Inspirados nos maiores do planeta
Quem, em um domingo qualquer, passar por algum campo de várzea durante a disputa da Copa Prefeitura/Bahamas de Futebol Amador não deve se espantar se escutar gritos de torcida por um dos grandes clubes europeus. Não é delírio, muito menos coincidência: a cidade tem diversos time de futebol amador batizados com os mesmos nomes das mais famosas instituições do planeta bola.
Nos campos muitas vezes castigados e em sua maioria de terra, pode-se facilmente encontrar um Barcelona, um Milan, um Real, uma Roma, um Ajax, um Arsenal, entre outros, disputando pelejas em solo juiz-forano. E, como as equipes do Velho Continente, os homônimos de Juiz de Fora têm suas estrelas, não tão bem pagas quanto as europeias, mas inspiradas pelos companheiros de farda famosos.
Um dos mais tradicionais times do futebol amador local, o Real Milho Branco tem sua inspiração no Real Madrid, da Espanha. Claro, não sem seu próprio Cristiano Ronaldo. O professor de educação física Lucas Moraes, 27 anos, ganhou a marca dos companheiros de equipe e, apesar de tentar evitar comparações, confessa que tem no português uma boa fonte de inspiração.
"Isso é uma brincadeira que eles fazem, porque jogo no Real e sou um meia ofensivo, camisa 10, estou mais perto do ataque, conduzo mais a bola, usando a habilidade como recurso, vou mais para cima… mas não sou ele não. Sempre acompanhei jogos do Real Madrid, e o Cristiano é uma referência do futebol mundial, então, é legal assistir e tentar copiar algo como os dribles e sua batida na bola", diz Lucas.
Exemplo para eles
Se o Milho Branco tem seu Real, São Pedro tem o Milan, outra equipe de tradição na várzea local. E, como os italianos, os rossoneri de Juiz de Fora passaram por um processo de transformação. "O nosso Milan trocou muitos jogadores, ficou mais jovem, e esse mudança tem se mostrado benéfica. Acho que o Milan da Itália também pode ter sucesso implementando uma reformulação desse tipo", aposta o atacante Antônio Marcos Silvério, o Marquinhos, 30 anos, que entre um domingo e outro é gerente de uma loja de eletroeletrônicos. "A prova que estamos no caminho certo é o desempenho na Copa Bahamas", completa o jogador amador, destacando o compromisso de sua equipe hoje, às 10h10, contra o Avenida, no campo do São Benedito, partida na qual a agremiação de São Pedro tem a vantagem do empate por ter vencido todos os confrontos até aqui na competição.
Apesar não se dizer um ferrenho seguidor do Milan da Itália, Marquinhos acompanha alguns jogos, ficou chateado com a saída de um dos ídolos rossoneri no fim da última temporada e hoje presta atenção principalmente nos brasileiros. "Não costumo parar tudo para acompanhar, mas quando dá a gente assiste. Não gostei da saída do Ibrahimovic (centroavante sueco que se transferiu para o francês Paris Saint German), que considero um excelente jogador. Era um dos que a gente via jogando e tentava fazer o mesmo. Mas para chegar a ele, a um Robinho, a um Pato, está longe. Me esforço para dar o melhor aos 30 anos. Acho que dou para o gasto", considera Marquinhos.
Messi, não: Xavi ou Iniesta
Um dos times locais que mais carrega responsabilidade no nome é o Barcelona, do Vila Esperança II. Esperando bons fluidos futebolísticos vindos do clube espanhol multicampeão, a equipe de Juiz de Fora costuma tentar levar para a várzea uma das principais características do homônimo famoso. "Somos um time leve, que busca sempre a velocidade e o toque de bola como armas para vencer. Inclusive, acompanhamos as partidas do Barcelona da Europa para ver como é possível ser feito. Buscamos inspiração a cada jogo deles", conta o volante Emanuel "Manelzinho" Olegário, 19 anos, vendedor de material elétrico quando não está a serviço do Barça local.
Mesmo tendo o atual melhor do mundo na equipe catalã, Manelzinho diz que busca inspiração em outros companheiros de Messi. "Até pela minha posição, de volante, costumo reparar muito em Xavi e Iniesta. Os dois jogam demais. Há pouco tempo, passei a sair mais para o jogo e busco observar como eles fazem isso ao mesmo tempo que recompõem facilmente. Parece que nem estão fazendo força para marcar. São ótimos", considera.
