Na orelha da bola: Eu também perdi, Deivid
Deivid, eu já perdi um gol tão feito como aquele que você perdeu ontem. Mas não era em um clássico estadual. Na verdade, não era nem em uma pelada que valesse caixa de cerveja.
Eu já perdi um gol muito feito também, mas não tinha milhares de pessoas vendo das arquibancadas, nem milhões assistindo pela TV. Tinha um cara dormindo do lado de fora do campo de grama sintética e mais dois agarrados no alambrado, esperando a vez deles.
Tudo bem, Deivid. Não tem problema. Isso acontece. Já aconteceu comigo, embora o meu preparo físico seja o de um homem esquálido de 37 anos, fumante eventual, bebedor fundista, cuja única atividade física além das esparsas peladas de sábado sim, sábado não, sábado também não seja não mais que uma hora por dia na academia, puxando ferro dia sim, dia não, dia também não. E sem forçar muito, que é pra evitar a fadiga.
Eu te entendo Deivid. Eu também perdi esse gol, mas diferente de você, meus colegas não baixaram a cabeça discretamente desolados. Pra ser sincero com você, e eu te devo isso, pois é um cara que não recebe salário há mais de um ano e mesmo assim está aí, correndo atrás da bola, suando a camisa… pra ser sincero, a pelada quase acabou ali, de tanto que eles riram de mim. Rolavam no chão, guinchavam feito macacos e hienas do inferno.
Perdi um gol tão feito que eles esqueceram do dia em que eu dei o chapéu em um zagueiro do tamanho do Apolo Doutrinador, matei no peito e fuzilei o goleiro, as redes e a parede da quadra. Um golaço que nem você, Deivid, fez com a camisa do Flamengo. Mas eu fiz. E sem camisa.
Agora, vira e mexe eu tenho que lembrar meus detratores dessa pintura quando, nas mesas de lata das calçadas da vida, a piadinha do gol mais feito não feito da minha vida vem à tona dos copos, dançando feito a mulher do cão sobre a espuma branca. E você, meu caro Deivid, é bom fazer uma lista de todos os seus golaços. Depois de ontem, você, figura pública, camisa 9 do clube de maior torcida do Brasil, vai precisar deles bem mais do que eu.









