Na quadra, ele prefere falar pouco e agir rápido. Sem rodeios, sem tempo a perder. Com mais de três décadas dedicadas ao handebol, Carlos Augusto Porto, o “Guto”, construiu sua carreira principalmente dentro das escolas, formando equipes competitivas e acompanhando de perto o desenvolvimento de jovens atletas. Aos 60 anos, o professor, com mais de 20 anos de Colégio Granbery e atualmente na Academia, segue em atividade e mantém a mesma linha de trabalho que adotou desde o início.
Guto é o sexto personagem da série “Fala, Mestre”. Nela, a reportagem conta histórias de treinadores dos mais diversos esportes na cidade. A intenção é valorizar a trajetória, relembrar personalidades marcantes e reforçar o poder da atividade física na transformação social, no lazer e na saúde, sobretudo sob o acompanhamento de profissionais da área. Até o momento, foram publicadas matérias com Gerson Willian, do futsal; Altina Carla, do muay thai; Giselle Muniz, da natação; Zirlene dos Santos, do atletismo; e, por último, de Ivan Gal, do futsal.
História de Guto
O primeiro passo como treinador veio antes mesmo de qualquer planejamento. Aos 21 anos, ainda jogador, recebeu um convite inesperado para assumir a equipe adulta de handebol do Tupynambás. “Eu tinha sofrido um acidente de moto, estava bem machucado, mas aceitei. Eu treinava, mas nunca tinha sido técnico”, conta. A estreia no comando técnico veio com título logo no primeiro ano, em 1990, nos Jogos do Interior de Minas Gerais (JIMI).
Depois de uma breve pausa para recuperação, assumiu também o time feminino do clube. O caminho, no entanto, mudaria de direção. Saiu do adulto e decidiu concentrar energia no ambiente escolar, onde encontrou espaço para desenvolver seu método.
Passou pelo Colégio Florindo Burnier, onde estruturou o handebol do zero. “Fiquei quatro anos, montei tudo, mas acabei saindo quando entrou um professor efetivo”, revela. Em seguida, viria o período mais longo: duas décadas ligadas ao Granbery.
Com o tempo na escola, vieram títulos, sequência invicta e atletas que ganharam destaque. Entre eles, nomes como Felipe Santoro, que seguiu carreira em nível universitário, e jogadores premiados no cenário local. No currículo de Guto, são 26 conquistas estaduais, sendo 15 no juvenil masculino.
Formação é o mais importante
Apesar dos números, o que ele valoriza não cabe em medalhas. “A maior satisfação é ver o caráter que ajudamos a formar. Dei bolsa para mais de 20 alunos. Muitos se formaram, alguns com 100% de bolsa em educação física. Isso, para mim, é o mais importante“, frisa o professor.
Nos treinos, Guto tem como prioridade transmitir valores. “Sempre tento passar honestidade, disciplina, respeito e a importância dos estudos. O handebol é um meio, não o fim”, defende. A forma de conduzir o trabalho acompanha essa ideia: atividades diretas, ênfase em fundamentos e pouco espaço para improviso sem base. “Sem fundamento, o coletivo vira só uma pelada”, afirma.
Hoje, ele divide a rotina entre o Colégio Academia e o Colégio Patrus de Souza. Ao olhar para a cidade, vê mudanças no cenário. “Antes tínhamos várias equipes fortes no mesmo nível. Hoje são poucas. Falta continuidade, falta base. A pandemia piorou isso”, avalia. Para ele, a ausência de equipes profissionais também pesa: “Tira referência dos jovens. Quando tinha, era diferente”.
“Incentivava na vida”
Quem foi treinado por Guto reconhece o impacto dele. Ex-atleta, Pedro Coutinho, de 16 anos, relembra o período. “Os treinos eram ótimos. Mesmo com o tempo limitado, ele aproveitava tudo e conseguia ensinar muito para o time”, conta.
Segundo Pedro, a cobrança vinha acompanhada de orientação fora do jogo. “Dentro de quadra, ele ensinava a jogar para ganhar, mas sempre com respeito. Fora, incentivava nos estudos e na vida”, garante. Juntos, conquistaram dois intercolegiais e um vice-campeonato dos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG).
A relação, diz o adolescente, ia além do esporte. “Ele sempre foi competitivo, mas também parceiro. Não via a gente só como atleta. Tudo foi marcante, porque os treinos eram muito descontraídos e leves”, finaliza.

