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Na orelha da bola: em um futuro não muito distante


Por Wendell Guiducci

22/03/2012 às 06h00

Eu fico pensando é daqui a 30 anos, o cara assistindo à decisão da Libertadores da América entre o Red Bull Brasil e o Chivas Guadalajara com o neto diante de um microprojetor holográfico sobre a mesa de um quiosque à beira-mar em Duque de Caxias, depois que o mar já tiver engolido vários e vários quilômetros da costa brasileira. O mais novo babando no futebol do filho do Obina, chamado de a Joia de Campinas, revelado nas categorias de base do Red Bull e com pré-contrato assinado com o Changchun Yatai, quatorze vezes campeão chinês e heptacampeão do Mundial de Clubes da Fifa.

– Joga demais esse Obina Júnior, né não, vô?

– Tinha que ver é o pai dele.

– Craque de bola?

– Não, um horror. Mas tinha carisma.

– Mas fez sucesso na época dele?

– Fez, assim como Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

– Heim?!

– Nada não, presta atenção no jogo aí… Não ajeito com esse negócio de onograma…

– Holograma.

– Que seja.

– Mas e o Pelé? Esse jogava muito, né?

– Jogava. Mas esse eu não vi… Ô moleque, tá achando que eu tenho quantos anos?!

– Ih, vô, tô só perguntando. Conta aí, jogava ou não jogava?

– É a mesma coisa que perguntar se eu já tive cabelo na cabeça. Ou você acha que eu fui careca a vida inteira também?

– Nossa senhora, mas não pode nem perguntar um negocinho…

– Pelé jogou demais, rapaz. Demais, gastou a bola. Mas eu não vi jogar, só vi pelos vídeos.

– Mas o Messi você viu, né?

– Vi. Esse eu vi um monte de vezes. Vi fazer gol de tudo que é maneira. De cabeça, de direita, de canhota, de carrinho, de barriga, de dentro da área, gol de placa, gol de oportunismo… Isso que você vê aí nesse seu aparelhinho de ono…

– Holograma.

– Pro diabo, holograma! Isso que você vê aí de lance dele não é nada. Tinha de ver os jogos inteiros, era uma coisa do outro mundo, como jogava… Até o Maradona teve de admitir que não era mais o maioral na Argentina.

– Mas quem jogou mais, Pelé ou Messi?

-…

– Heim, vô?

– Ah, moleque, vai lá no balcão buscar um hidromel e para de me encher a paciência.

E o garoto, ciente de que o assunto estava encerrado, traz a bebida e se senta novamente diante do holograma sob o quiosque. Antes do fim do jogo, porém, coloca para fora uma dúvida derradeira que ficou ali coçando seu cérebro:

– Vô… quem é Maradona?