Quem não sonhou em ser?
"Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?" Decantada em verso e prosa, a pergunta virou hit na voz de Samuel Rosa, acompanhado dos músicos da banda mineira Skank, no início dos anos 1990. De tão óbvia, a resposta é do conhecimento de todos. Salvo as exceções que confirmam a regra, 11 entre 11 garotos brasileiros imaginam desfilar seu talento com a bola nos pés em um Maracanã lotado. Praticamente uma histeria coletiva, esse desejo é compartilhado por meninos e meninas país afora. Mas existe uma fórmula de sucesso? Para que a resposta a essa pergunta não se apresente simplesmente em forma de negativa, especialistas no assunto dão dicas que podem ajudar jovens valores locais a abrir algumas portas no universo futebolístico.
"O talento vai ser sempre o grande diferencial. Talento não se aprende, nasce com a pessoa, então, não é para todos. Mas o que não adianta é ser apenas talentoso e não estar preparado para o futebol de hoje. Entender a movimentação em campo, ter comprometimento e perceber a variedade de missões táticas e o posicionamento mudando de acordo com essa variação, eu diria que também é fundamental."Quem ensina o caminho das pedras é ninguém menos que Arthur Antunes Coimbra, o Zico, um dos grandes ídolos das últimas gerações.
Em setembro passado, o eterno camisa 10 do Flamengo, Udinese (Itália), Kashima Antlers (Japão) e da Seleção Brasileira, lançou uma rede social na internet (pnera.com) voltada para jogadores de futebol, profissionais da área e garotos que sonham em alavancar suas carreiras. "Nunca foi muito fácil conseguir chegar a um grande clube. Cada vez mais, a dificuldade aumenta. O número de meninos que sonham em ser profissionais do futebol é imenso, até mesmo pela proporção global que a coisa tomou. Foi pensando nisso e nas nossas próprias dificuldades que criamos esse espaço para dar chance a alguns meninos de provarem seu talento." A iniciativa é uma parceria entre o Galinho de Quintino e o craque Ronaldo Fenômeno.
Treinar é preciso
Responsável pelo site Olheiro Digital (www.olheirodigital.com.br), que tem como foco revelar e recolocar atletas parados no mercado, Guilherme Lima acredita que o segredo para o sucesso nos gramados está na dedicação. "Treino, treino, e muito treino… É preciso uma busca contínua de aperfeiçoamento, principalmente em seus pontos fracos. Ou essa garotada acha que o Ronaldinho Gaúcho aprendeu a bater na bola daquele jeito com as duas pernas sem fazer nada?"
Para ele, as escolinhas têm relevância na formação do atleta, e a fórmula mágica para um garoto ser aprovado em uma peneira reside exclusivamente em suas características. "As escolinhas servem para o primeiro passo, sendo esse um dos mais importantes. Lá, os garotos têm o primeiro entendimento do que é uma posição dentro de campo e quais suas características para tal. Escolinhas e peneiradas andam juntas. A peneira traz uma experiência que não é recorrente na escolinha. A pressão é bem maior, e o fator psicológico conta demais. Técnica e condicionamento físico são princípios básicos. Capacidade de jogar em equipe também. Mas dou um foco maior à personalidade. Isso difere garotos de atletas."
Plano B
Diretor do site olheiros.com, Aldo Azevedo reforça que, por todas as dificuldades que existem na estrada que levam ao sucesso no mundo do futebol, é sempre preciso ter um plano B. "A persistência é o caminho. A estrada é difícil e longa, e nem sempre os melhores chegam. Não abram mão dos estudos nem do seu talento, pois são coisas que ninguém toma da gente."
Da várzea para o mundo inteiro
Olheiro e descobridor de talentos locais, Alaor Oliveira da Costa, que afirma ter revelado o atacante Kim, atualmente no Vasco e com passagens por Tupi, Atlético-MG e pelo futebol árabe e europeu, revela o perfil das jovens promessas que se destacam na várzea juiz-forana. "É importante que os jogadores passem por escolinhas, seja de clubes ou de periferias. Funciona como uma base. Depois, a disputa de torneios regionais, como a Copa Prefeitura/Bahamas, é onde o jogador pode mostrar sua qualidade dentro de campo, onde já é possível detectar algumas características que demonstram o potencial de cada garoto."