Inspiração nos europeus
À frente do Real Milho Branco desde sua fundação, o assessor parlamentar José Aparecido de Almeida, 47 anos, conta que uma coincidência foi favorável ao batismo do time, que já havia sido criado pouco tempo antes, para seu nome atual. "Quando vim para o Milho Branco, fundamos o time com o nome de Varejão 42, que era também o patrocinador. Mas com o tempo sentimos a necessidade de batizar de verdade a equipe e, por conta do Real Madrid ser uma referência no futebol mundial, resolvemos misturar seu nome com o do bairro. Tivemos certeza quando vimos a coincidência do R e do M do escudo dos espanhóis", relembra.
Segundo Almeida, a proximidade dos dois times já influenciou a torcida em casa, garantindo o futuro do time local. "Meu filho, Lucas (hoje com 22 anos), é torcedor do Real Madrid muito em função do Real Milho Branco. Hoje ele é quem vem assumindo as minhas funções no time, já é apaixonado por isso e vai continuar meu legado", acredita o fundador.
O Barcelona de Juiz de Fora é mais novo que o homônimo do arquirrival espanhol. E, além da inspiração pela idolatria aos craques europeus, o time ganhou esse nome para fazer jus ao futebol bem jogado. "Tínhamos uma turma de amigos aqui no Vila Esperança II que jogava bola sempre junta. Então, em 2000, resolvemos montar um time. Na hora de pensar no nome, como gostamos do jogo bonito, foi escolhido Barcelona, para sempre nos lembrarmos de tentar jogar aquela partida alegre, leve e de toque de bola refinado", diz o cobrador Elder Silva, 35 anos, há dois à frente da equipe. "Marco os jogos e ajudo a organizar a bagunça, mas não sou o treinador", define.
Já o Milan, de São Pedro, pode se considerar uma equipe inspirada na Europa por tabela, pelo que conta o fundador e responsável pela equipe, o aposentado José Miranda, 68 anos. "Já existia um outro Milan, o do doutor Laurindo (Neto, médico e ex-vereador), aqui em cima. Mas este já não mantinha mais uma equipe disputando os campeonatos de futebol amador da cidade. Então criamos o nosso Milan em 2003, que por algum tempo ficou conhecido como Milan II. Fomos inspirados pelo outro Milan de Juiz de Fora e, por tabela, pelo italiano", conta.
Segunda geração a postos
Diferente de seus homônimos europeus, os times locais lutam muito para continuar se manter em atividade. Entre dificuldades econômicas, de agenda dos jogadores e até de local para atuar, eles vão sobrevivendo. "Nosso ‘Santiago Bernabéu’ é o campo do Milho Branco. Aqui é muito difícil ganhar de nós. Todos que vêm jogar na nossa casa nos respeitam. Mas hoje não é mais como era antigamente. Jogávamos muito mais e com mais times.O futebol amador em Juiz de Fora ficou muito caro, além da vida corrida de hoje em dia, que não dá muito tempo para nos dedicarmos à nossa bolinha, que é a nossa paixão", diz José Aparecido.
No Milan, a reunião dos atletas também só acontece aos domingos de jogos. "Não temos um lugar fixo de mando de campo, mas a maioria dos confrontos disputamos no Cerâmica. Pode ser considerado nossa casa. Nos reunimos basicamente quando jogamos. Antigamente, tínhamos a maioria de jogadores aqui do São Pedro mesmo e dava para nos encontrar mais, até para uma pelada. Mas hoje juntamos gente de toda a cidade, e reunir esse pessoal é complicado", explica Miranda.
Já o Barcelona faz questão de manter o entrosamento em dia, mesmo sem local fixo de jogos e treinos. Para isso, utiliza um expediente muito familiar a qualquer craque brasileiro. "Jogamos nos campos da Zona Norte, na Barreira, na ABCR ou no Esporte Clube Benfica. Mas sempre que podemos batemos uma pelada com quase todos do time. Como não tem um campo à disposição, a disputa é na quadra do Colégio Polivalente, no futsal mesmo", encerra Elder Silva.









