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Lembranças dos que não viveram


Por RENATO SALLES

18/12/2011 às 07h00

O 13 de dezembro da 1981 é uma data considerada mágica para os flamenguistas. Na última terça-feira, a Nação Rubro-Negra comemorou os 30 anos do dia que marcou a conquista do título de campeão mundial conquistado pela equipe comandada por Zico. Para o jornalista Eduardo Monsanto, da ESPN Brasil, autor do recém-lançado livro "1981: o Ano Rubro-Negro" e de um documentário homônimo, o primeiro tempo da vitória por 3 a 0 sobre Liverpool, na grande decisão de Tóquio, no Japão, é um momento ímpar na história do futebol mundial.

"Aquele time tinha algo diferente. Qualquer um pode ser campeão mundial. O Santos pode ser campeão domingo (hoje). Mas a maneira como o Flamengo conseguiu foi especial. Aqueles primeiros 45 minutos foram mágicos. Como uma ópera, uma orquestra, uma obra de arte. Perfeitos. É por isso que falamos disso tudo até hoje. Não houve outros 45 minutos iguais àqueles no futebol."

Nesse clima de nostalgia, três flamenguistas radicados em Juiz de Fora aceitaram o desafio da Tribuna de relembrar o maior título da história do clube do coração. Com um detalhe: ambos nasceram no ano mágico da 1981, e, em tese, não assistiram ao jogo histórico. Apenas em teoria, pois este é um daqueles casos em que a paixão desafia a linha cronológica, tempo e espaço.

 

Guiado pelo Fla

Juiz-forano, publicitário, professor universitário, jornalista e acima de tudo rubro-negro, João Paulo de Oliveira tinha apenas 20 dias de vida naquele 13 de dezembro. Um mero detalhe para quem, mesmo que ainda nas fraldas, assistiu àquela partida ao longo da infância, através das palavras de amigos e familiares.

"Meu destino foi guiado por essas glórias. Nasci entre o título da Libertadores e o Mundial. Apesar do meu pai ser tricolor, não teve como segurar minha identificação precoce. As imagens da final, Zico com a 10 branca, Adílio chegando para finalizar na pequena área, os gols de Nunes, eram sempre presentes na casa do meu ‘Vô Dim’ (Sebastião Pires de Almeida). Sempre se falava disso e se revia os gols em um VHS surrado."

João Paulo viu e reviu a decisão a sua maneira. Ou à maneira de seus familiares. Em seu imaginário de criança, seu sangue rubro-negro esteve representado na grande decisão. "Meu tio Zé dizia para um monte de gente que jogou na final. O time era Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Adílio, Andrade e Zico; Tita, ‘Zé’ e Nunes. Depois entrava o Lico, aos 36 do primeiro tempo. Ele fala com tanta paixão que muita gente fica se perguntando se não aconteceu mesmo."

‘Um time que estava 20 anos à frente no tempo’

Advogado, representante comercial e flamenguista roxo, vermelho e preto, Daniel Micherif tira onda de experiente. Ele garante que passou boas vibrações para a equipe rubro-negra contra o Liverpool e deu seu apoio, mesmo com apenas seis meses e dez dias.

"Eu costumo brincar que fui eu quem trouxe este título. Eu nasci, e o Flamengo resolveu ser campeão mundial e maltratar o Vasco, o Fluminense e o Botafogo. Minha família por parte de pai é toda flamenguista. Tenho certeza que durante o jogo eu estava na frente da televisão, uniformizado com um macacãozinho do Flamengo. Dei minha contribuição."

Além da influência familiar, Daniel acredita que ter nascido no ano do título mundial estabeleceu um vínculo ainda maior entre ele e seu clube do coração. "Era um time que estava 20 anos à frente de seu tempo. Sempre tive muito interesse por aquele título. Não me cansava de ver os videoteipes e desde de muito novo já sabia escalar aquela equipe de cor e salteado."

História construída a partir de relatos inesquecíveis

Os primeiros contatos do designer gráfico e flamenguista Vinícius Peixoto, 30, com as histórias da conquista do título mundial rubro-negro vieram por uma via improvável. Suas primeiras reminiscências do jogo histórico foram erguidas pelas palavras do pai, botafoguense.

"Essa construção do time imbatível de 81, e do mito e grande ídolo Zico, começou com as histórias relatadas por meu pai, botafoguense, e meus tios flamenguistas. Desde que me entendo por gente, escutava meu pai contar que o Zico foi o melhor atleta que ele viu jogar. Sempre acompanho tudo o que sai sobre o Flamengo na mídia, li em muitos jornais, revistas e livros. Aprendi o que foi aquele time, vi fotos, vídeos e me emocionei ao assistir o jogo da final do mundial na íntegra."

As palavras do pai aliadas às imagens da partida tornaram-se uma emoção constante para o torcedor. "Até hoje, eu me arrepio toda vez que assisto aos gols daquele jogo ou vejo alguma matéria sobre o Mundial que o Zico foi buscar."

Visão privilegiada de escritor

Aos 32 anos, o jornalista Eduardo Monsanto era uma criança de 2 anos quando o Flamengo sagrou-se campeão mundial. Apesar disso, afirma, é dono de uma visão privilegiada da partida. "Se o jogo acontecesse hoje, acho que teria condições de ir, e, provavelmente, iria. Trabalhando ou por opção mesmo. Mas essa época passou. À minha maneira, consegui ver o jogo. E vi melhor que muita gente. Para escrever o livro, conversei com todos os jogadores que estiveram lá. Enfim, compensei qualquer sentimento de lamentação por não ter podido assistir àquela partida."

Monsanto acredita que, além do belo futebol apresentado, um fator extracampo faz aquela equipe mítica e tão respeitada pelos torcedores: "A relação que existia entre os jogadores e o clube, muito diferente do que acontece hoje. Era um time que tinha muitos jogadores formados na base, com grande identificação com o Flamengo. Muitos até se comportavam como jogadores-torcedores. O Zico havia sido torcedor de arquibancada, assim como o Adílio, por exemplo."