Juiz de Fora tem mais de 80% das florestas com menos de 30 anos; dado ajuda a explicar impactos das chuvas
Pesquisador da UFJF explica que florestas jovens reduz a capacidade de estabilização do solo e reforça a importância da conservação da vegetação para enfrentar eventos extremos
Em 1915, o Morro do Cristo, na região central de Juiz de Fora, tinha uma paisagem bem diferente da atual. Fotografias da época mostram a área praticamente sem vegetação, resultado do avanço da ocupação e da agricultura. Mais de um século depois, parte da cobertura florestal se recompôs, mas ainda é formada, em grande parte, por florestas jovens. O mesmo processo pode ser observado em outras regiões da cidade, como a Serra do Bandeirantes, o Morro da Glória e o Bom Pastor.
Essa característica ajuda a explicar uma dúvida que surgiu após os deslizamentos provocados pelas chuvas extremas de fevereiro: por que algumas encostas cederam mesmo onde havia vegetação? A resposta passa pelo tempo de regeneração desses espaços. Segundo dados do MapBiomas, mais de 80% das florestas do município têm menos de 30 anos. Segundo o pesquisador Fabrício Alvim, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), essas áreas ainda não recuperaram plenamente funções ecológicas importantes, como a estabilização do solo e a infiltração da água — fatores que ajudam a aumentar a resiliência da cidade diante de chuvas intensas.
A vegetação que já começa a cobrir a marca deixada pelo deslizamento no Morro do Cristo é um exemplo desse processo de regeneração natural. Segundo Alvim, áreas abertas passam a ser ocupadas por espécies de plantas pioneiras mais rústicas e oportunistas, que chegam “para cicatrizar o ambiente”.
Embora esse processo seja visível poucos meses após o deslizamento, a recuperação completa da vegetação é muito mais lenta. O professor explica que o amadurecimento de uma floresta pode levar séculos. “Nossos estudos de monitoramento no Jardim Botânico da UFJF mostram que florestas com mais de 80 anos de regeneração natural ainda se comportam como florestas secundárias iniciais e estão longe de atingir a maturidade, devido ao forte uso agrícola pretérito do solo”, explica Fabrício.
Vegetação recente tem relação histórica
Juiz de Fora teve seu processo de desenvolvimento marcado pela exploração do solo com o avanço da economia agroexportadora de café, que transformou grande parte das matas nativas em áreas de cultivo. De acordo com o pesquisador, a expansão da cafeicultura provocou intenso desmatamento, reduzindo a cobertura florestal a aproximadamente 5% do território municipal.
Com a crise econômica de 1929 e o abandono de muitas áreas agrícolas. Parte dessas terras, as que não viraram área de pasto, passou a se regenerar naturalmente, dando origem às florestas que hoje ocupam em torno de 27% do município, segundo o MapBiomas. No entanto, esse processo ainda está em andamento e não foi suficiente para devolver todas as funções ecológicas perdidas ao longo da degradação histórica.
O papel das árvores
As árvores desempenham um papel fundamental na estabilização do solo e contenção de encostas. As raízes ajudam a manter o solo firme e protegido, enquanto as copas reduzem a força da chuva sobre a superfície, diminuindo a erosão e o risco de deslizamentos. Apesar disso, a presença de árvores não impede todos os deslizamentos.
Conforme Alvim, as vistorias realizadas depois das chuvas de fevereiro identificaram principalmente a queda de espécies de raízes superficiais e ciclo de vida curto, como as bananeiras, cujo peso pode favorecer o desbarrancamento em áreas mais íngremes. Mesmo florestas maduras podem ceder em terrenos muito inclinados e com solos rasos, quando submetidas a chuvas extremas.

No caso de Juiz de Fora, a predominância de florestas jovens também influencia a capacidade de proteção do solo. Diferentemente de uma mata madura, essas áreas ainda possuem raízes menos profundas e menos extensas, menor quantidade de matéria orgânica e de serrapilheira no solo, além de menor complexidade da vegetação. Com isso, têm menor capacidade de ancorar o terreno, absorver e reter a água da chuva, ficando mais vulneráveis à erosão durante eventos intensos.
Ainda sobre a situação do município, o professor ressalta que a maior parte das áreas atingidas por desmoronamentos já possuía histórico de ocupação irregular ou riscos no passado.
“Estamos realizando um diagnóstico ecológico das principais áreas, mas os dados preliminares já indicam que a maioria dos deslizamentos ocorreu em locais desprovidos de vegetação, e com outros fatores de risco proeminentes (ex. redes irregulares de drenagem e esgoto). As nossas florestas jovens só tornarão adultas e com maior capacidade de ancoramento se forem protegidas.”
Pesquisador defende criação de Comitê de Crise Climática

Após os deslizamentos de fevereiro, diversas áreas voltaram praticamente ao início do processo de regeneração. Segundo o pesquisador, permitir que essas florestas amadureçam depende principalmente da conservação das áreas remanescentes e da restauração das regiões degradadas, com proteção contra incêndios, uso de técnicas naturais para melhorar a qualidade do solo e fiscalizações mais rígidas.
Ele também defende o fortalecimento das políticas ambientais, com ampliação das unidades de conservação, atualmente concentradas na área urbana, e a implementação das ações previstas no Plano Municipal da Mata Atlântica, desenvolvido pelo professor e a equipe do Laboratório de Ecologia Vegetal da UFJF e homologado pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) em 2025.
“As florestas são um elemento importante da resiliência climática, mas não o único”, diz o pesquisador, que, em seguida, defende que para aumentar a resiliência da cidade diante de eventos extremos é necessário integrar conservação ambiental, planejamento urbano e obras de engenharia.
“O primeiro passo é a criação de um Comitê de Crise Climática com especialistas de várias áreas atuando em conjunto. E isso é urgente diante dos efeitos do Super El Niño que se aproxima.”













