Ouça agora

Na orelha da bola


Por WENDELL GUIDUCCI

21/03/2013 às 07h00

O cemitério de Ronaldinho

Quem aqui, como eu, tem a idade de Cristo quando morreu?, berra Sérgio Britto em Será que é isso que eu necessito?, clássico subterrâneo do rock pesado brasileiro, do álbum Titanomaquia, lançado em 1993. Aniversariante do dia, Ronaldinho Gaúcho poderia levantar o dedão, arreganhar a simpática dentaria e responder: Eu tenho.

Eu duvido muito que o boleiro, fã de pagode e funk, tenha ouvido o Titanomaquia em 1993, e pouco creio que o tenha feito depois disso. Naquela época, com 10 anos, já mostrando serviço na escolinha do Grêmio em Porto Alegre, seu passatempo em casa era o mesmo dos intervalos de treinamentos hoje: fazer malabarismos com a bola.

Em 1999, ele mostrou que poderia fazer do campo um picadeiro sem para tanto deixar de ser mortal: aplicou um chapéu em um João da Venezuela e marcou um gol de placa na sequência. Era a Copa América no Paraguai, e no Brasil os Titãs acusavam a maioridade, lançando As dez mais, uma compilação com regravações de canções de gente como Roberto Carlos, Mamonas Assassinas e Tim Maia. Com 15 anos, eles já eram uma banda veterana, e muitos colocavam seu futuro em xeque.

Ronaldinho então largou o Grêmio na mão e foi para Europa, de onde ganhou o mundo, a Copa de 2002 e dois prêmios de melhor do planeta. Do Barcelona foi para o Milan, e da Itália pousou no carnaval que era o Flamengo em 2011 – não que não o seja hoje. Alternou momentos apáticos com apresentações soberbas – como no mítico 5 a 4 sobre o Santos na Vila Belmiro – e acabou saindo do bloco rubro-negro, de forma litigiosa, para o Atlético, o que muitos consideraram o sepultamento de sua carreira.

Assim como os Titãs, caras raros de cabelos ralos que superaram a morte de um guitarrista e a saída de outros membros e, contra todas as apostas, emplacaram mais de meia dúzia de hits na última década, Ronaldinho permanece, impávido, colossal.

É a alma do melhor time que o Atlético-MG tem desde 1980.

Na verdade, o cemitério de Ronaldinho virou o melhor time do Brasil.

Parabéns para o cadáver.