Gente de Juiz de Fora

Quando o apito inicial soar no Estádio Coaracy Fonseca, em Arapiraca, às 20h30 dessa segunda-feira (19), o Carijó estará diante de 90 minutos que podem marcar sua história. Caso consiga administrar a vantagem conquistada com a vitória por 2 a 0 sobre o ASA no primeiro jogo, o Tupi conquistará seu primeiro acesso à Série B na história, um feito construído pelos pés de atletas forasteiros. Mas o trabalho de três profissionais juiz-foranos na comissão técnica representará a cidade, em uma demonstração de fidelidade e amor ao Alvinegro de Santa Terezinha.
O preparador de goleiros Walker Campos, 47 anos, o auxiliar-técnico Leonardo Devanir, 38, e o analista de desempenho Júlio Cirico, 31, estão vivendo dias de ansiedade. Os profissionais têm em comum a identificação com o Carijó. Apesar de trilharem caminhos distintos, têm tantos anos de dedicação ao clube que suas histórias de vida não podem ser dissociadas do Tupi. Sucessos e fracassos, todos vividos intensamente.
“Minha relação com o Tupi vem desde pequeno”, lembra Walker. “Meu pai me levava nos jogos. Tentei treinar no clube, mas não consegui. Era muito difícil, tinha muitos bons jogadores na década de 1980. Em 1999, tive a oportunidade de trabalhar nas categorias de base com o Léo Condé (treinador, hoje no Sampaio Corrêa). Fazíamos um projeto social em bairros da cidade, e desde então estou aqui. Eu amo o meu clube. É uma paixão mesmo, falo de coração. Se a gente conseguir dar esse presente para os torcedores, vai ser maravilhoso”, afirma o treinador de goleiros, que vê a conquista da vaga para a Série B como um divisor de águas na relação do clube com a cidade.
“De 2006 para cá a torcida vem crescendo. Vejo muitas crianças no estádio, isso é bacana. A torcida vai se renovando a partir do momento que você consegue os resultados. O Tupi vem em uma crescente, e estamos fazendo parte disso. Sou o mais antigo aqui e falo isso com orgulho. Representamos não só os 600 mil juiz-foranos, mas toda a região. É uma responsabilidade enorme. Poderá ser a coroação de um trabalho de longos anos. Olha, tenho até medo da minha reação (risos)!”
‘Uma sensação imensurável’
O Tupi entrou na vida do analista de desempenho Júlio Cirico logo aos 11 anos de idade, quando iniciou na base do clube. Depois de sofrer quatro lesões, acabou desistindo do caminho de atleta, mas nem por isso abandonou o sonho de chegar ao futebol profissional. Graduou-se em educação física e, em 2008, recebeu um convite de Léo Condé para se tornar auxiliar na preparação física do Alvinegro. Uma oportunidade de ouro para crescer profissionalmente e permanecer em contato com o clube que lhe abriu as portas na infância.
“Para a gente que é de Juiz de Fora é uma sensação imensurável. Fazemos parte da cidade, começamos aqui e é um privilégio trabalhar no Tupi. Hoje a competitividade é muito grande. A cada acesso você sabe que aumentam as dificuldades, principalmente para um clube do interior. Só quando conseguirmos o acesso teremos a noção de quanto será importante para a nossa carreira e para Juiz de Fora. Em especial para o Tupi, que passará a ter todos os jogos transmitidos pela televisão, uma visibilidade muito grande”, afirma Júlio Cirico.
Entre glórias e decepções recentes vividos com o clube, o analista de desempenho escreveu um capítulo especial em 2013, quando comandou a equipe interinamente por dois jogos na campanha da Série D. Primeiro, na inesquecível partida contra o Aparecidense-GO, que contou com a bizarra influência negativa do massagista adversário Esquerdinha. E, logo depois, na primeira decisão do acesso à época, contra o Mixto-MT, quando o Carijó atuou fora de casa e conquistou o empate por 1 a 1, abrindo caminho para o sucesso em casa. “Foi um jogo dificílimo, com aquele clima de acesso que vamos encontrar contra o ASA.”
Léo Devanir: segunda chance
As marcas dos anos de luta do Tupi para chegar à Série C também fazem parte da biografia de Leonardo Devanir. A história do atual auxiliar-técnico no clube começou em 1992, quando o jovem zagueiro dava seus primeiros passos nas categorias de base do Carijó. Quatro anos depois chegou aos profissionais e, em 1997, viveu a primeira frustração, após ver o sonho do acesso bater na trave na fatídica derrota para o Sampaio Corrêa, por 1 a 0, dentro do Mário Helênio. Agora, o profissional vive a ansiedade pela concretização da fantasia que permanece guardada na mente. “Estou muito feliz por ter essa oportunidade mais uma vez. Em 1997 tive como jogador, mas não consegui. Vou fazer o meu melhor para contribuir fora de campo, conversando e passando tudo aquilo que eu vivi. Respeitamos a equipe de Arapiraca, mas estamos muito confiantes”, diz Léo Devanir.
A história do zagueiro como atleta do Tupi se encerrou em 11 de janeiro de 1999. Depois vieram títulos por Coritiba, Flamengo, Palmeiras. Glórias que não fizeram o defensor se esquecer do dia exato em que se despediu (temporariamente) de Santa Terezinha. “A data ficou marcada pela minha identidade com Tupi. Passei pelo juvenil, juniores e profissional. Me lembro de sair do Aeroporto da Serrinha para São Paulo, depois Curitiba. Um céu de brigadeiro como tem feito nesses dias. Isso marca. Agradeço muito ao Tupi pela oportunidade. (O acesso) vai ter o mesmo peso de um título pelo Palmeiras ou Flamengo. Sou de Juiz de Fora, o Tupi é meu clube de origem, onde tudo começou. Sou muito grato ao Tupi e a Juiz de Fora. Espero coroar minha história.”
Compromisso com uma boa marcação
Para enfrentar o ASA nesta segunda, o técnico Leston Júnior não terá problemas na escalação. Todos os titulares estão à disposição, e a tendência é a manutenção da formação que venceu a partida de ida. Com isso, o padrão de jogo também deverá ser preservado, com velocidade na saída de bola e, principalmente, comprometimento total com a marcação. Caso o Carijó não sofra gols, a classificação estará assegurada. Tarefa que o Alvinegro está apto a desempenhar, segundo a avaliação do auxiliar-técnico, especialista no setor defensivo.
“Sem dúvida alguma, o setor defensivo teve uma grande contribuição (na campanha). No início com Maílson, depois com o Leandro Euzébio, o Sidimar e o Fabrício. Sem esquecer do Osmar, Bruno Ré, Carlos Renato, os volantes. Foi um setor que agradou. Todos os jogadores que estiveram aqui mostraram seu valor. Nossa obrigação é defender. As coisas têm acontecido do jeito que queremos atrás, e ainda tem o complemento dos gols decisivos dos zagueiros (como no primeiro jogo), e isso é bacana. Está todo mundo de parabéns. Vamos com tudo para conquistar o nosso objetivo do acesso”, finaliza Léo Devanir.