Alaor, que atualmente orienta a carreira de quatro jovens talentos locais – os atacantes Rafael Santos (19 anos, que disputou o último Campeonato Brasileiro Sub-20 pelo Fluminense) e Melqui (19, Barra Mansa); o volante Vinícius (20, Barra Mansa); e o goleiro Jean (20, Barra Mansa) -, ressalta que características extracampo e físicas também podem ser determinantes para quem almeja se dar bem no mundo da bola.
"É importante também trabalhar suas características extracampo. A vontade de seguir nos gramados, a capacidade de conseguir ficar longe da família e dos amigos. Hoje em dia, o biótipo é muito importante. Um jogador com boa estatura, mesmo que, em alguns casos, não tenha tanta qualidade, pode conseguir cavar seu espaço. São atletas que podem ser aproveitados como zagueiros ou atacantes de área. O mercado pede isso. Os de menor estatura também podem ter maior facilidade atuando como laterais, alas ou armadores, por exemplo."
Breve estudo de casos de sucesso
Para quem quer ser um jogador de futebol, a distância que separa o sonho da realidade é enorme e exaustiva. Um caminho marcado por muita dedicação, força de vontade, dor, saudade, perseverança e abdicação. Percurso que dois jovens juiz-foranos estão trilhando, em momentos distintos, almejando chegar à estação final da consagração.
Quatro anos separam os atacantes Thomás Jaguaribe, 18 anos, e Gustavo Marcelo Cardoso Soares, 14, mas já é possível apontar uma diferença significativa na trajetória dos dois atletas locais. A carreira do primeiro deu uma guinada na temporada 2011. De campeão da Copa São Paulo de Juniores, em janeiro, a opção constante no banco de reservas da equipe profissional do Flamengo nos últimos meses do ano passado, Thomás é uma realidade no mundo futebol. "A maior dificuldade nessa transição foi a adaptação ao ritmo dos profissionais. Tive que ralar muito no começo. Agora já está tranquilo. Estou bastante confortável e fui bem recebido por todo o grupo."
Por outro lado, Gustavo desponta como promessa. No mês passado, o atacante integrou a equipe do Coritiba que se sagrou campeão brasileiro sub-15. "É um título que pode abrir muitas portas em meu futuro", aposta o garoto, que marcou um gol na decisão contra o Grêmio (4 a 4, no tempo normal, e 5 a 4, nas penalidades).
Independente da idade, as diferenças cessam quando os jovens relembram o começo de tudo. "O sonho de ser jogador vem desde pequeno. Aos 4 anos, já estava em uma escolinha. Com 13 anos, já mudei para o Rio de Janeiro, onde as coisas começaram a acontecer", conta Thomás. Sentimentos e recordações bem similares às de Gustavo. "Isso sempre fez parte do meu pensamento. Comecei com 5 anos no futsal. Com 9, fui para o campo e já sabia que iria fazer o que fosse preciso para seguir esse caminho."
O discurso dos juiz-foranos Thomás e Gustavo também está alinhado quando falam de todas as dificuldades que vivenciaram para conseguir realizar um sonho que é compartilhado por muitos jovens garotos. "É preciso abrir mão de muita coisa. Vejo todos os meus amigos saírem para se divertir, enquanto tenho de ficar concentrado. Meu tempo é dividido entre estudar e treinar", conta o atacante do Coxa. A revelação rubro-negra reforça os percalços que precisam ser superados para a realização e o reconhecimento no mundo do futebol. "Foi duro ficar distante da família, dos amigos, da namorada. Para vencer no futebol é preciso abdicar de muita coisa que um adolescente faz. Mas, no meu caso, já valeu a pena. É recompensador jogar em um estádio lotado, ouvir a torcida gritando meu nome, jogar ao lado de craques como Love e Ronaldinho."









