou uma barra de ferro na rede elétrica, recebendo uma descarga de 12.600 volts. Entre a vida e a morte, Alexandre ficou com a primeira opção, mas teve parte do braço direito amputado. Agora, aos 36 anos, está pronto para a maratona e espera reviver a emoção de completar uma prova de longa distância um ano depois de fazer 21km na Cidade Maravilhosa. “Tive que recomeçar minha vida. Dependia das pessoas para fazer tudo. Com o tempo, fui me adaptando. Em 1999, comecei a correr para manter o físico e tomei gosto pelo esporte. A sensação é espetacular. Só quem participa é que sabe. Sei que Deus me deu uma nova oportunidade de viver. A corrida me deixou mais solto e alegre”, afirma Alexandre.
Sonhos demolindo limitações
A beleza da orla carioca vai ser o cenário que motivará os 26 mil competidores. Mas a juiz-forana Hionara Botti, 44 anos, não vai poder apreciar o trajeto em toda a sua grandiosidade. Com apenas 7% da visão, a para-atleta tem dificuldade para enxergar o chão, e qualquer pequeno buraco pelo caminho pode representar um perigoso obstáculo. Nada que tire a determinação para participar da primeira maratona. “Eu comecei a correr na esteira, era impossível correr na rua. No ano passado eu estava esperando um amigo terminar uma maratona e via as pessoas passando, sentindo muita dor mas com cara de felicidade, e eu pensei que era aquilo que eu queria. Comecei a treinar em dezembro, mas ainda acho que é uma loucura”, diverte-se Hionara. “Superei a limitação que eu achava que tinha por um sonho, pelo prazer do esporte.”
Para orientar os passos de Hionara nas corridas, a para-atleta confia no guia Marcelo Montenegro, 48. Um trabalho indispensável para o deficiente visual, e recompensador para quem o desempenha. “É ótimo, principalmente para o coração. Ver um para-atleta feliz traz muito mais felicidade para você. Eu vibro com isso. Ser guia não é só chegar e correr. Você tem que buscar em casa, treinar durante a semana, dar carinho, participar da vida. E a gente ganha o dobro sendo os olhos dos atletas. São duas pessoas em uma só. O atleta tem que ter confiança em você. Eu me sinto realizado”, vibra Marcelo, que se dedica à função de guia há seis anos.
Entre atletas “comuns” e os que precisam superar deficiências, a corrida tem o poder de mudar a vida das pessoas. Uma porta aberta para viver melhor, mesmo enfrentando adversidades pelo caminho. “É uma sensação de liberdade. E de igualdade também. Se eu for jogar futebol, não vai ser de igual para igual. Eu não vou ver a bola. Na corrida, todo mundo tem a sua limitação”, constata Hionara. “Ali todo mundo é igual. Eu posso terminar, e alguém muito mais novo pode ter uma cãibra e não completar. É uma ótima sensação estar ao lado de milhares de pessoas e ser igual. Eu nunca fui. No colégio, todo mundo brincava e eu ficava sentada com o professor sem poder brincar. E de repente eu entrei na brincadeira. Eu posso brincar também. Eu era muito triste, o peso da deficiência era muito grande para mim. Minha vida mudou com a corrida.”
‘Ultraman’ vai fazer o percurso duas vezes
Se os 42km da Maratona parecem muito, essa distância será somente um treino para Gláucio Monte-Mór. Aos 37 anos, o ultramaratonista juiz-forano vai criar seu próprio desafio, duplicando o percurso da prova. “Vou começar pela chegada. À 1h30, saio do Aterro do Flamengo até a largada da Maratona, no Recreio dos Bandeirantes. Devo chegar por volta das 6h30 e aguardar a largada, às 7h30, voltando pelo trajeto contrário. Vai ser um treinamento para uma ultramaratona que farei em agosto. Serão 24h de corrida. Em 2014, corri quase 158km e fiquei em décimo lugar. Vou tentar superar essa distância”, projeta Gláucio, fazendo o percurso duplo de uma maratona – 84km – parecer pouco.
Com dez anos dedicados às corridas, o ultramaratonista consegue perceber o crescimento do interesse do juiz-forano pelo esporte. “Quando comecei, eram no máximo 200 pessoas participando. De 2009 para 2010, realmente houve uma mudança muito grande, um crescimento enorme. Algumas corridas de Juiz de Fora já se comparam em estrutura às do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo horizonte”, diz Gláucio, que recentemente participou de uma ultramaratona de 90km, na África do Sul, que o fez perceber pontos que ainda precisam evoluir no Brasil.
“O negativo é que a população ainda não se conscientizou. Na corrida que estive na África do Sul, eram quase 17 mil pessoas correndo entre duas cidades, e a população local dá um valor absurdo ao evento. A estrada foi totalmente fechada, as famílias se reuniam para bater palmas para os corredores. Ofereciam até alimentos para as pessoas. Aqui, se você fecha o trânsito para uma prova, o pessoal xinga, buzina, reclama.”









